Avaritia

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Marcelo Paes Barros

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em 13/set/2012 - 2 Comentários

Na concepção católica, a avareza pode ser compreendida como a mais pura e simples ganância, ou seja, o apego excessivo e incontrolável aos bens materiais, dinheiro e até mesmo conhecimento, poder a amizades. Sim, meus prezados leitores, buscar uma popularidade paranoica nas suas redes sociais – “ai, eu tenho mais amigos no Facebook que a fulana!” – é a mais pura avareza. Ainda mais se você não quiser compartilhar essas amizades com outros, simplesmente por que se assim fizesse, suas “concorrentes” igualmente aumentariam o número de amigos virtuais. E, convenhamos, essa disputa você não poderia perder, não é? Ah, e avareza é também sua relutância em explicar aquele difícil conceito da aula de Bioquímica aos seus colegas! Afinal, seu espírito egoísta não permite que você divida sua posição de destaque na classe com seus colegas.

A avareza é particularmente repudiada em quase todas as religiões, pois se opõe a uma das virtudes-pilar das doutrinas religiosas: a generosidade. Dar, sem esperar nada em troca. Simplesmente, permitir-se ao ato da caridade para o bem de alguém menos favorecido. A caridade/generosidade também pode ser destinada aos animais: cuidadores e pessoas que adotam animais abandonados demonstram enorme generosidade ao ceder seu tempo e disposição pelo bem de outros seres. Do mesmo modo, a avareza encarnada na adoração desenfreada aos bens materiais afasta o espírito humano de Deus (quem, efetivamente, deveria ser idolatrado segundo essas doutrinas). Sempre na premissa de inferioridade e na insignificância humana perante o criador, o avarento facilmente se torna soberbo e isso o afasta da condição de submissão que as religiões pregam.

Por outro lado, pesquisadores do comportamento animal e humano pregam que a avareza ou ganância é também um importante fator de seleção natural. Espécies mais “avarentas” têm maiores chances de prosperar em escala evolucionária. Formigas estocam alimentos durante o verão para dispor dessas reservas durante os períodos de menor acesso ao alimento. Um princípio parecido explica o comportamento de cães que enterram seus ossos em locais secretos para se deliciarem depois. Mas há um limite para o comportamento avarento, já que os animais também compartilham seus dotes quando há bonança: uma carcaça de animal de grande porte entre leões e hienas, por exemplo.

De modo lesivo, a avareza pode igualmente conduzir ao roubo, traição, violência, manipulação de influências, corrupção e outras “pragas” da vida moderna. Curiosamente, alguns manuais do corporativismo moderno e leis de mercado são taxativos ao dizer que a avareza não é prejudicial ao Homem! Discordo totalmente desse conceito. Não se deve confundir ambição com avareza. Ambição é a vontade de alcançar patamares mais altos em determinadas atividades da vida humana: profissional, emocional, atlético, etc. Já ouvi inúmeras conversas durante o almoço ou em happy hours de amigos yuppies (jovens adultos em início de carreira no meio empresarial) que pregam descaradamente essa avareza. Objetivo? Acumular um milhão de reais antes dos 30 anos! Esse conceito faz parte de qualquer “cartilha” de administração ou do jovem empreendedor. Curiosamente, não importam (ou não são comentados) os meios necessários para tal! Assim sendo, sob essa paranoia, jovens vendem seus vales refeição e almoçam coxinhas com água por anos a fio… Seu desjejum é o cafezinho e as bolachinhas cream cracker que a empresa disponibiliza na copa de seu setor. Jantar, talvez uma fruta (banana, que é mais barato, embora os carboidratos à noite estejam em baixa… sic). Falar mal e dedurar os colegas – a famosa “puxada de tapete” – também faz parte dessa sórdida cartilha. A recompensa desses yuppies é acessar suas contas correntes via bankline à noite e verificar que aqueles dígitos aumentam progressivamente, suas ações valorizaram e assim, sob essa premissa, eles enfim têm obtido sucesso na vida! Puff, que ilusão doentia. Sucesso na vida é ser pleno e feliz. Esses indivíduos desperdiçam vitalidade e disposição nos anos mais vindouros de sua vida para contar cifras na tela do computador. Quando aproveitarão para valer sua passagem terrena? A partir dos 50 anos? Tarde demais, meus amigos… a avareza é doentia.

Com essa matéria, concluo a série sobre os pecados mortais (ou capitais). Espero que essa sequência de textos nos tenha feito refletir sobre nossas atitudes recentes e como as pessoas que nos cercam provavelmente nos veem. Esse é um exercício extremamente salutar, pois permite um ajuste fino do nosso comportamento em sociedade e pode nos ajudar em nosso convívio diário. Um abraço

A TEORIA DO MACACO AQUÁTICO

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Renato Padovese

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em 02/mai/2011 - 56 Comentários

Você já deu um beliscão no seu cachorro ou gato? É só pele. Agora, experimente fazer o mesmo no seu braço. Vai perceber que existe algo a mais. Diferentemente dos outros mamíferos terrestres, que concentram o tecido adiposo apenas na região abdominal, os seres humanos também apresentam gordura subcutânea. Constatação desagradável: somos bem mais gordos. Sob este aspecto, somos mais parecidos com os mamíferos que vivem ou brincam na água – hipopótamos, elefantes, leões marinhos, baleias. Mas por que será? Para o biólogo Alister Hardy, só poderia haver um motivo para que os seres humanos compartilhassem uma característica típica dos mamíferos aquáticos ou semi-aquáticos: um antepassado aquático ou semi-aquático.

Nosso corpo dá outras pistas. Ausência de pêlos. Nariz proeminente e apontando para baixo, que nos possibilita mergulhar. Capacidade de controlar o diafragma e segurar a respiração por longos períodos. A postura ereta e o andar sobre duas pernas facilitam os deslocamentos na água. A gordura corpórea ajuda na flutuação, uma vez que é menos densa do que os músculos. A propósito, não podemos creditar nossa silhueta roliça à vida sedentária ou à ingestão de hambúrgueres, porque os bebês humanos já nascem gordinhos, e com bastante destreza para a natação. Se há alguma dúvida, assista a este vídeo antes de continuar.

A teoria do macaco aquático, proposta por Hardy na década de 60, foi recebida com desdém pela comunidade científica, mas encontrou na escritora e autodidata Elaine Morgan uma ferrenha defensora. Segundo esta hipótese, a água agiu como um agente de seleção dos seres humanos. Muitas das maiores diferenças físicas entre os homens e os macacos são bem explicadas como adaptações para se locomover melhor no meio aquático. Nossos ancestrais teriam ficado isolados num local formado por florestas e áreas alagadas, e se adaptado à água, caminhando regularmente dentro dela, nadando e procurando alimento nas lagoas. Como resultado, duplicaram suas chances de sobrevivência, ao explorar os recursos de ambos os ambientes, além de facilitar a fuga de predadores.

Ao deixar este mosaico para explorar outros ambientes mais secos, como a savana, os hominídeos aproveitaram sua nova postura bípede, tornaram-se exímios caçadores e ampliaram enormemente a ingestão de uma fundamental fonte de proteína, a carne. A nova dieta permitiu o aumento no tamanho do cérebro e, aproveitando o controle consciente da respiração, veio a fala. Chegamos, então, a um bípede caminhante, com cérebro volumoso, inteligência extraordinária e falante: o Homo sapiens.

Para maiores informações, vejam a palestra da Elaine Morgan.

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