O PEQUENO PRÍNCIPE

Uma garota acaba de se mudar com a mãe, uma controladora obsessiva que deseja definir antecipadamente todos os passos da filha para que ela seja aprovada em uma escola conceituada. Entretanto, um acidente provocado por seu vizinho faz com que a hélice de um avião abra um enorme buraco em sua casa. Curiosa em saber como o objeto parou ali, ela decide investigar. Logo conhece e se torna amiga de seu novo vizinho, um senhor que lhe conta a história de um pequeno príncipe que vive em um asteróide com sua rosa e, um dia, encontrou um aviador perdido no deserto em plena Terra.

 

Trailer:

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Lançamento: 20 de agosto de 2015 (1h46min)

Direção: Mark Osborne

Elenco: Mackenzie Foy, Jeff Bridges, Rachel McAdams mais

Gênero: Animação

Nacionalidade: França

 

Fonte: AdoroCinema

Categoria: Literatura e Filmes
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EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA GESTO NATURAL RETRATA A BELEZA DAS DORES E ALEGRIAS DO PARTO

De 23 de agosto a 19 de setembro a galeria Olho de Águia, em Taguatinga, recebe a exposição fotográfica Gesto Natural, de Débora Amorim, formada por imagens de mulheres e suas famílias em um dos momentos mais sublimes de suas vidas: o nascimento de um filho. Mulheres que se decidiram pelo parto natural domiciliar. “São belas sequências de imagens desnudando preconceitos e normas para falar da livre condição – do direito a dar à luz nas próprias casas”, revela Valéria Véras, curadora da mostra. Acompanham as fotos os relatos emocionados dessas famílias.

 

Dada a força e importância do tema, a exposição fotográfica integra uma grande programação que inclui lançamento de catálogo, rodas de conversa e exibição de filmes. Apesar da escolha pelo parto natural trazer inúmeros benefícios para a mãe e para a criança, ainda é um desafio para muitas mulheres. No Brasil, chegamos ao número alarmante de 88% de cesáreas em hospitais particulares, enquanto a OMS diz que apenas 10 a 15% dos partos necessitam de intervenção.

 

Diante desse quadro, em 2015, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde divulgaram uma série de resoluções para estimular a realização do parto natural na rede privada de saúde e diminuir o número de partos cirúrgicos desnecessárias no país. Uma delas é a ampliação do acesso da gestante à informação. É aí que entra a importância do trabalho de Débora, que o faz com sensibilidade e beleza. “O parto natural e? aquele que respeita a liberdade da mãe escolher como ter o filho, considerando a fisiologia do parto e do corpo da mulher”, lembra a artista.

 

Débora é fotógrafa profissional desde 2000, atuando na área de fotografia de gestantes, partos, cultura e gastronomia, e desde 2010, como doula, dá aconselhamento e assistência a parturientes, antes, durante e depois do parto. Tendo já publicado o livro de fotos “Brasília, uma arquitetura familiar”, a fotógrafa incorpora a vivência com gestantes em sua arte e revela ao público a beleza das mulheres em sua plenitude.

 

Fazem parte da exposição fotos de partos naturais que Débora acompanhou como fotógrafa. Sua experiência como doula conduz o olhar da câmera para revelar ao público os detalhes sensíveis e emocionantes do momento do parto: as dores das contrações, os momentos de espera, o corpo disponível para a chegada da criança, a cumplicidade dos pais e companheiros, e os braços abertos das famílias para recebê-las. Esses partos foram acompanhados por me?dicas obstetras, enfermeiras obstetras ou parteiras tradicionais. Débora, acostumada a olhar Brasília com poesia, registra o nascimento dos novos brasilienses, acolhidos no aconchego dos seus lares.

 

Durante e depois do período da exposição, Débora Amorim coordena rodas de conversa sobre parto natural, com profissionais da área, gestantes, casais e demais pessoas interessada no assunto da gestação, parto e pós-parto. A primeira roda acontece no lançamento do catálogo, que além das fotos da exposição, traz os relatos das famílias retratadas e informações sobre o parto natural, no dia 18/8, às 19h30, no C’est si Bon Creperie e Bistrô, na Asa Norte. Logo depois, no dia 21/8, às 19h, no Balaio Café, acontece o “Parto com Pipoca”, com a projeção de vídeos de parto. Na sequência, acontecem rodas de conversa no Ponto de Cultura Invenção Brasileira em Taguatinga Sul, no Ambulatório do HUB, no espaço Nossa Casa na Asa Norte, na Casa da Cultura do Varjão e no Estúdio Unmaní no Guará I. Todas as atividades são gratuitas

 

Serviço

Data: De 23 de agosto a 19 de setembro

Hora: Visitações de terça a sexta, das 14h às 20h. Sábado, das 17h às 20h.

Local: Galeria Olho de Águia (CNF 1 Edifício Praiamar, Bloco D, Loja 12 , Taguatinga Norte)

Entrada franca

Informações:  www.gestonatural.com.br ou www.facebook.br/gestonatural

Classificação livre

 

Fonte: Jornal de Brasília

Categoria: Cult
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CIENTISTAS CRIAM DROGA QUE ‘ALTERA’ DNA E INIBE EVOLUÇÃO DO CÂNCER

Grupo da UnB espera liberação de R$ 170 mil para seguir com estudo.

Cientistas da Universidade de Brasília desenvolveram uma droga capaz de alterar a estrutura do DNA e assim evitar a multiplicação de células com câncer. A pesquisa começou há quatro anos, e o grupo aguarda atualmente a liberação de R$ 170 mil para prosseguir com o estudo. A expectativa é de que o remédio já esteja no mercado daqui a 12 anos.

 

De acordo com os pesquisadores, a descoberta partiu da ideia de enxergar o nucleossomo – unidade da cromatina, que compacta o DNA dentro da célula – como alvo terapêutico. O medicamento atua conectado a ele, modulando a abertura e fechamento das fitas de informação genética. Assim, ele interfere na interação entre o DNA e proteínas, podendo “barrar” o que não é desejado, como o câncer.

 

A tecnologia não impede o surgimento da doença, mas evita que células com informações genéticas não desejadas se reproduzam. “No câncer, por exemplo, temos uma alta proliferação celular, e isso acontece porque a expressão de vários genes está desregulada na célula. Se regulamos essa disfunção, tratamos o câncer”, explica a biomédica e doutoranda em patologia molecular Isabel Torres.

 

“Não esperamos que esta nova classe de drogas cure a doença, mas, sem dúvida, ela representa uma esperança aos pacientes que não respondem a terapias tradicionais. A ideia é associar estas novas moléculas a outras drogas disponíveis no mercado para obtenção de uma melhor resposta clínica”, completa.

 

Orientador da pesquisa, o professor e médico Guilherme Santos afirma acreditar que o procedimento possa ser utilizado contra vários tipos de câncer, como o gliobastoma (no cérebro) o melanoma (na pele), além de doenças hormonais e obesidade. Os primeiros resultados do trabalho foram publicados na revista “Trends in Pharmacological Sciences – Cell” no final de março.

 

A próxima etapa envolve testes em camundongos e ainda não tem data para acontecer por falta de recursos. Para recrutar investidores enquanto esperam dinheiro de fundos de pesquisa, os cientistas criaram a startup Nucleosantos Therapeutics. A ideia é que ela descubra e desenvolva mais moléculas que possam se ligar a nucleossomos.

