Qualquer semelhança, não é mera coincidência! (Parte I)

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Regina Tavares

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em 14/mai/2014 - Sem Comentários

Por Profª Regina Tavares

 É muito comum acreditarmos que o mundo contemporâneo é a expressão clara do ápice da humanidade no quesito engenhosidade. Essa visão determinista tem visto o passado como arcaico e não evoluído, contudo é possível pasmar-se diante da sofisticação de determinadas descobertas datadas de 1500, por exemplo, e que em tempos atuais produz sentido e significado para nossas vidas.

Duvida? Vou me concentrar no campo científico da Comunicação, área na qual me sinto à vontade como pesquisadora. A excursão arqueológica que proponho vai na contramão de uma genealogia progressiva e linear costumeiramente apresentada pela historiografia dita “oficial”. Vou dividir esse post em três edições, ok?! Os textos a serem apresentados têm a clara função de combater o discurso convicto de que o cinema é uma exclusividade do século XIX.

cinema

Vamos iniciar nossas discussões falando do médico e escritor napolitano Giovan Battista dela Porta, que em pleno ano de 1593, era reconhecido por sua fascinação pelo universo do ilusionismo e foi responsável por um invento muito similar às câmeras de fotografia usadas atualmente.

Porta era tão vanguardista que sonhava com o dia em que imagens capturadas por sua câmera seriam projetadas em uma tela num galpão totalmente escuro. Ele ainda deixou registrado que a projeção deveria trazer atores e forte iluminação. Alguém notou uma semelhança com o cinema aí? Então, se prepare para ler o que Porta esperava do futuro: Daí seria possível se vislumbrar cenas de caça, batalhas, ou qualquer tipo de peça na câmera escura, e teria arranjo de sons de trompetes ou sons de armas a serem ouvidas”[1][i].

Os detalhes idealizados por ele a respeito da tela de projeção, do galpão escuro e da câmera são muito próximos daquilo que concebemos como Sétima Arte. Ao que tudo indica a secular instalação das salas de cinema é ainda mais antiga do que imaginávamos e coloca em xeque a discussão bizantina e agora banal sobre a reivindicação da origem do cinema pelos irmãos Lumière ou pelos irmãos Skladanowsky.

Continua…


 


[i] “Then it would be possible to view hunting scenes, battles, or any kind of play in the dark chambre, and it could be arranged for the sounds of trumpets or the clash of weapons to be heard”[i]. (ZIELINSKI, 2007, p. 88) – ZIELINSKI, Siegfried. Variantology 1 On deep time relations of arts, sciences anda Technologies. Estados Unidos: Dap-distributed Art, 2007.

 

 

O renascimento de Aby Warburg

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Regina Tavares

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em 23/abr/2013 - 2 Comentários

Há muito o universo acadêmico se ressentia da condição desfavorável em que se encontrava um de seus intelectuais mais intrigantes, Aby Warburg (1866-1929). O recente interesse no pensador alemão não se deve necessariamente a um trabalho de arqueologia dos estudos de arte – sua área de formação -, e sim, ao fato de termos, somente agora, condições de interpretar com maior nitidez a grandeza de sua obra, considerada incompreendida para a sua época.

Warburg era o primogênito de uma família de banqueiros judeus de Hamburgo e carregava o fardo de administrar a fortuna de sua casta, assim que seu pai viesse a falecer. Mas a profecia judia não se cumpriu e veio a opção de se dedicar aos estudos daquilo que intitularia Ciências da Cultura. Sustentado pelos irmãos mais novos, construiu uma biblioteca repleta de raridades que transitavam entre astrologia e física. A disposição dos livros chamava a atenção. Para o intelectual, os livros deveriam “conversar entre si” e, portanto, situar um livro de astronomia ao lado de uma obra de nutrição fazia sentido ao seu entendimento.

Outro de seus feitos, ainda hoje, inquieta inúmeros pesquisadores das ciências humanas, trata-se de um atlas de imagens chamado Mnemosyne. A tentativa ousada de um atlas universal das imagens rendeu 63 paineis com algo perto de mil fotografias. Neles, é possível notar imagens semelhantes a do Homem Vitruviano em documentos anteriores e posteriores à Da Vinci. De fato as imagens selecionadas por Warburg podem ser notadas em inúmeros signos de nosso cotidiano contemporâneo. Para dar um exemplo banal; basta notar as associações existentes entre a imagem das ninfas de Botticelli e as modelos do mundo da moda ou da propaganda.

