BARBANTE, RIPAS E LUTA

A obra de Gerônimo Leitão, Jonas Delecave, Helena Araújo, Helena Porto e Elane Frossard traz a história dos movimentos de ocupação de áreas urbanas surgidos no Rio de Janeiro entre 1983 e 1993, que resultaram na formação de bairros populares, hoje integrados à cidade. Eduff, 96 páginas. R$ 20.

 

Fonte: O Globo

Categoria: Literatura e Filmes
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O DESPERTAR DO PRÍNCIPE – COLLEEN HOUCK

Quando a jovem de dezessete anos, Lilliana Young, entra no Museu Metropolitano de Arte certa manhã, durante as férias de primavera, a última coisa que esperava encontrar é um príncipe egípcio ao vivo com poderes divinos, que teria despertado após mil anos de mumificação.

 

E ela realmente não poderia imaginar ser escolhida para ajudá-lo em uma jornada épica que irá levá-los por todo globo para encontrar seus irmãos e completar uma grande cerimônia que salvará a humanidade.

 

Mas o destino tem tomado conta de Lily, e ela, juntamente com seu príncipe sol, Amon, deverá viajar para o Vale dos Reis, despertar seus irmãos e impedir um mal em forma de um deus chamado Seth, de dominar o mundo.

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Título: O Despertar do Príncipe

Titulo Original: Reawakened

Autor: Colleen Houck

Editora: Arqueiro

Número de Paginas: 336

 

Fonte: Dicas de Livros

Categoria: Literatura e Filmes
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O PONTO DE ENCONTRO DOS LÍDERES DAS INDEPENDÊNCIAS AFRICANAS EM PORTUGAL

Casa dos Estudantes do Império é tema de livros e exposição

PRAIA (CABO VERDE) – Criada em 1944, em Portugal, para receber jovens das colônias da África e da Ásia, a Casa dos Estudantes do Império tinha um objetivo expresso já no nome: formar quadros para o sistema colonial. Mas a convivência entre alunos de origens diversas, unidos pela revolta contra a dominação portuguesa, teve o efeito contrário. Antes de ser fechada pelo ditador Antonio Salazar, em 1965, a Casa se tornou um polo difusor das culturas de países como Angola, Moçambique e Cabo Verde. Muitos estudantes saíram dali para liderar as lutas de independência que acabaram com o império português.

 

Essa história é resgatada em uma exposição promovida nos países lusófonos pela União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA). Com fotografias, documentos e obras da época, a mostra já passou por Lisboa e Maputo, em Moçambique, e está em cartaz em Praia, capital de Cabo Verde. Além disso, a UCCLA publicou fac-símiles dos 22 volumes lançados pela editora da Casa dos Estudantes do Império. São os raros livros de estreia de jovens que se tornariam pioneiros das literaturas dos países africanos de língua portuguesa

 

Secretário-geral da UCCLA e idealizador da exposição, Vitor Ramalho afirma que a Casa é uma instituição singular na história do colonialismo

 

— Portugal foi o único país com uma instituição onde surgiram laços entre futuros governantes e escritores das ex-colônias. Nasci em Angola e ouvia sempre essa história dos mais velhos, mas ela é pouco lembrada hoje nos países lusófonos — diz Ramalho, que espera trazer a mostra para o Brasil nos próximos meses.

 

A Casa era um centro de convivência, lazer e assistência médica e social para universitários das colônias portuguesas, onde não havia ensino superior. A maior parte dos sócios vinha da África, com alguns egressos de Timor-Leste, Macau e Goa, na Ásia. Entre os estudantes estavam Agostinho Neto, que viria a ser o primeiro presidente de Angola, de 1975 a 1979; Joaquim Chissano, que governou Moçambique de 1986 a 2005; e Amílcar Cabral, líder do movimento de libertação de Guiné-Bissau e Cabo Verde, assassinado em 1973, antes das independências.

