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ARTHUR DAPIEVE LANÇA ‘MARACANAZO’, COM HISTÓRIAS SOBRE FUTEBOL E MÚSICA

Publicação também trata de conflitos do passado

RIO – Da música ao futebol, de Copacabana à Segunda Guerra Mundial, o novo livro do jornalista e escritor Arthur Dapieve percorre obsessões familiares para os leitores de suas crônicas semanais no GLOBO. Nos contos de “Maracanazo” (Alfaguara), há diversas referências a eventos reais, como a partida entre Chile e Espanha na Copa do Mundo de 2014, no Maracanã, e um concerto em Viena às vésperas da anexação da Áustria pelos nazistas.

 

— Como jornalista, sempre tive dificuldade para me desapegar de dados reais, mesmo escrevendo ficção. Então comecei a usar isso a meu favor, tomando fatos como ponto de partida para construir ficções — diz Dapieve, que lança “Maracanazo” nesta terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.

 

O conto que dá título a “Maracanazo” parte de um trauma ligado ao estádio — mas não a mítica queda brasileira diante do Uruguai em 1950. O protagonista é o jovem espanhol Victor, que vem ao Rio em 2014 sedento por ver a seleção de seu país se vingar de duas derrotas históricas para o Brasil no Maracanã (na Copa do Mundo de 1950 e na das Confederações de 2013). Em vez disso, sofre outro baque ao ver a Espanha eliminada pelos chilenos na primeira fase do torneio.

 

Na arquibancada, Victor é surpreendido pelo beijo de uma torcedora do Chile. O que aparentava ser uma saída romântica para a frustração, porém, revela-se uma extensão do confronto no gramado. Os dois se descobrem opostos: ele é um espanhol conservador e religioso, cuja família foi vítima de milícias de esquerda na Guerra Civil, e ela é uma brasileira filha de chilenos socialistas atingidos pela brutalidade do regime de Pinochet. Para Dapieve, o futebol no conto é metáfora para conflitos do passado e do presente.

 

 

— Os dois personagens são muito maniqueístas. Enquanto escrevia, me ocorreu que o conto também é sobre o Brasil. Ele fala das memórias do golpe no Chile e da ditadura franquista, mas também da polarização política no país hoje — diz Dapieve, autor dos romances “De cada amor tu herdarás só o cinismo” e “Black music” (ambos pela Objetiva).

 

Publicado na França como novela independente, o conto foi finalista do Prêmio Jules Rimet, concedido a obras literárias com temas esportivos, vencido pelo francês Alain Gillot. Dapieve acredita que o futebol tem sido mais abordado pela literatura brasileira, apesar dos desafios do assunto:

 

— Falar sobre futebol na literatura é difícil porque ele é uma forma de expressão em si. É esporte, mas também expressão de estética, nacionalidade, identidade.

 

Outros contos do livro partem de fatos reais, como “Inverno, 1968”, que recria a saída de Syd Barret do Pink Floyd, e “Tempo ruim”, inspirado nas memórias praianas da juventude do jornalista em Copacabana. Mas é em “Fragmento da paisagem” que Dapieve mescla de forma mais incisiva a ficção e a realidade.

 

O conto é construído em torno da execução da Nona Sinfonia de Mahler pela Filarmônica de Viena em 16 de janeiro de 1938, dois meses antes da anexação da Áustria pela Alemanha nazista. A narrativa sobre a ida de um casal de judeus ao concerto é pontuada por dados históricos sobre a ascensão de Hitler.

 

— Mahler dizia que a execução de uma obra se nutre do espírito do tempo. Naquele concerto em Viena, isso é palpável. Tenho mais de dez gravações da Nona de Mahler, aquela é a mais tensa — diz Dapieve, que cogita escrever uma narrativa mais longa a partir desse conto.

 

LEIA UM TRECHO DE ‘MARACANAZO E OUTRAS HISTÓRIAS’

 

“As coisas que se sucedem parecem-me simultâneas, um assalto generalizado a meus sentidos. Não tenho como estabelecer com precisão o que veio antes e o que veio depois. Se é que houve um antes e um depois. Olho para o túnel por onde acabam de desaparecer os jogadores, uns cinquenta metros à nossa esquerda. Percebo uma súbita agitação das pessoas em torno de mim, algumas pulam de pé como bonecos de mola. O barulho faz-me pensar num jato decolando, numa serra abrindo o tampo de um crânio. Olho para um dos placares eletrônicos que mostra, dentre uma massa avermelhada de torcedores chilenos e espanhóis, duas loiras peitudas socadas em camisas amarelas. Elas me são familiares, mas… de onde? Do lado direito delas, está uma moreninha com a camiseta da seleção do Chile. (…) Então, ou pode ter sido logo antes, sinto a mão sobre a coxa esquerda, o cabelo preto chicoteia-me a face, e os lábios quentes e úmidos da moreninha estão sobre os meus. Tudo isso dura dez segundos, se tanto”.

 

SERVIÇO:

Autor: Arthur Dapieve.

Editora: Alfaguara.

Páginas: 160.

Preço: R$ 39,90.

Lançamento: Terça-feira (dia 10), às 19h, na Livraria da Travessa — Shopping Leblon, Rua Afrânio de Melo Franco 290, 2º piso (3138-9600).

 

Fonte: O Globo

Categoria: Literatura e Filmes
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