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DESISTIR DE MIM MESMA: UM DIÁLOGO ENTRE TRANSFOBIA E DEPRESSÃO

Por Maria Léo*

 

Neste texto, minha pretensão não é universalizar minhas experiências. Não busco, aqui, estender minhas sensações e dores para todas as pessoas trans. Este texto é uma necessidade que eu tive de estabelecer um diálogo comigo mesma sobre meus últimos dias. É um testemunho-travesti que apresenta uma contínua tentativa minha de sobreviver ao Regime Transfóbico que me toca, prende e sufoca. Nesta escrita, pretendo abordar um outro lado de uma realidade social e política própria; uma trans-realidade, cujo cerne não será a expressão de gênero ou a matéria corporal em si, mas, sim, o interno, o sensitivo e o psicológico. Espero que a linguagem, aqui, depositada − proveniente de um fundo de angústia e vontade − desperte conexão e diálogos com vocês que me leem: habitantes do exterior.

 

Há dias, tenho me encontrado distante de tudo que amo. Convivo com um cotidiano bordado de tristeza e cansaço, e o ímpeto que tinha em realizar atividades fora de casa já me escapou. Penso em desistir toda vez que tenho que mostrar meu corpo para o mundo e receber seus estímulos. Os olhares, os tratamentos e os risos que encontro ensinam-me que o apropriado é sumir. Assim, de forma gradual, uma dor muito forte aponta no corpo; muito me aflige, muito me rompe. E, começo a acostumar-me com a solidão.

 

Acredito que a principal causa de toda essa situação em que estive foi a violência que cometia contra mim mesma.  Uma autocrítica e desconfiança de quem eu era ganharam proporções imensas que terminaram no meu isolamento. Eu buscava, a todo momento, em cada instante, uma explicação coerente com Sentido e Origem sobre quem eu era. Sobre, especificamente, o que é ser Trans. Essas perguntas, que não possuíam as respostas adequadas e esperadas capazes de acalmar a ânsia presente em mim, fez com que eu apostasse que tudo isso que experienciava era falso e errado. Deparei-me, então, com uma sensação de crise que me derrotou: eu amava o que tinha construído em mim; meus processos externos e internos; minhas transformações corporais; meu imaginário sobre mim mesma e com o mundo; mas, parecia que, ainda, assim, o certo seria abandonar tudo. A maior dor veio com a constatação de que eu não poderia e não conseguiria viver fora daquela estética que fiz para mim, e se eu realmente tivesse que abandoná-la, seria melhor largar tudo o que me cerca. Logo, se eu não existisse para o exterior, eu não precisaria ser interpelada nem colocada à prova, e, assim, só me teria para mim. A conclusão que obtive foi de que se eu tivesse que continuar viva, eu viveria somente para mim mesma; afastada de todos, sem ninguém para enxergar-me, para duvidar de quem eu sou.

 

Eu confiei, durante muitos dias, no meu apagamento, e, até hoje, uma agonia e um padecimento surgem só de pensar que vivo, exatamente, em uma época de profunda disputa sobre os nossos direitos e sobre a legitimidade de nossa existência. De um lado, um esbanjamento de discursos jurídicos, políticos, religiosos e acadêmicos os quais são criados e desenvolvidos para tornar-nos mazelas e falhas sociais, de outro, a nossa persistência em gritarmos que somos possíveis.

 

Nessa minha busca por respostas, conversei com muitas pessoas trans. Fiz diversas perguntas e recebi muitos retornos. Não encontrei nada único e óbvio. Porém, finalmente percebi que, naquele amontoado de palavras e textos que coletei, encontraria o que desejava. Uma das falas que mais me chamaram a atenção foi a de uma grande amiga travesti. Ela me disse: “Você vai encontrar o que você quer achar, quando você procurar o porquê de sentir que não deve existir”. Meus olhos marejaram quando li isso. Imediatamente, uma calma se estabeleceu e entendi que a nossa luta é, realmente, maior e mais complexa.

