Michelângelo: o Divino

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Regina Tavares

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em 20/set/2011 - 11 Comentários

Em nosso último post tratamos do Renascimento nas artes, excelente pretexto para trazermos à tona um dos maiores expoentes desse período: Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (Caprese, *1475 - Roma, +1564), mais conhecido como Michelângelo. Entre os seus maiores feitos, sem dúvidas, está a Capela Sistina. Para acessá-la, em Roma, é preciso percorrer, ao menos por 30 minutos, o extenso acervo do Museu do Vaticano. Após um sobe-e-desce sem fim de escadas e longos corredores repletos de preciosidades como as artes greco e romana antigas, finalmente adentra-se a Capela Sistina para disputar, com centenas de turistas, uma posição privilegiada para observar os detalhes de uma obra monumental. Dá-lhe torcicolo, devo confessar. Mas vale a pena.

A Capela Sistina tem esse nome por causa do Papa Sisto IV e foi erguida em 1473. No ambiente é possível notar a presença de outros grandes artistas da época, tais como: Botticelli, Roselli, Signorelli, Guirlandaio e Perugino. Nas laterais, pintadas entre 1481 e 1483, observa-se episódios paralelos às vidas de Moisés e Cristo. Apesar da beleza de tais afrescos, o toque de Michelângelo rouba a cena. Entre 1508 e 1512, a pedido do Papa Júlio II, Michelângelo criou o teto da Capela com episódios como A Criação de Adão e O Pecado Original. Temas dos Antigo e Novo testamentos também podem ser contemplados.

A superfície superior da Capela Sistina foi dividida em áreas, nas triangulares há as figuras de profetassibilas; nas retangulares, os episódios do Gênesis. Como imagens de fundo, temos:

. Deus criando o Sol e a Lua;
. Deus separando a Luz das Trevas;
. Deus separando a terra das águas;
. A Criação de Adão (a mais famosa, vide abaixo);
. A Criação de Eva;
. O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso;
. O Dilúvio Universal;
. O Sacrifício de Noé;
. Noé Embriagado.

Duas décadas depois, entre 1534 e 1541, Michelângelo terminou a decoração da Capela ao acrescentar o Juízo Final na parede do altar. A visão é de arrepiar os mais céticos diante das almas que enfrentam o julgamento de Deus e das que foram condenadas ao inferno. Nesta última empreitada, Michelângelo não teve piedade e sacrificou alguns afrescos de Perugino, anteriores a sua obra.

Na época, Michelângelo dispensara os assistentes que havia contratado por julgar o trabalho dos mesmos, insuficiente. Alguns estudos apontam que Michelângelo se sentiu um tanto contrariado em aceitar o desafio da Capela Sistina, tendo em vista sua maior afinidade com o universo da escultura e não da pintura. Para atestar seu talento nesta área basta recorrer a obras monumentais como Pietá (1499), criada com maestria quando o artista tinha apenas 25 anos e David (1501-1504), sua maior escultura.

No livro Segredos da Capela Sistina sugere-se que o artista tenha usado de criptografia e seus conhecimentos em textos judaicos e cabalísticos, contrários ao cristianismo, para atacar o Papa e defender aquilo em que acreditava. A visão atormentada do artista em relação à própria fé está presente na pintura do mártir São Bartolomeu, na qual Michelângelo se autorretratou. Parece impossível pensar que somente um homem tenha desenvolvido o que se tornaria um dos maiores tesouros da humanidade. Não é à toa, que ainda em Florença, Michelângelo fosse intitulado pelos seus pares como o Divino.

Ao visitar a Capela Sistina, vale saber que é proibido fotografar e que o silêncio é solicitado insistentemente. No link abaixo, você transita pela Capela em 3D, pelo tempo que quiser e ao som de cantos gregorianos. Se prepare para esta experiência sensorial. Inté!

Referências: Vaticano

Renascimento em Florença

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Regina Tavares

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em 30/ago/2011 - 9 Comentários

Em continuidade aos posts sobre minha viagem à Europa, destaco minha incursão ao universo artístico de Florença, na Itália. Desde o século XVI, a cidade se tornou referência para um movimento, que no futuro ganharia o nome de Renascimento. Enquanto a arquitetura buscava inspiração em modelos clássicos, a arte renascentista apostava em uma nova compreensão da perspectiva, da religião e da anatomia com o auxílio de gênios como Leonardo da Vinci, Michelângelo, Donatello e Botticelli.

Para constatar a efervescência deste período para a erudição e as artes, vale conferir a Galeria Uffizi, construída entre 1560 e 1580, para abrigar o escritório do duque Cosimo I. Em 1581, os herdeiros de Cosimo usaram o espaço para exibir o acervo da família Médici. Eis que surge a galeria de arte mais antiga do mundo. Logo no início desta sensível expedição pela cultura florentina, se descobre um corredor com exposição permanente de esculturas gregas e romanas. Já as pinturas, ponto alto da Uffizi, estão dispostas em salas separadas por ordem cronológica; o que permite aferir o desenvolvimento da arte italiana a partir do estilo gótico ao auge do renascimento.

Pode-se notar em algumas obras, o tom racionalista e uma nova atitude diante da espiritualidade, tão evidente no estilo gótico.  Determinadas obras mostram como o homem passa a se interessar pelo mundo material e suas belezas naturais. O domínio de técnicas como a geometria e a perspectiva também estão incutidas em obras que se arriscam a criar a ilusão de espaço e de profundidade pela primeira vez. Destas obras, é imperdoável não apreciar Botticelli em O nascimento de Vênus (1485) e em Primavera (1480). Na primeira obra, Botticelli troca a Virgem pela Deusa do amor e na segunda, deixa a pintura religiosa cristã de lado, ao retratar o ritual pagão da primavera.

Nas ruas de Florença, é possível constatar a admiração por Botticelli em pinturas feitas por artistas de rua no asfalto.

Retratos renascentistas preocupados em retratar com fidelidade seus modelos também podem ser apreciados na Uffizi. Bons exemplos são o Duque e a Duquesa de Urbino (1460). Observe como o nariz quebrado do Duque não foi perdoado por Piero della Francesca.

A Sagrada família (1507) de Michelângelo também rouba a cena com o uso de cores vibrantes e poses incomuns para pinturas religiosas de então. Em meu próximo post, veremos como Michelângelo se tornou uma das maiores expressões do renascimento com a Capela Sistina.

Por fim, destaco as obras de Caravaggio, entre elas: Baco (1589) abaixo, Sacrifício de Isaac (1590) e Medusa (1596-1598).

Para completar o dia, nada melhor do que sair da galeria e seguir até o final da rua para apreciar o lindo pôr-do-sol na Ponte del Vecchio, construída em 1345 e a única a escapar ilesa da Segunda Guerra Mundial. Com sorte, é possível encontrar músicos de rua distraindo turistas neste cenário para lá de especial.

Inté!

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