 

Isabel afirma que a nova tecnologia surge como alternativa para pacientes que perderam as esperanças nos tratamentos convencionais. “Como cientista, acreditamos que esta estratégia inovadora terá um grande impacto na forma de observar o funcionamento celular e com isto poder intervir precisamente em distúrbios celulares. É incrível observar que poderemos modular diretamente a expressão gênica e, consequentemente, o conteúdo proteico das células.”

 

Etapas

 

A pesquisa foi dividida basicamente em quatro etapas: desenho e simulações das potenciais drogas; experimentos que demonstrem a interferência nas interações feitas pelo DNA; experimentos em animais; e testes em seres humanos. Os cientistas já gastaram R$ 70 mil, de financiamento do governo federal, além de aproveitar parte do material usado na pesquisa de Santos no pós-dourado na Inglaterra – avaliado em R$ 60 mil.

 

Ainda não há definição sobre o formato do novo medicamento, mas a equipe estuda testá-la tanto via oral quanto injetável. “Precisamos de financiamento para podermos avançar nesta pesquisa. Seria ótimo podermos contar com dinheiro de doações de empresas e pessoas ricas – milionários com ações filantrópicas –, a exemplo do que ocorre em outras grandes universidades, como Harvard e Cambridge”, diz a biomédica.

 

Fonte: G1

Categoria: Acontece
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ECONOMIA BRASILEIRA CAIRÁ 2,26% EM 2015, ESTIMA O MERCADO

Analistas e investidores do mercado financeiro estimam que a economia do país caia 2,26% este ano, segundo o boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central. De acordo com a publicação, a produção industrial brasileira cairá 5,57%.

 

Haverá, segundo as estimativas, queda de 9,29% para 9,28% da inflação baseada no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), na comparação com os dados do último boletim Os preços administrados, monitorados pelo governo, terão um aumento de 15,20%

 

A estimativa para a dívida líquida do setor público em percentual do PIB foi elevada de 36,15% para 36,20%, na comparação com o boletim da semana passada. A expectativa para a taxa básica de juros foi mantida em 14,25% até o fim do ano. Também foi mantida a expectativa do dólar no valor de R$ 3,50 para o mesmo período.

 

Para o setor externo, na avaliação do mercado financeiro, o déficit em conta corrente ficará em US$ 76,5 bilhões. O saldo da balança comercial atingirá US$ 8 bilhões e os investimentos estrangeiros diretos, US$ 65 bilhões.

 

Fonte: Agência Brasil

Categoria: Em pauta
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1š BIERFEST BRASÍLIA

Entre os dias ​4 e 6 de setembro, no Arena Lounge do Estádio Nacional Mané Garrincha​, acontece ​o Bierfest Brasília 2015 – o maior evento do mercado cervejeiro da Região Centro-Oeste​.

 

 

​O público vai contar, além de 50 estandes servindo mais de 200 rótulos de cervejas especiais, com shows das bandas Scalene, Sargento Pimenta, O Bardo e o Banjo, Os Dinamites, Passo Largo, MegaJamgo, e Lady Laura com a participação de George Israel (compositor, saxofonista e violonista do Kid Abelha desde a sua formação em 1985, que mantém carreira solo paralelamente desde 2004). Além disso, a Rádio Cerrado convidará Homem da Marreta com DJ Thiago Freitas e DJ Maraskin, DJs Weird Rockers e DJ Obi Wan Ca.

 

A Acerva Candanga (Associação dos Cervejeiros Artesanais do Distrito Federal), em parceria com o Bierfest Brasília, levará cinco integrantes da associação para ensinar ao público, na prática, sobre o processo de produção da cerveja caseira, nos dias 5 e 6 de setembro, a partir das 14 horas. Sem custo adicional.

 

De acordo com Zeca Reino, presidente da Acerva Candanga, o processo consiste em seis passos: moagem, mosturação, clarificação, fervura, resfriamento e fermentação. A explicação será feita com o auxílio de banners e equipamentos de produção.

 

Programação:

4/09 – Sexta-feira (18h às 00h)

- Sargento Pimenta

- O Bardo e o Banjo

- DJs da Rádio Cerrado

 

5/09 – Sábado (12h às 23h)

- Os Dinamites

- Passo Largo

- MegaJamgo

- DJs da Rádio Cerrado

 

P​alestras pagas:​

- “Harmonização na Prática” com o Chef Ronaldo Rossi (com degustação)

 

P​alestras gratuitas​:

-“Interferência da Madeira na Guarda da Cerveja” com César Adames (especialista de tabaco e destilados)

-“Perspectiva Futura da Cerveja no Brasil” com Jorge Gitzler (presidente da Abracerva – Associação Brasileira de Cerveja Artesanal) e Alberto Nascimento (Cervejaria Colombina)

-“Escolas Cervejeiras” com Daniel Wolff (Mestre-Cervejeiro.com)

 

6/09 – Domingo (12h a 00h)

- Lady Laura com participação especial de George Israel (Kid Abelha)

- Scalene

- DJs da Rádio Cerrado

 

P​alestras pagas::

- “Harmonização na Prática” com o Chef Ronaldo Rossi (com Degustação)

 

P​alestras gratuitas​:

-“Cervejas com Ingredientes do Cerrado” com Marcelo Scavone e Alberto Nascimento (Cervejaria Colombina)

-“Cervejarias Ciganas” com Alexandre Xerxenevisky (Microcervejaria X) e Murilo Foltran (Cervejaria DUM)

 

Marcas de cervejas confirmadas:

- Cervejaria Prost Bier

- Cerpa

- Cervejaria Dum

- Bierland

- Cervejaria Nacional

- Seasons

- Cervejaria Noi

- Fuller’s

- Cervejaria Serra das Três Pontas

- Cervejaria Anner

- 961 Beer

- Cervejaria Coruja

- Colombina

- Microcervejaria X

- Cervejaria Magma

- Cuesta

- Tupiniquim

- Way

- Brooklyn

- Cervejaria Colorado

- Cervejaria Schornstein

- velhas Virgens

- Bodebrown

- Haros Chopp

- Astúria

- Entre outras

 

​Tipos de cervejas presentes no evento:​

- Pilsen

- Munich Helles

- Weiss

- India Pale Ale

- American Pale Ale

- Sour

- Blonde Ale

- Porter

- Entre outras

 

​Dica:

1º Bierfest Brasília

De 4 a 6 de setembro​. S​exta, das 18 às 00h; sábado, das 12h às 23h; e domingo, das 12h às 23h

​Local: Arena Lounge do Estádio Nacional de Brasília – Mané Garrincha

​Ingressos:

Passaporte (3 dias): ​R$ 80 (meia)

​Para um dia de evento​: R$ 30 (meia).

​Obs: ​O ingresso dá direito a uma caneca para consumo, que será distribuída no dia do evento (limitado a 15 mil unidades).

​Pontos de vendas: ​site www.ingressorapido.com.br ou nos pontos de vendas do Ingresso rápido, instalados no Brasília Shopping e na FNAC (Park Shopping)

Classificação Indicativa: 18 anos

​Mais informações: 3033-8879 / www.bierfestbrasilia.com.br

 

Fonte: Dicas da Capital

Categoria: Fique de Olho
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MESMO COM CRISE, DÍVIDA DA MAIORIA DOS ESTADOS CAIU NO PRIMEIRO SEMESTRE

A crise econômica não tem afetado o ajuste fiscal na maioria dos estados. Segundo levantamento da Agência Brasil com base em relatórios de execução orçamentária enviados pelos governos estaduais ao Tesouro Nacional, 17 unidades da Federação conseguiram reduzir o endividamento no primeiro semestre.