 

Os estudantes promoviam debates, festas e eventos que movimentavam a Casa. Nos anos 1960, criaram um selo editorial que publicava obras não só de associados (como “Poemas”, de Agostinho Neto), mas também de jovens autores que viviam nas colônias. Por isso, foram lançadas primeiro em Lisboa obras seminais da literatura africana, como “Caminhada”, do cabo-verdiano Ovídio Martins; “A cidade e a infância”, do angolano Luandino Vieira; e “Chigubo”, do moçambicano José Craveirinha (de versos como “Vim de qualquer parte/ duma nação que ainda não existe”). Décadas mais tarde, Craveirinha e Vieira receberiam o Prêmio Camões, maior distinção da língua portuguesa.

 

CASA INSPIROU ROMANCE DE PEPETELA

Também ganhador do Camões, o angolano Pepetela frequentou a Casa entre 1959 e 1962. No convívio com outros estudantes africanos, o jovem fã de Julio Verne e Eça de Queirós passou a conhecer melhor a cultura de sua terra natal. Pepetela se inspirou nessa experiência para escrever o romance “A geração da utopia” (Leya), no qual uma sócia da Casa, “no centro mesmo do Império”, descobre “sua diferença cultural em relação aos portugueses”.

 

— Foi na Casa que pela primeira vez me apercebi da riqueza das culturas africanas, não só de Angola, mas de todo o continente. Foi também aí que tomei maior contato com a literatura que se fazia em Angola, mas que era quase clandestina. Compreendi cada vez mais que a cultura, particularmente tudo o que tivesse como origem as tradições e crenças seculares, se transmitiam de geração em geração, conservando o núcleo de uma consciência que mais cedo ou mais tarde explodiria em consciência social e política — diz Pepetela, por e-mail.

 

Dos cerca de 600 sócios da Casa, pouco mais de cem fugiram de Portugal em 1961 para participar das lutas de independência nos países africanos, que durariam até a metade da década seguinte. O regime Salazar apertou a vigilância sobre a instituição, que foi fechada em 1965. Autora de “A Casa dos Estudantes do Império e o lugar da literatura na conscientização política”, Inocência Mata, professora das universidades de Lisboa e de Macau, diz que a instituição foi “um bumerangue” que se voltou contra o regime colonial.

 

— Os estudantes cooptaram a Casa para difundir o ideal de autonomia e combater a invisibilidade dos africanos — diz Inocência, nascida em São Tomé e Príncipe. — O regime fechou a instituição porque passou a vê-la como um ninho de rebeldes. Mas seus integrantes deixaram um legado: formaram uma nova elite política africana e ajudaram a construir as literaturas de seus países.

 

Guilherme Freitas viajou a convite da UCCLA

 

Fonte: O Globo

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BRASILEIRO FESTEJA PRÊMIO EM FESTIVAL FRANCÊS DE QUADRINHOS

‘Tungstênio’, de Marcello Quintanilha, foi considerado a melhor história policial

SÃO PAULO – Radicado na Espanha e morando em Barcelona há 14 anos, o niteroiense Marcello Quintanilha, de 44 anos, foi premiado anteontem, no Festival de Angoulême, na categoria Polar, que segundo o autor pode ser definida como uma mistura dos gêneros policial e suspense, com uma pitada de crítica social. O livro escolhido pelo “Festival de Cannes dos quadrinhos” foi “Tungstênio”, lançado no Brasil em 2014 pela editora Veneta e na França no ano passado, pela Çà et Là.

 

— O selo de participação num certame como esses já é uma grande coisa. Ganhar um prêmio tem uma dimensão muito maior — diz ele, em entrevista por Skype ao GLOBO.

 

Ambientada em Salvador, a história de “Tungstênio” acompanha as agruras de quatro personagens: um sargento reformado do exército, um jovem traficante, um policial e sua mulher. É uma mudança e tanto das ambientações do início de sua carreira, quando as tramas se passavam nos subúrbios cariocas e eram protagonizadas por jogadores de futebol, motoristas de van e outros personagens da fauna local.

 

Quintanilha diz que os quadrinhos brasileiros são muito apreciados no mercado europeu. Nem tanto por ser estrangeiros ou por ter alguma particularidade, mas porque são bons.

 

— Não existe nada extraordinário nisso — diz o quadrinista. — Existe uma mudança conjuntural. Com a internet, a circulação dessas obras está mais ágil. Fica mais fácil.