 

O que minha amiga quis me dizer era, simplesmente, que a minha própria sensação de não querer existir para o mundo do jeito que eu me vejo, do jeito que eu me entendo, era a resposta sobre quem eu sou, era a resposta sobre a minha travestilidade. Logo, percebi que o desespero e a angústia que sentia, naqueles dias, davam-se, precisamente, devido à falta de um Sistema de ideologias, linguagens e termos capazes de assegurar a minha existência enquanto pessoa trans. Assim, mesmo sabendo que dificilmente irei encontrar uma explicação simples e totalmente sensata sobre nós ─ pessoas fora da Cisgeneridade ─ compreendi que uma das maiores violações da Transfobia é, exatamente, retirar de mim muito da minha capacidade de Realização. Isto é, retirar de mim a possibilidade de ser uma criatura viável, autêntica e real neste mundo.

 

A Transfobia atingiu meu psíquico retirando de mim qualquer suporte de legitimação sobre quem eu sou e o que sinto. A Transfobia me tolheu de mim mesma. Por muito tempo, acreditei que ser uma travesti só se resumiria a dor. Porém, agora, prometi a mim mesma que vou continuar me apegando a esses dias ruins que tive sozinha, mas com uma nova intenção, com uma nova interpretação. A resposta que tanto busquei e, enfim, achei era a de que pessoas como eu existem, elas possuem muitas sensações e lucubrações em comum e muitas diferentes também, e que, muitas vezes, elas só precisavam ser o que são mesmo sem explicações e afirmações determinadas sobre si mesmas. E, que, também, é normal não dominar todos os fundamentos e justificativas de uma situação que se vive, pois a nossa linguagem e o nosso imaginário social ─ amparados pela Transfobia ─ não permitem que pessoas trans sejam concebíveis. Por isso, colocar-me-ei nesse espaço de dúvidas e conflitos e farei dele um Campo próprio e comum. Não vou me apoiar nas explicações e motivos já estabelecidos, cujas narrativas são criadas por uma história cisgênera e binária. A proposta que guiará minha militância, a partir desses momentos de fragilidade que passei, será escutar e adentrar esse Campo em que uma gramática-trans está sendo arquitetada. Uma gramática, feita de imprecisão e de interrogação, mas conduzida por nossos relatos-sentimentos e testemunhos de experiências. Quero conhecer, cada vez mais, esse Campo, reconhecer seus sujeitos e suas histórias e encontrar nele o verdadeiro Suporte para a minha existência.

 

Por fim, só preciso afirmar que a Transfobia não só atacou meu corpo com os assédios e com as lesões físicas, ela fez eu me perder na minha própria história, ela me fez querer acreditar que o meu amor pelo meu corpo era errado, ela me fez negar meus desejos e vontades, fez, enfim, eu me afastar da minha vida. A Transfobia não queria permitir a minha realização, não queria permitir a comprovação de mim mesma. Mas, foi deparando-me com os relatos e contos daquelas próximas a mim que, compartilhando das mesmas dúvidas e angústias, eu tomei a coragem de ser o que preciso. Eu não vou mais desistir de fomentar e proteger esse espaço de diálogo e criação que as pessoas trans estão edificando para si mesmas. Eu não vou desistir de perpetuar nossas histórias e nossa gramática, a qual contém signos e significados de nossa própria constituição. Agora, essa é a minha gana.

 

 

* Maria Léo Araruna, 21, é travesti, estudante de Direito na Universidade de Brasília e militante da Coletiva LGBT e Projeto de Extensão “Corpolítica”. Ela escreveu esse texto para o CineUDF sobre transfobia, que ocorreu aqui no UDF.

 

Obs.: O UDF não tem qualquer opinião sobre o texto. O conteúdo é de responsabilidade apenas da autora.

 

Categoria: Retrato
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