 

O levantamento usou como parâmetro a relação entre dívida consolidada líquida (DCL) e receita consolidada líquida (RCL), estabelecida na Lei de Responsabilidade Fiscal. A DCL leva em conta tudo o que o governo local deve menos o que tem a receber. A RCL considera tudo o que o estado arrecada, deduzidas as transferências para os municípios. Os dois indicadores excluem as receitas e os gastos com a previdência dos servidores públicos locais.

 

As unidades da Federação que apresentaram queda na relação DCL/RCL são: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins. Até governos que enfrentam problemas financeiros, como o do Paraná e o do Distrito Federal, reduziram o endividamento nos seis primeiros meses do ano.

 

Em quatro estados – Goiás, Mato Grosso, Pará e Paraíba – a relação entre dívida e receita ficou próxima da estabilidade, subindo menos de 1 ponto percentual. Em outros quatro estados – Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo – o indicador apresentou aumento significativo. As maiores altas foram observadas em Minas Gerais (10,61 pontos) e na Bahia (6,68 pontos).

 

Único estado que estoura o limite de 200% na relação DCL/RCL estabelecida pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o Rio Grande do Sul registrou o terceiro maior aumento. A razão DCL/RCL passou de 209,33% no fim do ano passado para 213,52% no fim de junho. A situação tende a piorar no segundo semestre, com o atraso no pagamento das parcelas da dívida do estado com a União, por causa do pagamento de multas e de encargos adicionais.

 

Entre os estados que reduziram o endividamento, as maiores quedas ocorreram em Rondônia (-12,77 pontos), Amapá (-9,9 pontos) e Roraima (-7,88 pontos). Por não terem enviado os relatórios ao Tesouro Nacional dentro do prazo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Norte ficaram fora do levantamento.

 

Em 14 das 17 unidades da Federação onde a relação DCL/RCL caiu, a queda decorreu da redução nominal da dívida. Apenas em Alagoas, no Piauí e no Rio de Janeiro, a dívida consolidada líquida subiu no primeiro semestre, mas a alta foi compensada pelo aumento da receita em ritmo maior. Nos estados onde a relação ficou estável, a dívida e a receita aumentaram em ritmos parecidos, exceto em Mato Grosso, onde os dois indicadores caíram simultaneamente.

 

Nos estados em que a razão entre DCL e RCL subiu, o principal responsável foi a alta nominal da dívida consolidada líquida, que subiu em ritmo maior que a receita. Em Minas Gerais, que liderou a alta no endividamento, a dívida aumentou 4,81% e a receita corrente líquida caiu 1,06% em valores nominais.

 

A Agência Brasil procurou as secretarias de Fazenda dos quatro estados onde a relação dívida/receita subiu. Apenas a de Minas Gerais respondeu. Segundo o governo mineiro, além da queda da receita corrente líquida, a alta do dólar impactou a correção da dívida externa atrelada ao câmbio e da dívida interna corrigida pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI).

 

Atualmente, a parcela da dívida dos estados renegociada com a União no fim dos anos 90 é corrigida pelo IGP-DI mais 6 ou 7,5 pontos percentuais por ano. Até junho, o índice acumulava 6,21% em 12 meses, totalizando correção de 12,21% ou de 13,71%, dependendo do caso.

 

No ano passado, o Congresso aprovou uma lei que determina a troca do indexador para a taxa Selic (juros básicos da economia) ou pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais 4 pontos percentuais, prevalecendo o menor índice. A falta de regulamentação da medida fez os parlamentares aprovarem outra lei determinando a troca até o fim do ano.

 

Nos 12 meses terminados em junho, a taxa Selic média estava em 11,87% ao ano, e o IPCA acumulava alta de 8,89%, totalizando correção de 12,89%, caso o novo indexador fosse aplicado.

 

Confira abaixo a variação do endividamento dos estados no primeiro semestre:

 

Fonte: Agência Brasil

Categoria: Em pauta
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DESEMBARGADOR DO TRF REITERA QUE JUÍZES DEVEM SERVIR MAIS À SOCIEDADE

"Quando assumimos a magistratura, assumimos um compromisso, um pacto fundamental de fazer justiça para todos aqueles que clamam por uma justiça oportuna", afirma Antônio de Souza Prudente

Ele trocou a batina pela toga de juiz há exatos 33 anos. Ex-seminarista, poeta, professor, o desembargador do TRF Antônio de Souza Prudente encara a profissão como sacerdócio: “Fazer justiça neste país é um desafio diário e um exercício constante de coragem. Juiz independente contraria muita gente e quase sempre é perseguido por isso”. Conhecido por tomar decisões polêmicas, como a da abertura dos arquivos da ditadura, Prudente sabe que desagrada a poderosos e grandes organizações quando julga ações nas áreas de meio ambiente, energia, saúde e educação. Admite que recebeu pressão quando determinou a suspensão das obras na usina de Belo Monte. Na avaliação de Souza Prudente, a corrupção se institucionalizou no Brasil e exige postura firme de representantes do Judiciário, como o juiz Sérgio Moro e o ministro Joaquim Barbosa. Na entrevista ao Correio, ele critica o STF por não estender a PEC da Bengala para outras instâncias: “Desembargador é juiz. Todos são juízes. Então, o tratamento tem que ser isonômico”. E defende uma melhor análise e distribuição dos processos em tribunais a fim de evitar a prescrição das penas, filha dileta da impunidade.

 

Julgar questões delicadas no Brasil é muito arriscado?

 

Ah, sim! Um juiz contraria grandes interesses, de grupos que estão realmente no contexto da corrupção institucional. Então, mexer com isso, enfrentar isso na judicatura é correr um grave risco. Mas não podemos recuar. O padre Vieira, nos seus sermões, analisa isso com propriedade; Ruy Barbosa também, nos seus discursos parlamentares. O pior dos juízes foi Pilatos, porque Pilatos foi um juiz covarde, carreirista, bajulador e corrupto. No entanto, ele não resistiu à inocência que esteve diante dele quando lavou as mãos perante Cristo e disse: “Lavo as mãos perante este inocente”. Mas, ali, ele se sentiu numa situação constrangedora diante da sua fragilidade. Ele não poderia desagradar àquela turma enfurecida, que queria crucificar Cristo, mesmo diante de uma sentença que ele não teve coragem de cumprir. E há muitos juízes que não têm coragem de dar eficácia a seus julgados — isso é importante. Daí por que a técnica processual moderna dá essa ferramenta ao juiz. É preciso ter coragem, porque declarar direitos, proclamar direitos, é muito fácil. O importante é garantir o direito.

 

Faltam mais juízes corajosos no Brasil?

 

Falta muito. A coragem do juiz não está expressamente posta na lei ou na Constituição. Mas está no texto da Constituição como elemento condicionador, para que o juiz se torne verdadeiramente juiz e se torne um protetor de direitos. O juiz medroso, normalmente, é carreirista, não pensa na sociedade. Pensa na autopromoção: “Eu não vou decidir isso aqui; isso vai arranhar minha carreira”. O Brasil precisa de mais juízes corajosos.

 

Ele pensa na consequência daquela decisão para a vida dele?

 

O verdadeiro juiz é aquele que tem a consciência livre para assumir o encargo extraordinário de fazer justiça, como o desafio que a sociedade brasileira lhe coloca nos termos da Constituição.

 

É uma vocação então?

 

É uma vocação e um sacerdócio. Por isso, acho que Deus cuidou e cuida de mim, modéstia à parte, porque se não morri durante o grave problema de saúde que tive, fruto de armações e pressões psicológicas sobre a minha independência como magistrado, é porque Deus segurou-me pelos cabelos e disse: “Eu quero você aqui para continuar o seu projeto de fazer justiça até o dia em que eu quiser”.