 

O autor disse que acompanha o máximo que pode o que está se passando no mercado brasileiro de quadrinhos. Ele acha que o país passa por um momento interessante, mas é preciso “preencher algumas lacunas”:

 

— Precisamos melhorar nossa relação com as obras de gênero, criar publicações que reúnam histórias de terror, policiais, de cangaço. Costumávamos ter isso antes e perdemos. O mercado se fortalece.

 

Quintanilha está trabalhando em um novo livro, que deve ser lançado ainda no primeiro semestre. Segundo ele, são histórias curtas, dando segmento ao que fez em “Talco de vidro” (2015).

 

— São histórias bem fortes, que mergulham na psicologia dos personagens. São histórias inspiradas naquilo que eu sou e que pessoas muito próximas de mim viveram.

 

Fonte: O Globo

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EDITORAS INVESTEM EM HISTÓRIAS QUE EXPANDEM UNIVERSO DE ‘STAR WARS’

Livros se passam antes ou depois dos filmes produzidos até agora

SÃO PAULO — Logo no começo de “Star Wars: O despertar da Força” (2015), os personagens mencionam uma batalha da qual só se sabe o nome do planeta onde ocorreu. O confronto, contado em detalhes e com as consequências visíveis para quem assistir ao filme, está em “Estrelas perdidas”, de Claudia Gray, que a Companhia das Letras lançou no fim do ano passado pelo selo Seguinte, dedicado ao público jovem. O livro faz parte do que os fãs chamam de “universo expandido” e se encaixa na cronologia da saga criada por George Lucas nos anos 1970.

 

Na trama, que começa oito anos após a queda da Velha República, acompanha o surgimento da Rebelião e termina com a derrota do Império, os amigos de infância Ciena Ree e Thane Kyrell crescem compartilhando o sonho de se tornar pilotos e, quando chegam à idade adulta, seguem caminhos diferentes. O livro relata, ainda, eventos que se passam depois de “O retorno de Jedi” (1983), e traz pistas sobre o episódio VII. Nenhum dos personagens é mencionado na aventura de Ray e Finn, embora estejam dentro do que os fãs chamam de “cânone”, o conjunto de histórias que forma o universo “Star Wars”.

 

— Ciena e Thane não são mencionados, é verdade. Mas dá para ver alguma coisa da história deles no filme. Tem que ler o livro e entender exatamente o que é — brinca a autora americana, cujo nome verdadeiro é Amy Vincent, em entrevista ao GLOBO.

 

Autora de livros para o público jovem, como a trilogia de ficção científica “Firebird” e a série paranormal “Noite eterna”, ela foi escolhida pela Disney e pela Lucasfilm para escrever “Estrelas perdidas” justamente por seu sucesso junto a esse grupo específico de leitores, que varia de 14 a 21 anos e busca temas um pouco mais adultos.

 

— Lá atrás, nos anos 1990, quando os livros começaram a sair, eu lia cada um deles, e ainda guardo alguns no meu coração, especialmente o trabalho de Timothy Zahn e A.C. Crispin — disse ela, que é fã de “Star Wars” desde os 7 anos de idade. — Sempre gostei de mergulhar nesse universo e descobrir o que poderia estar acontecendo com os personagens.

 

A resposta de Claudia explica também o conceito de “universo expandido”: histórias que não aparecem nos filmes, mostram pontos de vista alternativos e podem cobrir períodos anteriores ou posteriores a eles. Os livros são apenas uma parte desse mosaico, que contém também quadrinhos e séries animadas. O que a autora não explica é a diferença entre as “lendas” e o “cânone”, que aparece quando a Disney compra a Lucasfilm de George Lucas por cerca de US$ 4 bilhões.

 

— As lendas são o cânone antigo ou tudo o que foi feito fora dos filmes antes de a Disney comprar a Lucasfilm e os direitos de produzir “Star Wars” — esclarece Nathalia Dimambro, responsável pela edição brasileira de “Estrelas perdidas”. — O novo cânone é tudo o que foi produzido depois da aquisição e se concentra basicamente em torno da trilogia original (os episódio IV ao VI).

