Luz, câmera, imaginação

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Regina Tavares

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em 24/out/2014 - 1 Comentário

Por Regina Tavares

O filósofo Walter Benjamim (*1892 – + 1940) disse um dia que a memória era a mais épica das faculdades. Ninguém entendeu muito bem naquela época, mas o que ele queria revelar é que quando se trata de memória, agimos como verdadeiros entusiastas, iluminando as lembranças com acréscimos dignos de roteiros ficcionais.

Graças aos avanços recentes da Neurociência, a tese de Benjamin acaba de ser confirmada, a memória humana é mesmo cinematográfica. Nosso cérebro privilegia o registro de experiências com forte apelo visual e as evoca como lembranças tal qual um roteirista hollywoodiano, inserindo trilhas-sonoras, acrescentando emoções diversas, cultivando enfrentamentos entre o bem e o mal e assim por diante. O mais interessante é que a cada rememoração, nossa mente cria novos roteiros para a mesma lembrança. Dá para deixar qualquer pescador de queixo caído. Sem dúvidas, lembrar não é reviver, é viver algo novo a cada recordação.

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Para o autor Antonio Damásio, respeitado especialista no assunto, “[...] se uma cena tiver algum valor, se o momento encerrar emoção suficiente, o cérebro fará registros multimídia de visões, sons, sensações táteis, odores e percepções afins e os representará no momento certo. Com o tempo e a imaginação de um fabulista, o material poderá ser enfeitado, cortado em pedaços e recombinado como em um romance ou roteiro de cinema” *.

A força simbólica da imagem é tão expressiva que também se acredita que certos momentos memoráveis preservados em nosso imaginário estão sob influência de determinados filmes, propagandas e até programas de TV. A imagem da família preservada na memória, por exemplo, nunca foi e nunca será construída exclusivamente a partir das referências que temos de nossa família real. Várias famílias coexistem no imaginário que temos sobre nossa família. Em nossa memória, portanto, convivem a família do comercial de margarina, a de Don Corleone, a dos Simpsons e sei lá mais o quê.

Há um livro que retrata bem o que estou falando, ambientado no Rio de Janeiro, Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, lançado em 1995, combina memórias e crônicas do autor, borrando os limites entre fato e ficção, ao rememorar o convívio do autor com o pai.

O livro é uma prova interessante de que, ao relembrar nossos pais, especialmente após a morte deles, é possível se deparar com uma “quase memória”; uma coleção de pais, inclusive, daqueles que protagonizam ficções que envolvem a terna e controversa relação com os filhos.

Inté!

* DAMASIO, A. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 (p.167).

A CAIXA PRETA

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Regina Tavares

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em 01/nov/2011 - 9 Comentários

Já reparou como a convergência tecnológica tem se apresentado na mesma proporção que a convergência de conteúdo? Eu explico. De pensadores como Marshall McLuhan à gênios pragmáticos como Steven Jobs, a promessa de que uma caixa preta abrigaria todas as funções tecnológicas de o admirável mundo novo da tecnologia persiste em nosso imaginário. Entretanto, olho para a estante da sala de estar e me espanto com a quantidade de equipamentos – inúmeras caixas pretas – que divergem entre si, em meio ao emaranhado de fios e conectores. Numa olhadela desatenta, dá para identificar TV, receptor de sinal de TV a cabo, DVD, aparelho de som etc.

Obviamente, o computador e o celular são páreos duros neste ringue, afinal abrigam bem mais do que a função que deu origem as suas respectivas criações. Observe o celular, faz tanta coisa que até esquecemos sua função primitiva: realizar ligações.

Mas para continuar com a tese de que a convergência tecnológica é bem mais um processo cultural do que outra coisa qualquer, basta conferir observações simplistas. Vejamos no campo midiático: o conteúdo produzido pela mídia e, porque não dizer pela cultura em geral, tem sido intencionalmente destinado ao compartilhamento dos mais diversos equipamentos. Observe o último lançamento de uma saga heroica estilo Homem-Aranha, para entender do que falo. O lançamento do filme jamais é desacompanhado; a cerca deste, temos HQs, brinquedos, games, desenhos animados, livro com a publicação do roteiro original do filme etc. Para completar o percurso do Homem-Aranha pela sociedade moderna, blogs e microblogs inundam o universo cibernético para compartilhar a trilha sonora do filme ou, apenas, discutir o futuro do personagem.

A TV também se rendeu à convergência de conteúdo com a implantação das mil maravilhas prometidas pela TV digital. Já é possível acessar a classificação do Campeonato Brasileiro enquanto se assiste ao jogo do seu time. Quer outro exemplo de convergência de conteúdo na telinha? Qualquer emissora hoje em dia tem um programa interessado na apresentação dos vídeos de maior acesso no youtube.

Até a produção literária, de qualquer ordem, pode render uma versão tradicional impressa, um e-book, um áudio-book e, quiçá, ganhar o cinema, no ano seguinte ao seu lançamento.

Parece que além da convergência tecnológica ocorrer em algumas caixas-pretas por aí, o cérebro engenhoso do ser humano ganhará o título de verdadeira caixa preta da convergência cultural. Quem saberá o que podemos imaginar para um futuro que, há tempos, já chegou?

Inté!