 

O juiz que segue o sacerdócio, tem vocação, deve se aposentar? Ou ele fica o tempo que puder?

 

O juiz que cumpre sua missão constitucional não quer se aposentar. Ser juiz é uma missão magnífica. É uma realização pessoal. O juiz exerce uma atividade que, a rigor, não lhe pertence, pertence à sociedade. Nós somos instrumentos de justiça. Não há algo mais confortante, mais agradável, do que fazer justiça. Sentir o sabor da justiça.

 

Conhece histórias de colegas perseguidos?

 

Algumas. Eu já sofri perseguições violentas e problemas de saúde seriíssimos. Mas parece que Deus segura na minha mão…

 

Problemas de saúde decorrentes do estresse do trabalho?

 

Não. De armações diabólicas para me afastar. Mas, graças a Deus, venci, superei esses problemas de saúde e voltei a lutar.

 

Foi recentemente?

 

Há alguns anos, depois da minha participação na Rio+20. No período de 2011 a 2013. Eu fiquei apagado da Justiça, pedi licença para poder ressuscitar. Aí houve vários encaminhamentos terríveis. Até uma cirurgia que seria mortal. Mas nós temos essa iluminação. Costumo rezar muito os salmos 26 e 90. “O Senhor é a minha luz, é a minha salvação, a quem temerei?” Então, somos instrumentos de justiça. Portanto nisso não há nenhuma vaidade.

 

A Justiça precisa de ícones, como Sérgio Moro e Joaquim Barbosa? Essas personalidades marcantes são essenciais?

 

A sociedade reclama isso. Quando assumimos a magistratura, assumimos um compromisso, um pacto fundamental de fazer justiça para todos aqueles que clamam por uma justiça oportuna, que deve se concretizar na realização do processo. A grande dificuldade que sentimos hoje é exatamente nesse aspecto, quando o juiz não sabe ainda executar as próprias sentenças. Nas escolas da magistratura, não se ensina ao juiz essa técnica procedimental de realizar um processo justo. Ensina-se tudo sobre os teóricos — aliás, ele já vem escolado das universidades, dos cursos de mestrado, doutorado —, mas não aprendeu o fundamental: a técnica de decidir já no processo, como juiz.

 

É um dos motivos da letargia da Justiça, da demora para os julgamentos?

 

Isso. Fica tudo parado porque não se sabe o que fazer. Daí por que apresentamos esse rol de técnicas à Corregedoria Nacional de Justiça, no sentido de exigir uma triagem em cada gabinete para que o juiz, perante a sua vara, o desembargador em seu gabinete, possa evitar este estrangulamento de manter um processo que não é da competência do órgão judicante. Isso acontece com frequência: um processo fica mal distribuído, mal alocado um, dois, cinco, 10 anos, e o relator só vai identificar que não tem competência para julgar esse processo quando chega o pedido de preferência.

 

Esse equívoco básico prejudica a vida de muita gente, não?

 

Com frequência. Mas por que isso acontece? Porque esse servidor, que tem uma denominação do seu cargo tão importante, o analista judiciário, não é preparado para analisar, a rigor, absolutamente nada. Quer dizer, o analista judiciário precisa ser muito esperto em técnicas procedimentais para que nunca possa cometer equívocos. Um exemplo: um dos processos mais antigos da Justiça Federal foi aquele em que fui relator e tramitou durante 27 anos na Justiça Federal. Anulava-se a sentença, retornava para a primeira instância, sempre com vários expedientes protelatórios, que foi ação promovida pelos parentes de algumas pessoas desaparecidas durante a ditadura militar. E onde se pedia nesse processo a abertura dos arquivos da ditadura. Esse processo estava havia mais de cinco anos distribuído no nosso tribunal perante uma seção que não tinha competência para julgá-lo. E a rigor, a competência, era nossa.

 

Foi a sua decisão mais aplaudida, não?

 

Exatamente, numa sessão plenária histórica, na qual a mídia nacional e estrangeira pôde transmitir para todo o planeta, ao vivo e em cores. Esse caso é paradigma, mostramos que o papel do juiz é exatamente este: fazer justiça. Concluí meu voto citando um trechinho de Castro Alves, no clássico poema “Navio Negreiro”. Foi emocionante pra mim. A população clama por justiça, não só justiça perante o Judiciário. Porque, para fazer justiça, todos os órgãos dos poderes públicos têm obrigação de fazer políticas públicas em termos educacionais. Nós temos uma política pública que o governo ignora chamada Política Nacional de Educação Ambiental, regulada por lei federal. Nós temos uma política pública, regulada por lei federal, de política energética, determinando, na lei, por, digamos assim, vontade da população brasileira, a busca por matriz energética limpa, abandonando-se, portanto, essa febre — como diz o papa Francisco, neste documento extraordinário, o Laudato Si’, como ele gosta que se denomine a sua encíclica social-ecológica. E Laudato Si’ foi a primeira expressão latina de São Francisco, louvando por esse meio ambiente maravilhoso que povoa o planeta Terra.

 

O governo é omisso em relação à educação ambiental?

 

Sim, não só este, como os anteriores também. Nenhum governo procurou dar eficácia a essa legislação que estabelece política pública imprescindível para o desenvolvimento sustentável do Brasil. É preciso pensar em buscar um equilíbrio em política energética no Brasil, e derrubando florestas, dizimando comunidades indígenas — o que é um gravíssimo erro —, nós não vamos obter esse resultado.

 

Mas, agora, além dessa questão ambiental, tem a questão da corrupção, porque essas hidrelétricas — na Lava Jato — aparecem em esquemas bem graves: Angra, Belo Monte…

 

A corrupção se institucionalizou no Brasil e isso é histórico. Os últimos acontecimentos estão revelando isso. Penso que a investigação policial da Lava-Jato ainda não está próxima de seus capítulos finais. Há muita coisa ainda para se investigar. Então, temos, como brasileiros, que parabenizar o trabalho da Polícia Federal, o excelente trabalho da magistratura — representada pelo Sérgio Moro, um juiz, que digo e repito, está se legitimando perante a vontade popular como juiz. Oxalá todo juiz tivesse essa consciência do dever cumprido, no sentido de ser um agente da soberania popular. O grave equívoco é que muitos acham que são agentes do Estado. O Estado, nos feitos da nossa competência federal, aparece como réu. Não posso ser agente de uma parte que é ré do processo, nas causas ambientais, nas grandes ações do interesse do consumidor, portanto, creio no dia em que os juízes terão essa consciência de que não representam o Estado, e se virem como agentes da soberania popular, membros integrantes de um dos poderes da República, o poder Judiciário. Nós temos o dever de fazer cumprir a Constituição e as leis do país, sempre respondendo aos reclames do cidadão e da sociedade.

 

Foi por isso que o senhor deu uma decisão contra a Usina de Belo Monte, não foi? O senhor já sabia que tinha contaminação de corrupção?

 

Eu fui o relator e sou relator preguento.

 

Todos os casos de Belo Monte ficaram com o senhor? Recebeu muita pressão?

 

Para os casos Belo Monte, Teles Pires, e alguns outros relativos às grandes hidrelétricas na Amazônia. E posso dizer que as resistências e as pressões são terríveis.

 

De toda ordem, desembargador?

 

De toda ordem. Mas eu até me reservo…

 

O senhor pode ser mais preciso?