 

A Companhia das Letras lançou sete títulos “canônicos” da saga, incluindo três novelizações dos filmes. Além do livro de Claudia, a editora publicou mais três romances sob uma coleção chamada “Jornada para ‘Star Wars: O despertar da Força’”: “A arma de um Jedi: uma aventura de Luke Skywalker”, de Jason Fry, que se passa entre “Uma nova esperança” (1977) e “O Império contra-ataca” (1980); “A missão do contrabandista: uma aventura de Han Solo e Chewbacca”, de Greg Rucka, ambientado no mesmo período, e “Alvo em movimento: uma aventura da princesa Leia”, de Cecil Castelucci e Jason Fry, cujos eventos ocorrem entre “O Império contra-ataca” (1980) e “O retorno de Jedi” (1983).

 

A editora não revela números de vendas, apenas diz que foram distribuídos 15 mil exemplares de “Estrelas perdidas”, o que confirma a aposta nesse filão. Nathalia diz que a empresa está estudando a compra de novos títulos da saga, especialmente “Star Wars: Before the awakening”, que conta histórias de Rey, Finn e Poe Dameron antes de se encontrarem em “O despertar da Força”.

 

— É um título muito pedido pelos fãs — disse ela. — Mas ainda estamos avaliando.

 

Os títulos adultos e os infantis ficaram com a Aleph, especializada principalmente em ficção científica. Desde 2014, a editora paulista já lançou 14 livros da saga, entre “lendas” e que se incluem no novo cânone. Um dos carros-chefe é “Marcas da guerra”, de Chuck Weding, que esteve no Brasil no ano passado. Ambientado logo após “O retorno de Jedi”, dá dicas do que acontece no cenário político após a queda do Império.

 

— Tem uma passagem que mostra o contrabando do sabre de luz do Darth Vader como se fosse uma relíquia. É uma indicação de que os Cavaleiros de Ren já estavam começando a se organizar — revela Daniel Lameira, editor da Aleph, que contabiliza mais ou menos 300 mil exemplares vendidos reunindo inclusive os livros infantis.

 

A Aleph planeja o lançamento de pelo menos mais quatro títulos do novo cânone em 2016, incluindo “Herdeiro de Jedi”, de Kevin Hearne; “Lords Sith”, de Paul Kemp; “Discípulo sombrio”, de Christie Golden, e “Battlefront”, de Alexander Freed. Um dos diferenciais das edições são as capas exclusivas, encomendadas a estúdios e artistas europeus que são fãs da saga.

 

Fonte: O Globo

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ENSAÍSTA FAZ CRÍTICA CULTURAL DO BRASIL E QUESTIONA AUTORES CONSAGRADOS

Martim Vasques da Cunha lançou ‘A poeira da glória’ pela editora Record

RIO – Na apresentação de “A poeira da glória” (Record), o jornalista, crítico e ensaísta Martim Vasques da Cunha pede aos leitores que o julguem pelos argumentos que apresentará nas mais de 600 páginas seguintes. Seu objetivo é retirar a “poeira da glória”, expressão tomada de empréstimo do escritor Otto Lara Resende, dos clássicos da literatura brasileira. Mais do que uma crítica literária, Cunha faz uma crítica cultural do Brasil e questiona os seus mais consagrados intérpretes, como Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido. O ensaísta garante que não quis comprar briga com ninguém, mas mostrar “uma visão meio inesperada da literatura que sempre esteve oculta, mas poucos queriam ver”.

 

— Tudo está bem documentado nos livros e nos depoimentos. Basta apenas lê-los com um novo olhar, sem nenhum filtro ideológico — afirma Cunha em entrevista por e-mail ao GLOBO. — Antes de tudo temos de parar de colocar esses autores, vivos ou mortos, no pedestal e finalmente assoprar a “poeira da glória” em suas obras para que a cultura brasileira possa começar a respirar de novo.

 

Nas suas análises, vocês faz uma avaliação moral de escritores e suas obras e reflete sobre valores como o Bem, o Belo e o Verdadeiro. Quais as suas filiações teóricas em “A poeira da glória”?