É, parece que nada se cria, tudo se copia. Mesmo que este ‘ctrl c + ctrl v’ tenha sido inconsciente, como destaca Jung mais tarde ao dissertar sobre os arquétipos. É como se existisse uma espécie de repertório imagético em nossa memória coletiva que preserva e transforma as tradições mais primitivas de nossa existência.

Muito do que está publicado a respeito de Warburg advém dos relatos de Gertrud Bing, sua fiel secretária e de Fritz Saxl, historiador responsável pelo acervo de sua biblioteca. A sua mirrada produtividade literária publicada nos inquieta quando notamos milhares de anotações deixadas pelo pensador, ainda sem organização metódica ou intenção de notoriedade pública.

Uma das justificativas para este lamentável fato está na triste fase vivenciada pelo estudioso em determinada ocasião de sua vida. Warburg sofria de esquizofrenia e por aproximadamente quatro anos esteve internado em uma clínica psiquiátrica. Até Freud, um de seus mais ilustres contemporâneos, se interessou pelo seu caso clínico, como é evidenciado em cartas trocadas entre o Pai da Psicanálise e o psiquiatra de Warburg. Segundo estudos, em seus delírios mais intensos, Warburg sentia-se perseguido. Curiosamente, mais tarde sua família e milhares de judeus seriam dizimados pela Alemanha nazista.

Mais impressionante que esta espécie de premonição, é registrar que depois de uma longa internação psiquiátrica, Warburg é declarado curado, retoma seus estudos e resolve empenhar uma longa estadia em Florença, seu destino favorito. Em 1929, no clímax do Crack da Bolsa de Valores em Nova York morre de ataque cardíaco deixando um notório acervo de livros raros.

Em 1933, a biblioteca Warburg – com cerca de sessenta mil volumes e um enorme montante de imagens – foi transferida para Londres e escapa das ameaças nazistas, dando origem, no futuro, ao célebre Instituto Warburg.

Inté!

UM CLICK AO PASSADO!

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em 22/mar/2011 - 10 Comentários

Agasalhos com cheiro de mofo, brinquedos empoeirados, jornais amarelados pelo tempo, tralhas esquecidas. Levante a mão quem nunca buscou objetos como estes; lembranças adormecidas, pessoais e intransferíveis.

Um destes objetos memorialistas por essência é a fotografia. Não, não pense que farei aqui um manifesto em prol da fotografia analógica em detrimento da fotografia digital ou vice-versa. Nada disso. Me refiro àquelas fotografias acondicionadas em caixas de sapato antigas e que eram expostas aos amigos e familiares somente em ocasiões especiais. E, óbvio, me refiro também às fotografias postadas no álbum do Facebook, nos filmes de retrospectiva exibidos em aniversários e casamentos “moderninhos” e até mesmo àquelas fotos de celular. Todas elas são objetos memoráveis por excelência; capazes de tornar presente alguém que se foi, uma época que deixou saudades ou algo que não se tem mais.

Enfim, digital ou analógica, todas carregam significados e são esses tais significados que dizem à nossa memória o que armazenar e o que desprezar. É seguindo esta lógica que passo a duvidar da afirmação de que o brasileiro não tem memória. Afinal, não se pode chamar de desmemoriado um indivíduo que se recorda do nome de todos os jogadores e suas respectivas posições na semi-final da Copa de 1970. Na verdade, nossa memória está relacionada à nossa percepção e portanto é seletiva.
Alguns pensadores como Halbwachs, Judy e Bergson reiteram a importância da memória para a construção ou o fortalecimento da identidade cultural de um indivíduo e uma nação. Daí a necessidade de nos cercamos de objetos repletos de lembranças, entre eles, as fotografias.

Para finalizar, vamos louvar a iniciativa do CPDOC São Miguel Paulista (Fundação Tide Setúbal) ao oferecer uma oficina de fotografia e memória. A inscrição vai até 25 de março, pessoalmente (Rua: Mário Dallari, 170 – São Miguel Pta.) ou via blog CPDOC São Miguel Paulista. O único requisito para se inscrever é ter uma câmera e gostar de clicar por aí. Inté semana que vem!

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