 

Muito interesse econômico, nacionais e alienígenas. Vejam os senhores, que devem estar acompanhando, empresas que ganharam consórcio em leilão público para realizar essas obras faraônicas das grandes hidrelétricas da Amazônia — Santo Antônio, Jirau, Belo Monte, a maior de todas Teles Pires, e outras. É uma programação na política energética do governo para instalar, no mínimo, mais de 60 mega-hidrelétricas na Amazônia brasileira, o que significa um processo de desertificação da Amazônia. Isto é, retirar a cobertura florística, que é responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta, não só do Brasil; pela biodiversidade do planeta e, na minha ótica, esta sanha trágica é para descobrir o que está no subsolo. Não é em busca de uma solução energética. A solução energética do Brasil está na plataforma continental brasileira, com uma extensão, uma dimensão de quase 9 mil km². Tem matriz energética puríssima, matriz energética solar, matriz energética eólica, matriz energética na plataforma marinha do maremoto do fluxo, onde turbinas ecológicas — sem precisar derrubar uma planta sequer — já nos dariam reservas de energia bastantes para iluminar o Brasil todo e exportar para todos os países.

 

Mas não é isso o que eles querem.

 

Não, não é isso o que eles querem.

 

Certamente não é.

 

Você viu aquela feira da Suíça recentemente? Foi mostrado na tevê algo chamado matriz fotovoltaica. Um prédio com placas fotovoltaicas poderá abastecer de energia solar o suficiente para iluminar toda a cidade.

 

A grande tecnologia hoje é essa…

 

Por que que o Brasil não busca essa solução? Veja a Alemanha, os Estados Unidos da América — que sempre resistiam a esses avanços no governo Bush —, com o Obama, passam a abrir guerra contra as termoelétricas. E nós prestigiamos aqui no Brasil a pior solução para resolver o problema energético, que é a termoelétrica, uma usina poluidora, destruidora da camada de ozônio.

 

Moro está no caminho certo, serve de exemplo?

 

Essa colocação é importante. O que afirmo não está em livro nenhum, mas disso tenho plena convicção: não é pelo fato de alguém prestar um concurso para a magistratura e ser classificado nesse concurso tecnicamente e em provas de títulos que já deve se sentir juiz. Ele precisa enfrentar a prova final da magistratura. Aí você me pergunta: mas quem vai examiná-lo nessa prova final? Uma banca difusa, que é exatamente a sociedade, destinatária das suas decisões. Um exemplo típico está aí, do juiz Sérgio Moro, cujas decisões são aplaudidas nas ruas. Dentro desse contexto de sentimento de justiça da população brasileira, é como se o Moro estivesse diante das urnas como agente da soberania popular, porque a Constituição não escreve esta máxima: “Todo poder emana do Estado”. Não! Todo poder emana do povo. Há muitos magistrados que assumem a magistratura, chegam até a ser promovidos às cúpulas do Poder Judiciário e nunca foram juízes, porque não têm o compromisso maior com a justiça. O artigo 5, inciso 35, da Constituição estabelece uma norma fundamental quando diz: “A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. Portanto, o povo brasileiro, por meio do constituinte, traçou o perfil do juiz compromissado com a função fundamental de ser protetor de direitos, garantidor de direitos e não matador de direitos.

 

O Supremo errou ao não estender a PEC da Bengala para outras instâncias do Judiciário?

 

O Supremo Tribunal Federal hoje é uma composição de grandes magistrados, competentes, sobretudo, peço licença aos demais ministros do STF para citar essa figura extraordinária que, a meu ver, foi o mais premiado dessa PEC da Bengala — que costumo dizer, da bengala celestial — ao determinar que a aposentadoria obrigatória dos ministros se elevasse para 75. O ministro Celso de Mello é um baluarte da Justiça brasileira. É um homem de uma independência impecável, de uma coragem, determinação, cultura. Só lamento que o Supremo não pode decidir sobre a flagrante inconstitucionalidade por omissão — não pode não, não quis enxergar, data vênia — flagrante inconstitucionalidade por omissão da PEC da Bengala — que eu denominei PEC da Bengala Celestial porque é da cúpula. Nós outros magistrados somos tanto quanto magistrados iguais aos senhores ministros da Suprema Corte. Apenas eles têm a sua competência constitucional definida no texto magno.

 

Por que os tribunais superiores podem e os outros não?

 

Exato. Isso é uma agressão ao princípio constitucional da isonomia, tratar desigualmente os iguais, é desigualdade flagrante, e não igualdade real, já dizia Ruy Barbosa, repetindo Locke, repetindo Aristóteles, que já dizia isso. Então, vejam, o STF já decidiu, naquela questão do aumento do percentual de 28,86% para os militares em 1993, que ali havia uma agressão ao princípio constitucional da isonomia. A Constituição definia que qualquer aumento que se dê a uma categoria deve ser estendido às demais. Então, a lei deu esse aumento de 28,86% aos militares e não concedeu aos civis. O então presidente do STF, o ministro Francisco Rezek, que todos nós admiramos por sua cultura e saber jurídico, reuniu o Supremo em sessão administrativa e chegaram a um consenso: o princípio da isonomia é uma garantia fundamental que não depende de lei para ter eficácia imediata. Essa Constituição de 1988 trouxe expressa essa norma no artigo 5º, parágrafo 1º: Os direitos e garantias expressos nessa Constituição têm eficácia imediata. O ministro Rezek, em 1993, fez valer esse princípio e disse: “O percentual de 28,86% deve ser pago também aos integrantes do Poder Judiciário, magistrados e servidores”. E começaram a se pagar administrativamente por força do princípio da isonomia. O Supremo, que tem essa sólida jurisprudência, esse sólido precedente, deveria aplicá-lo no caso da Bengala Celestial ao estabelecer 75 anos para aposentadoria compulsória dos magistrados, juízes do Supremo, que recebem a feliz denominação de ministros, mas isso não interfere na sua qualificação de juiz. Ministro é juiz.

 

Todos são juízes?

 

Desembargador é juiz. Todos são juízes. Então, o tratamento tem que ser isonômico. Colocar o restante da magistratura nessa situação isonômica, aí precisa-se de uma lei complementar que venha remendar a agressão que a PEC da Bengala cometeu ao princípio da isonomia. Acho que a magistratura toda está esperando que alguém tenha coragem de dizer isso. Estou pedindo vênia ao Supremo, mas acho que o Supremo não decidiu com felicidade essa questão — e tem precedentes!

 

O senhor cita Pilatos e refere-se à multidão. A opinião pública, que nem sempre está com a Justiça, interfere muito?

Qual é a força dela na hora em que o juiz vai dar a sentença?

 

Trago à lembrança esta lição magnífica do saudoso ministro e penalista ilustre Assis Toledo, que escreveu uma monografia clássica do direito penal. Foi exatamente a decisão dos estudos de Assis Toledo que levou à reforma do Código Penal Brasileiro, no sentido de que a lei no Brasil nem sempre é conhecida de todos — num país em que está dentro de um emaranhado e tem uma capacidade de diferença imensa como o nosso… Hoje, o nosso Código Penal não tem mais aquela regra que dizia o seguinte: “Ninguém pode se escusar por ignorância da lei”. Hoje, o nosso Código Penal diz o seguinte: “Ninguém pode se escusar por ignorância do direito”. Uma coisa é ignorar a lei, outra é ignorar o direito. Portanto, acho que Assis Toledo foi muito feliz quando disse, criticando a teoria clássica defendida penalista Nélson Hungria: para que o juiz faça justiça no processo penal, ele tem que ter um paradigma para apurar a responsabilidade do réu. Isto é, um homem médio, como agiria diante dessa situação? A partir desse paradigma, o juiz deve fixar a responsabilidade do acusado. Assis Toledo disse: “Errado!” Alguém tomou um cafezinho com esses médios em alguma esquina do Brasil? Não existem homens médios; existe você, acusado, infrator. E é este homem concreto, diante do juiz, que deve ser julgado. E não trazer um paradigma para poder estabelecer a dosagem da pena.