 

Fazer uma avaliação moral não significa, em hipótese nenhuma, fazer uma avaliação moralista, isto é, que reduza esses escritores a dogmas de bom comportamento. Literatura não se faz com boas intenções, mas sim com a plena consciência de que, pouco importa o que faça, você não sairá ileso ou vivo deste mundo. O que eu fiz, na verdade, foi analisar a vida e a obra desses autores como se fosse o drama existencial que representa também o drama do país. Assim, a minha filiação teórica se encontra principalmente em autores como Mario Vieira de Mello, Lionel Trilling, Milan Kundera, Roger Kimball, além de Julien Benda, Antonio Paim, Paulo Mercadante e João César de Castro Rocha com seu “Machado de Assis — Uma poética da emulação”.

 

Analisar obras a partir de valores ideais como o Bem e o Belo não seria algo anacrônico, já abandonado pela crítica? Por que trazer de volta a compreensão da literatura a partir desta perspectiva?

 

Creio que “anacrônico” é um termo equivocado quando se percebe que a minha filiação teórica, como você mesmo disse, inclui autores de diversas filiações ideológicas e que abarcam vários anos de estudos. Não há nada anacrônico na minha abordagem quando se percebe que um gigante como Lionel Trilling — infelizmente, pouco conhecido no Brasil — ou alguém como Milan Kundera, em especial no seu livro de ensaios mais recente, “Um encontro” (2013), sempre abordaram a literatura sob o prisma destes “valores ideais”. E esta compreensão sobre a literatura pode oferecer de volta justamente o prazer da leitura que perdemos e que atualmente vemos como um fardo — quando ela é um dos poucos remédios que temos para mitigar a nossa solidão.

 

Machado de Assis é considerado o patrono da literatura brasileira. Você tem críticas a essa reverência, em especial por causa do apreço do autor pela dissimulação. Por que você vê como problemático o lugar ocupado por Machado de Assis?

 

A “poética da dissimulação” de Machado de Assis é algo muito bonito de se ver em termos estéticos e técnicos, mas extremamente nefasto quando a percebemos na nossa cultura e no nosso comportamento cotidiano. Machado mostra que apenas conseguiremos sobreviver neste mundo cruel se dependermos do fingimento e da falsidade perante nós mesmos porque não há qualquer chance de encontrarmos inocência ou bondade — e quando isso acontece, deve-se colocar tudo sob suspeita, já que provavelmente se trata de uma exceção à regra. Isso resulta numa cultura da trapaça e do ressentimento que fundamenta a nossa sociedade, em que o brasileiro é incapaz de dominar as suas paixões e encontrar dentro de si a liberdade interior que o impediria de se transformar em um “monstro moral”.

 

Uma das inovações do livro é propor uma organização dos autores em duplos. O que torna Lima Barreto um duplo de Euclides da Cunha, assim como Guimarães Rosa de Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues de Antonio Candido?

 

O livro foi estruturado como uma “descida aos infernos”, em que cada autor é o duplo do outro, seja pela contraposição de uma qualidade com um defeito (como é o caso de Nelson Rodrigues e Antonio Candido) ou então pelo paralelismo de obsessões em que um se sai razoavelmente vitorioso enquanto o outro sucumbe. O exemplo evidente desta construção dramática se encontra no capítulo sobre Guimarães Rosa e Otto Lara Resende, sendo que este último, como bem aponta o título do ensaio, é uma espécie de Virgílio e de verdadeiro herói neste submundo que se tornou a nossa literatura.

 

Antonio Candido, de quem você discorda várias vezes, é considerado o principal crítico literário brasileiro e responsável por formar gerações de críticos. Qual a sua principal crítica a Candido?

 

Antonio Candido foi o crítico que praticou aquilo que Julien Benda chamava de “a traição dos intelectuais” ao analisar a literatura somente pelas suas paixões políticas e esquecendo-se que ela retrata sobretudo o drama de uma realidade incapaz de ser classificada em gavetinhas ideológicas, seja do lado da esquerda ou da direita.

 

No livro, você critica também os chamados intérpretes do Brasil. Qual seria o principal equívoco deles ao fazer as suas interpretações?