INSTINTO ANIMAL

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Marcelo Paes Barros

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em 08/jul/2011 - 4 Comentários

Horário de expediente. Você está em sua sala e vê a nova funcionária contratada passando no corredor. Seus olhos saltam, você analisa rapidamente a moça de cima à baixo e sente até seu batimento cardíaco acelerar. Sem perceber, você (assim como seus outros colegas no setor) começa a cercar a moça tentando se mostrar como o mais simpático dali,o mais engraçado, o mais gentil, o mais abonado, etc. Não se culpe, meu amigo, isso se chama instinto. Vários outros animais também assumem uma postura semelhante quando são atraídos pelo sexo oposto. Mas, no fundo, o que faz você se conter, modular suas atitudes e não grunhir como um gorila de pé sobre sua cadeira, batendo os punhos fechados no peito? Resposta: Um aprimoramento cognitivo ausente nos animais (em termos) que ajusta estes instintos ao contexto social da vida humana, seguindo padrões morais, éticos, religiosos, etc. Apesar da intensa atração física (impulsiva) naquele momento, algumas condições podem te coibir de “partir para o ataque”: (I) você é casado e a abordagem estaria rompendo a premissa monogâmica inserida na sociedade humana, (II) a moça é a esposa do seu chefe, e isto te traria problemas na hierarquia profissional; (III) a moça é sua direta subalterna na empresa e soaria como assédio sexual, etc. De qualquer maneira, seu instinto estava lá…

O cérebro humano é fantástico em termos metabólicos: consome cerca de 150 g de glicose por dia e 25% de todo o oxigênio absorvido pelo corpo. É igualmente regido pelas mesmas características bioquímicas do cérebro dos outros animais: neurônios providos de dendritos e axônios para estabelecer a rede neurológica, neurotransmissores, mediação hormonal, etc. Uma característica quase exclusiva do cérebro humano se revela na camada mais superficial, enervada e fantasticamente versátil: o córtex cerebral. Essa fina camada de cerca de 2 mm de espessura de massa cinzenta, possui sua área superficial estendida por sulcos e dobras típicas do cérebro humano. O cérebro de aves, por exemplo, é praticamente liso.

No cérebro dos animais, grande parte da rede neurológica está prioritariamente envolvida a captação dos estímulos sensoriais (no, dito, centro reptiliano) e os animais respondem prontamente a estes estímulos. Contudo, o cérebro humano possui um grau de complexidade muito mais avançado, conquistado após milhões de anos de evolução. Análises neuromorfológicas do cérebro humano (inclusive, com recurso de imagens) comprovam que nós somos os únicos animais que podem extensivamente programar e planejar atividades futuras, graças a uma incrível capacidade abstrativa de uma região cerebral envolvida com ações de Planejamento e Coordenação. Os animais (será mesmo?) não possuem tal habilidade e vivem simplesmente seu dia a dia: comem quando têm fome, dormem quando estão cansados e copulam quando estão no cio.

Inegavelmente, os impulsos instintivos também afetam a espécie humana, mas podem e, muitas vezes, devem ser controlados conforme a conveniência da situação e o livre arbítrio das pessoas. As informações externas obtidas através dos sistemas sensoriais – visão, olfato, tato, paladar e audição – são captadas e interpretadas mas as ações humanas podem ser moduladas conforme a conveniência da situação. Curiosamente, alguns cientistas associam o grau de inteligência de humanos (incluindo inteligência abstrativa, numérica e emocional) com a capacidade destes para controlar seus impulsos reptilianos. Talvéz seja esta a base científica que explique o fato das mulheres repudiarem tanto o assédio constante daqueles “chatos” do escritório!

COMO EXERCITAR O CÉREBRO

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Carlos Augusto Andrade

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em 01/abr/2011 - 7 Comentários

Muitas pessoas me falam da dificuldade que tem de guardar informações, ou lembrar delas depois de algum tempo, ou, ainda, conseguir assimilar/aprender questões a elas relacionadas.

A pergunta é: está ficando mais difícil aprender? A correria da modernidade desvia nosso foco e acabamos sendo superficiais? O que acontece? Como superar o problema da falta de atenção e de assimilação?

A revista Mente n. 26, de fevereiro de 2011, apresentou vários artigos que procuramrefletir sobre “o desafio de aprender”. Entre eles, gostei do “Em busca de novas conexões” de Jan Scholz e Miriam Klein. Eles fazem um paralelo entre o aprendizado motor e o cognitivo. Ou seja, podemos trabalhar o desenvolvimento motor para fazer acrobacias e também exercitar o cérebro para melhorar as condições de aprendizagem. Eles apontam que exercícios como dançar, nadar, treinar lutas marciais, jogar xadrez, qualquer atividade que mantenha o corpo e a mente em movimento favorece a capacidade neural.

Aprender é um ato contínuo. O desenvolvimento de um exímio pianista exige muito dedicação, quanto mais ele tocar, melhor será seu desempenho. É fundamental desenvolvemos estratégias de aprendizagem que melhorem a nossa memorização e apropriação dos conteúdos que desejamos construir.

Há um provérbio chinês que aponta para uma máxima que considero importante: “o que eu ouço, esqueço; o que eu vejo, lembro; o que eu faço, aprendo”. Aprender, dessa forma, significa traduzir as informações em um “fazer prático”. As relações entre o “saber” e o “fazer” são fundamentais para a aprendizagem, principalmente de crianças que ainda não estão em fase de desenvolvimento de abstrações.

Rubem Alves, no vídeo abaixo, fala do aprender a aprender. É isso, um caminho legal que precisamos percorrer. Vejam o que ele diz a respeito da memória.

Como superar as questões apontadas no início deste artigo? Bem, fazendo alguma ginástica cerebral, observando, de início, as leis da memória, tais como: repetição, associação, exagero, ação ou movimento, substituição, desproporção, hilaridade, emoção, interesse ou motivação e luminosidade.

Quer saber como colocar isso em prática? Então não perca o próximo post. Apresentaremos alguns exercícios que auxiliem na memorização e na aprendizagem. Até lá.

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