 

O Brasil está deixando de ser o país da impunidade? Ou ainda temos uma caminhada muito longa?

 

Esse contexto de impunidade sempre houve e, em determinados momentos históricos como este, e aí vamos aplaudir o regime democrático, que nos permite uma ação de combate à corrupção e de combate à impunidade. Mas estava muito longe de afastar definitivamente a impunidade do Brasil, sobretudo dos agentes públicos, daqueles que fazem da coisa pública como se fosse algo seu, de sua propriedade. Portanto, não acredito que estejamos no capítulo final de combate à impunidade e à corrupção. Isso exige de todos nós um esforço e um compromisso muito sério com os valores.

 

Os críticos de Moro e da própria Polícia Federal dizem que as prisões são midiáticas e exageradas. Que estão extrapolando, que há uma banalização… Como o senhor enxerga essas críticas?

 

Em princípio, entendo que a prisão temporária estabelecida em nível federal agride a Constituição, sobretudo a garantia fundamental da ampla defesa, do contraditório e da garantia da pessoa humana. Aquela prisão em que a polícia prende, por ordem judicial, para investigar. A prisão temporária, eu creio, não deveria ser praticada, mesmo nesse contexto da Lava-Jato, do mensalão etc. Mas a prisão preventiva, que a polícia investigue, que traga indícios veementes para se decretar a prisão preventiva. Portanto, vocês devem assistir a esse fenômeno: o juiz decreta a prisão temporária e, depois a preventiva porque encontra indícios para transformá-la em preventiva. Mas aí o elogiável trabalho do colega Sérgio Moro, que é um juiz que não demora a decidir. É direito também do acusado ter uma sentença em tempo breve. Se não ele fica numa situação de grave injustiça e, a rigor, ao fim, muitos são absolvidos porque não há prova suficiente para uma condenação.

 

Na outra ponta, a prescrição, que deixa muito corrupto livre, leve e solto.

 

No ordenamento jurídico-constitucional e processual brasileiro, sempre houve e ainda há a figura do foro privilegiado. Autoridades públicas do primeiro, do segundo escalão se sentem, nas suas vaidades pessoais, agredidas de comparecer perante um juiz de primeira instância para serem interrogadas. E aí existe o foro privilegiado, que é um foro condenado. Ninguém quer foro privilegiado porque ele não tem como protelar. Então, submeter-se ao processo perante um juiz de primeira instância, sem ter ainda um decreto de prisão, termina o acusado se saindo na impunidade pela prescrição. No Código Penal, possibilita-se a impunidade. Olha quantos casos de prescrição temos. Entre a data do fato criminoso e a representação da denúncia, se retardar, dá-se a impunidade. Então, a prescrição da pena em concreto, quando alguém é condenado criminalmente, naquele processo demorado…

 

O que acontece muito é o que o juiz condena, o tribunal mantém, o STJ mantém e aí vêm aqueles recursos protelatórios no Supremo, que nem são conhecidos, mas o embargo do embargo do embargo…

 

Isso é mera protelação. Daí a necessidade dessa triagem dos processos. Há processos que foram julgados e a parte ingressa com embargo meramente protelatório. Se não houver um filtro no gabinete — como nós fazemos, em que se o processo chegou com embargo, decide logo —, os embargos ficam anos.

 

Qual a missão do advogado?

 

Às vezes, o advogado hipossuficiente é também um hipossuficiente financeiro, intelectual, não pode frequentar uma boa faculdade e tem conhecimentos limitados; alguns dão assistência até gratuita ou não estão ganhando muito para defender o direito. Então, o juiz tem o dever de defender a causa da justiça. Alguém já disse, com felicidade, que o advogado é o primeiro juiz da causa. Quando você procura seu advogado por conta do conflito, ele vai julgar, vai dizer: “Esse seu pleito não deve ser ajuizado porque a jurisprudência já se solidificou em sentido contrário da tua pretensão.” Você não vai incomodar o Poder Judiciário e, ao mesmo tempo, vai se convencer. Se o seu pleito é legítimo, o advogado decide ajuizar a ação. É o primeiro juiz da causa.

 

Isso pode mudar dependendo do advogado…

 

Claro, estou falando do bom advogado, não do mercenário.

 

Alguns só querem ganhar dinheiro.

 

Por isso, a Constituição diz que o advogado é essencial à administração da justiça. Nesse contexto, o juiz é o último advogado da causa da justiça. O juiz não deve defender interesses da parte. Mas no momento em que ele analisa o conflito diante das provas dos autos e forma a sua convicção livre e independente de que o pleito é legítimo, o seu direito existe, aí o juiz tem que vestir a toga do advogado por cima da toga da magistratura para defender o direito e a justiça, que dependem da sua decisão justa. Um detalhe: o advogado tem tempo para fazer a defesa do seu direito na tribuna; 15 minutos. Um juiz, numa sessão de julgamento, não tem tempo. Ele tem todo o tempo para poder argumentar juridicamente e fazer convencer os pares do colegiado de que esse direito existe. Falta uma disciplina jurídica nos cursos de direito do Brasil. O presidente do Conselho Federal da OAB, que é professor, precisa pensar sobre isso, numa reforma dos cursos jurídicos do Brasil — já que eles têm uma lacuna, falta uma disciplina importante para o bom advogado, para o bom defensor público, para o bom representante do Ministério Público, para o juiz competente, que é argumentação jurídica e oratória forense. No tribunal, não basta o juiz se convencer.

 

São complexos esses crimes. Os criminosos estão se reinventando, se especializando e o juiz vai ficar para trás? Tem que estudar muito.

 

Tem que se especializar. O que quero dizer é que um juiz, que, dentro da razoabilidade, exerce o magistério, está se reciclando todo dia. Em vez de sair do tribunal para o Xique-Xique e tomar um bom uísque para afastar meu cansaço, eu me alivio em sala de aula, com aquela estudantada que me renova depois de um dia cansativo de trabalho, ao discutir direito — a matéria primeira sobre a qual julguei durante todo o dia. É confortante. Confúcio disse uma grande verdade: ensinar é a arte de aprender.

 

Fonte: Correio Braziliense

Categoria: Acontece
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‘O QUE SE VÊ NO BRASIL HOJE É UMA OFENSIVA FEROZ CONTRA OS ÍNDIOS’

Antropólogo lança livro 'Metafísicas canibais' e expõe fotografias na mostra 'Variações do corpo selvagem'

RIO – Certa vez, ao dar uma palestra em Manaus, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro deparou-se com uma plateia dividida entre cientistas e índios. Enquanto apresentava suas teses sobre o perspectivismo ameríndio, conceito desenvolvido a partir da cosmologia dos povos com que estudou na Amazônia, notou que a metade branca da plateia ia perdendo o interesse. No fim da palestra, diante do silêncio dos cientistas, uma índia pediu a palavra para alertá-los: “Vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo. Ele está dizendo o que a gente sempre disse”.