 

O principal equívoco de intérpretes do Brasil como Sergio Buarque de Holanda, Mario de Andrade e Paulo Prado, entre outros, foi ter uma visão reducionista da natureza humana, substituindo-a por aquilo que o sociólogo Luis de Gusmão chamou de “o fetichismo do conceito”, transformando o homem em uma abstração, incapaz de assumir suas responsabilidades, ao jogar toda a culpa nas ideologias políticas e nas circunstâncias sociais.

 

No fim do seu livro, você argumenta que vivemos em um “totalitarismo cultural”. Quais são as características desse totalitarismo? E o termo não seria forte?

 

Não há nada forte ao usarmos a palavra “totalitarismo”. É apenas um termo científico, sem nenhum caráter positivista, que descreve precisamente qual o seu maior desejo: controlar a natureza humana em seus mínimos detalhes, na crença de que uma determinada interpretação da realidade se confunde com o centro do poder instituído. O totalitarismo cultural vivido no Brasil é exatamente essa busca obsessiva em querer “politizar” tudo, até mesmo os relacionamentos humanos, e amputar qualquer caminho do ser humano de conhecer a si mesmo para depois redescobrir a sua liberdade interior.

 

Fonte: O Globo

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ROMANCE DE REGINALDO PUJOL FILHO TRAZ REFERÊNCIAS ÁCIDAS AO MERCADO EDITORIAL

Com estilo próprio e bom humor, escritor reflete sobre a relação entre ficção e realidade

RIO – Reginaldo Pujol Filho e Edmundo Dornelles não são a mesma pessoa. Sim, os dois são escritores. Sim, os dois vivem em Porto Alegre. No entanto, as semelhanças entre o autor do romance “Só faltou o título” (Editora Record) e o protagonista da história terminam por aí. No livro, fruto do mestrado de Pujol Filho em Escrita Criativa, concluído no ano passado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), a realidade entra para potencializar a ficção. Uma série de escritores, editores e grupos editoriais reais são criticados por Edmundo, um amante de Dostoiévski e Balzac que ganha a vida como revisor de obras que detesta. Amargurado, preso num casamento infeliz e cobrado pela família por não arrumar um emprego, o escritor tem a certeza de que só os seus romances não publicados podem salvar a literatura brasileira contemporânea.

 

Desiludido sobre a capacidade da ficção de convencer as pessoas sobre as tramas que conta, Edmundo levará sua frustração a uma atitude radical — o ponto de virada do livro, que será lançado nesta quarta-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo, em um debate com o escritor Sérgio Rodrigues. Para Pujol Filho, colocar nomes reais no romance era uma exigência do próprio projeto, cujo embrião surgiu em 2006, não um desejo de acertar as contas com o mercado editorial ou algo do tipo.

 

Mas, afinal, ele temia que as diversas referências a editoras e autores poderiam causar problemas? O escritor garante que não pensou nisso quando estava escrevendo, mas ficou preocupado ao revisar a obra. A preocupação acabou se revelando infundada. Edmundo já trabalharia no Grupo Editorial Record antes mesmo de o editor Carlos Andreazza decidir lançar o livro. Aliás, o próprio Andreazza só não aparece no romance porque ainda não trabalhava na Record no período em que se passa a história.

 

— Para tomar a atitude que ele toma no livro, um ato extremo, o Edmundo precisava estar muito mal. Ele quer chegar no mercado, mas se sente impedido. É revisor de um grande grupo editorial (a Record, citada no livro), mas ouve de uma assistente editoral que suas obras não têm verossimilhança — conta o escritor gaúcho, em entrevista num café de Ipanema. — No começo, não me preocupei com isso, saí disparando geral porque o projeto pedia isso. O que o Edmundo faz é inserir ficção na realidade. Por isso, coloquei muita realidade no livro, para que o gesto dele de ficcionalizar a vida ficasse ainda mais forte.

 

ENTRE VERDADE E INVENÇÃO

O livro joga o tempo todo com as noções de verdade e invenção. Edmundo, por exemplo, revisa e detona de Cristovão Tezza a Meg Cabot. Mas, como diz o aviso antes do início do romance, “os personagens e os fatos dessa obra são reais apenas no universo da ficção (como pode ser lido na folha de créditos de romances da Companhia das Letras)”. Contudo, o protagonista irascível também reflete em boa medida o tempo em que vivemos, aponta o escritor.