 

A cena, relembrada por Viveiros de Castro em entrevista ao GLOBO, remete a uma das teses centrais de seu novo livro, “Metafísicas canibais” (Cosac Naify e n-1 Edições). O autor descreve-o como a “resenha” ou “sinopse” de uma obra que nunca conseguirá concluir e que se chamaria “O Anti-Narciso”. Nela, aproximaria filosofia e antropologia, Deleuze e Lévi-Strauss, para investigar a pergunta: “o que deve conceitualmente a antropologia aos povos que estuda?”. As culturas e sociedades pesquisadas pelos antropólogos, escreve, “influenciam, ou, para dizer de modo mais claro, coproduzem” as teses formuladas a partir dessas pesquisas.

 

Um dos mais influentes antropólogos hoje, autor de “A inconstância da alma selvagem” (Cosac Naify, 2002) e professor do Museu Nacional da UFRJ, Viveiros de Castro desenvolve em “Metafísicas canibais” suas ideias sobre o perspectivismo, formadas a partir de ideias presentes em sociedades amazônicas sobre como humanos, animais e espíritos veem-se a si mesmos e aos outros. Ele descreve a antropologia como uma forma de “tradução cultural” e pleiteia que seu ideal é ser “a teoria-prática da descolonização permanente do pensamento”. O que implica reconhecer a diferença e a autonomia do pensamento indígena: “não podemos pensar como os índios; podemos, no máximo, pensar com eles”.

 

Os primeiros contatos de Viveiros de Castro com esse universo estão registrados nas fotografias que fez durante o trabalho de campo com os índios Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina, entre meados dos anos 1970 e início dos 1990. Parte dessas fotos será exibida pela primeira vez na exposição “Variações do corpo selvagem”, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a partir do dia 29 de agosto. Com curadoria da escritora e crítica de arte Veronica Stigger e do poeta e crítico literário Eduardo Sterzi, a mostra reúne ainda fotos feitas pelo antropólogo nos anos 1970, quando trabalhava com o cineasta Ivan Cardoso, mestre do gênero “terrir” e diretor de filmes como “O segredo da múmia” (1982) e “As sete vampiras” (1986).

 

Em entrevista por e-mail, Viveiros de Castro, de 64 anos, fala sobre o livro e a exposição e discute outros temas de sua obra e sua atuação pública, como a crise climática, abordada em “Há mundo por vir?” (Cultura e Barbárie, 2014), que escreveu com a filósofa Déborah Danowski, com quem é casado. Fala também sobre a resistência dos índios contra o “dispositivo etnocida” armado contra eles no Brasil, que mira “suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia e sua autonomia política interna”.

 

Numa nota em “Metafísicas canibais”, você comenta que, sempre que expôs a ouvintes ameríndios suas teses sobre o perspectivismo, eles perceberam as implicações que elas poderiam ter para “as relações de força em vigor entre as ‘culturas’ indígenas e as ‘ciências’ ocidentais que as circunscrevem e administram”. Quais seriam essas implicações? O que interlocutores ameríndios costumam lhe dizer sobre o perspectivismo?

 

“Sempre que” é um pouco exagerado; dá impressão que eu faço tours de seminários sobre o pensamento indígena para ouvintes indígenas… Eu tinha em mente, naquela nota, uma ocasião em particular. Em 2006, a convite do Instituto Socioambiental, fiz uma palestra para uma plateia de cientistas do INPA, em Manaus, sobre as cosmologias amazônicas e as concepções indígenas da natureza da natureza, por assim dizer. Ao entrar na sala, descobri, com não pouca ansiedade, que apenas metade da plateia era composta de cientistas (biólogos, botânicos, pedólogos etc.) — e que a outra metade da sala estava cheia de índios do Rio Negro. Falar do que pensam os índios diante de uma plateia de índios não é exatamente uma situação confortável. Decidi então apresentar uma versão esquemática do que eu sabia a respeito do modo como o que chamei de “perspectivismo ameríndio” se manifestava nas culturas rionegrinas (povos Tukano e Aruaque, principalmente). No meio da palestra fui percebendo os cientistas cada vez menos interessados naquilo, e os índios cada vez mais agitados. Na hora das perguntas, nenhum cientista falou nada. Os índios, com sua cortesia habitual, esperaram os brancos presentes pararem de não dizer nada até que eles começassem a falar. Uma senhora então se levantou e, dirigindo-se à metade branca e científica da plateia, disse: “vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo.

 

Ele está dizendo o que a gente sempre disse: que vocês não veem as coisas direito; que, por exemplo, os peixes, quando fazem a piracema (a desova) estão na verdade, lá no fundo do rio, transformados em gente como nós, fazendo um grande dabucuri (cerimônia indígena típica da região)”. E outro índio perguntou: “aquilo que o professor disse, sobre os morros da região serem habitados por espíritos protetores da caça, é verdade. Mas isso quer dizer então que destruir esses morros com garimpo e mineração é perigoso, não é mesmo? E não quereria dizer também que índio não pode ser capitalista?” Percebi, naquele confronto entre cientistas que estudam a Amazônia e os índios que vivem lá, que os primeiros estão interessados apenas no saber indígena que interessa ao que eles, cientistas, já sabem, isto é, àquilo que se encaixa na moldura do conhecimento científico normalizado. Os índios são “úteis” aos cientistas na medida em que podem servir de informantes sobre novas espécies, novas associações ecológicas etc. Mas a estrutura metafísica que sustenta esse conhecimento indígena não lhes dizia absolutamente nada, ou era apenas um ornamento pitoresco para os fenômenos reais. E os índios, ao contrário, se interessaram precisamente pelo interesse de um branco (eu) sobre isso. O que me deu muita coisa a pensar.

 

Mais geralmente, porém, tenho tido notícia da difusão lenta e episódica, mas real, de meus escritos (e os de meus colegas) sobre isso que chamei de “perspectivismo” junto a pensadores indígenas, ou muito próximos politicamente a eles, em outros países da América Latina (o livro foi traduzido para o espanhol, assim como diversos artigos de mesmo teor). Isso me alegra e, por que não dizer, envaidece muito. Mil vezes poder servir, com esses meus escritos aparentemente tão abstratos, à luta indígena pela autonomia política e filosófica que ser lido e comentado nos círculos acadêmicos — o que também não faz mal nenhum, bem entendido.

 

No livro, você pergunta: “O que acontece quando se leva o pensamento nativo a sério?”. E continua: “Levar a sério é, para começar, não neutralizar”. Partindo destes termos, quais são as maiores ameaças de “neutralização” do pensamento indígena no Brasil hoje?

 

Neutralizar este pensamento significa reduzi-lo ao efeito de um complexo de causas ou condições cuja posse conceitual não lhes pertence. Significa, como escrevi no livro, pôr entre parênteses a questão de saber se e como tal pensamento ilustra universais cognitivos da espécie humana, explica-se por certos modos de transmissão socialmente determinada do conhecimento, exprime uma visão de mundo culturalmente particular, valida funcionalmente a distribuição do poder político, e outras tantas formas de neutralização do pensamento alheio. Trata-se de suspender tais explicações-padrão, típicas das ciências humanas, ou, pelo menos, evitar encerrar a antropologia nela. Trata-se de decidir, em suma, pensar o outro pensamento como uma atualização de virtualidades insuspeitas do pensamento em geral, o “nosso” inclusive. Tratá-lo como tratamos qualquer sistema intelectual ocidental: como algo que diz algo que deve ser tratado em seus próprios termos, se quisermos respeitá-lo e incorporá-lo como uma contribuição singular e valiosa à nossa própria e orgulhosa tradição intelectual. Só depois disso poderemos, se tal for nossa veleidade, anatomizá-lo e dissecá-lo segundo os instrumentos usuais da redução científica das práticas de sentido humano.

 

Mas sua pergunta acrescentava “no Brasil hoje”. No Brasil hoje o que se vê é muito mais que uma “neutralização do pensamento nativo”. O que se vê é uma ofensiva feroz para acabar com os nativos, para varrer suas formas de vida (e portanto de pensamento) da face do território nacional. O que se pretende hoje — o que sempre se pretendeu, mas hoje os métodos são ao mesmo tempo cada vez mais sutis e eficazes sem deixarem de ser brutais como sempre foram — é silenciar os índios, desindianizar todo pensamento nativo, de modo a transformar aquela caboclada atrasada toda que continua a “rexistir” (este é o modo de existência dos índios no Brasil hoje: a “rexistência”) em pobre, isto é, em “bom brasileiro”, mal assistencializado, mal alfabetizado, convertido ao cristianismo evangélico por um exército de missionários fanáticos, transformado em consumidor dócil do estoque infinito de porcarias produzidas pela economia mundial. Em suma: fazer do índio (os que não tiverem sido exterminados antes) um “cidadão”. Cidadão pobre, é claro. Índio rico seria uma ofensa praticamente teológica, uma heresia, à ideologia nacional. Para fazê-lo passar de índio a pobre, é preciso primeiro tirar dele o que ele tem — suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia, sua autonomia política interna —‚ para obrigá-lo a desejar consumir o que ele não tem — o que é produzido na terra dos outros (no país do agronegócio, por exemplo, ou nas fábricas chinesas).

 

Como avalia o estado atual das mobilizações indígenas contra intervenções do Estado em seus modos de vida, como na região do Xingu, com a construção da usina de Belo Monte?

Os índios fazem o que podem. Estão lutando contra uma máquina tecnológica, econômica, politica e militar infinitamente mais poderosa do que eles. No caso de Belo Monte, já perderam. Mas não sem dar um bocado de trabalho ao “programa” que esse governo, cujo ódio estúpido aos índios só é comparável ao que se via nos sombrios tempos da ditadura, vai implantando a ferro e a fogo na Amazônia inteira, inclusive fora do Brasil. Mas a luta continua, e ainda tem muito índio disposto a resistir (a “rexistir”) ao dispositivo etnocida armado contra eles, no Mato Grosso do Sul, no Tapajós, no Xingu, no Rio Negro e por aí afora.

 

Você tem trabalhado com o conceito de Antropoceno (que já definiu como o momento em que “o capitalismo passa a ser um episódio da paleontologia”) para alertar sobre os efeitos destrutivos da ação humana sobre o planeta. O que precisa mudar no debate público sobre a crise climática?

 

Muito. Isso tudo vai descrito no livro que coautorei com a filósofa Déborah Danowski, “Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”, onde comparamos, de um lado, os efeitos já instalados e aqueles por vir da catástrofe ecológica desencadeada pela economia movida a combustíveis fósseis, e tudo o que vem com ela (inclusive o capitalismo financeiro e cognitivo), com os modos com que esse tema arquimilenar, o “fim do mundo”, vem sendo tematizado pela imaginação estética, política e mitológica de nossa própria civilização moderna, de outro lado. E por fim, tecemos considerações sobre como a “mudança de Era” (como dizem os camponeses nordestinos para se referir aos efeitos já palpáveis das mudanças climáticas) por que passamos hoje é pensada pelos índios, em suas mitologias e em sua prática ecopolítica concreta. Penso que as ciências humanas têm sido lentas em assumir que esta questão, que a palavra “Antropoceno” resume, é a questão mais grave e urgente da história humana desde o começo da era Neolítica, e que estamos entrando em uma situação inédita para a espécie como um todo.

 

O debate na esfera pública tem sido laboriosamente mitigado, quando não silenciado, por uma poderosíssima máquina de propaganda financiada pelos principais interessados no status quo, a saber, as grandes corporações petroleiras e outras, como a Monsanto, a Nestlé, a Bunge, a Dow, a Vale, a Rio Tinto etc. Sem falarmos nos governos nacionais, meros instrumentos de polícia desses atores econômicos. Mas as coisas começam a mudar, devagar, mas mudando. Infelizmente, “devagar” é péssimo. Porque a aceleração dos processos de desequilíbrio termodinâmico do planeta marcha em ritmo crescente. O tempo e o espaço entraram em crise, escapam-nos por todos os lados. Hoje a luta política fundamental, a ser levada a nível mundial, é a luta pela liberação do espaço e do tempo.

 

Você afirma que o perspectivismo não é uma forma de relativismo cultural e, ao conceito corrente de “multiculturalismo”, contrapõe a noção de “multinaturalismo”. Quais são os problemas do relativismo cultural e como o multinaturalismo os evita?

 

O relativismo cultural é, ao menos como costumeiramente divulgado pela vulgata ideológica dominante, meramente a ideia de que existem várias opiniões sobre o mundo, o universo ou a “realidade”, mas que esta “coisa lá fora” (o mundo etc.) é uma só. Entre essas várias opiniões, há uma certa — a nossa, ou melhor, aquela que acreditamos ser a verdade cientifica (e 99,99% dos que acreditam nela não sabem em que estão acreditando). O resto é “cultura”, superstição, visões exóticas de gente que vive “fora da realidade”. Em relação a essa gente, podemos e até devemos mostrar um pouco de tolerância (afinal, são apenas opiniões, “visões de mundo”), devemos ser “multiculturalistas”. Mas a Natureza, com N maiúsculo, é uma só, e independe de nossas opiniões (exceto da minha, isto é, a da “Ciência” que nos serve de religião laica). O que chamei de “multinaturalismo” ou de “perspectivismo multinaturalista”, para caracterizar as metafísicas indígenas, supõe a indissociabilidade radical, ou pressuposição recíproca, entre “mundo” e “visão”. Não existem “visões de mundo” (muitas visões de um só mundo), mas mundos de visão, mundos compostos de uma multiplicidade de visões eles próprios, onde cada ser, cada elemento do mundo é uma visão no mundo, do mundo — é mundo. Para este tipo de ontologia, o problema que se coloca não é o da “tolerância” (só os donos do poder são “tolerantes”), mas o da diplomacia ou negociação intermundos.

 

Você defende uma concepção de antropologia como “descolonização permanente do pensamento”. Como ela pode fazer isso? Quais são os maiores impasses da disciplina hoje?

 

Vou responder rapidamente, ou os leitores não precisarão ler o livro… Trata-se de tomar o discurso dos povos que estudamos (os “nativos”, sejam quem forem) como interlocutores horizontalmente situados em relação ao discurso dos “observadores” (os “antropólogos”). O que a antropologia estuda são sempre outras antropologias, as antropologias dos outros, que articulam conceitos radicalmente diversos dos nossos sobre o que é o anthropos, o “humano”, e sobre o que é o logos (o conhecimento). Descolonizar o pensamento é explodir a distinção entre sujeito e objeto de conhecimento, e aceitar que só existe entreconhecimento, conhecimento comparativo, e que a antropologia como “estudo do outro” é sempre uma tradução (e uma tradução sempre equívoca) para nosso vocabulário conceitual do estudo do outro. O maior desafio vivido hoje pela antropologia é o de aceitar isso e tirar daí todas as consequências, inclusive as consequências políticas.

 

As fotografias reunidas em “Variações do corpo selvagem” remetem ao seu trabalho de campo com os Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina. Quais foram suas maiores descobertas nos encontros com esses povos?

 

Tudo o que eu escrevi sobre eles.

 

Fonte: O Globo

Categoria: Literatura e Filmes
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