 

— Vivemos um momento muito egoísta, de pouca capacidade empática. Só se vê dois lados das coisas. As pessoas se comportam como se tudo fosse contra elas. O Edmundo sai estereotipando e batendo em todo mundo, não quer tomar o lugar do outro, como se apenas o pensamento dele tivesse algum sentido. O Edmundo pode ser lido um pouco como um cara do nosso tempo.

 

Pujol Filho explica que quando começou a escrever a história, em 2013, acompanhou os debates sobre autoficção desencadeados pelo romance “Divórcio” (Alfaguara), de Ricardo Lísias. Ele chegou a fazer um levantamento dos prêmios literários e descobriu que, de 2006 a 2013, entre os três primeiros colocados sempre havia um livro enquadrado como “autoficção”. Para ele, entretanto, a busca pelo que é real no romance acaba empobrecendo a própria leitura.

 

— No caso do “Divórcio”, muito se falou no que era verdade ou não, mas o que me interessou foi a forma do romance. Nessa pequena ilha literária, que pensa que é o mundo, vi muita gente fazendo esse tipo de crítica ingênua sobre o livro — diz o autor. — Nós vivemos hoje no espetáculo do hiper-real, nessa busca incessante pelo princípio de realidade das coisas. É a década dos reality shows, dos filmes baseados em fatos reais. Comecei a observar essa indústria do real, que, na verdade, é um real encenado.

 

INFLUÊNCIA DA PUBLICIDADE

Dono de uma dicção particular e bem-humorada, o escritor gaúcho trabalhou como redator publicitário dos 19 aos 31 anos. Seus dois primeiros livros de contos, publicados pela Não Editora, foram escritos quando ainda dividia sua rotina com a agência. Há quatro anos, entretanto, pediu demissão e foi morar um ano em Lisboa, onde fez uma pós-graduação em Artes da Escrita e foi aluno de Gonçalo M. Tavares e Mário de Carvalho, entre outros. Ainda continuou fazendo alguns trabalhos como freelancer, mas desde fevereiro está totalmente afastado da publicidade. Pujol Filho vê influências do antigo trabalho na sua prosa.

 

— Uma coisa que eu já inseria na publicidade e também faço na minha escrita é emular diferentes vozes. Escrevi muitos spots para rádio parodiando linguagens. Inclusive, não era dos redatores mais premiados exatamente por buscar mais a experimentação — afirma. — Não quero apagar isso, é algo que faz parte da minha formação.

 

O autor, que agora cursa o doutorado em Escrita Criativa, já tem esboçado um novo romance. O ponto de partida são os textos de apoio de exposições de arte contemporânea. Uma boa fonte para exercitar seus talentos para a paródia (presentes também em “Só faltou o título”). Pujol Filho conta que lhe atraiu nesse assunto a conjugação necessária entre texto e imagem, entre repertório e capacidade de fruição.

 

— De certa forma, na arte contemporânea, acontece o inverso do romance, onde você primeiro lê o livro e depois pensa no autor. Já na produção contemporânea você precisa chegar com repertório. Parece que as obras precisam desses textos de apoio. O projeto é construir a ficção a partir disso.

 

Fonte: O Globo

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ARTHUR DAPIEVE LANÇA ‘MARACANAZO’, COM HISTÓRIAS SOBRE FUTEBOL E MÚSICA

Publicação também trata de conflitos do passado

RIO – Da música ao futebol, de Copacabana à Segunda Guerra Mundial, o novo livro do jornalista e escritor Arthur Dapieve percorre obsessões familiares para os leitores de suas crônicas semanais no GLOBO. Nos contos de “Maracanazo” (Alfaguara), há diversas referências a eventos reais, como a partida entre Chile e Espanha na Copa do Mundo de 2014, no Maracanã, e um concerto em Viena às vésperas da anexação da Áustria pelos nazistas.

 

— Como jornalista, sempre tive dificuldade para me desapegar de dados reais, mesmo escrevendo ficção. Então comecei a usar isso a meu favor, tomando fatos como ponto de partida para construir ficções — diz Dapieve, que lança “Maracanazo” nesta terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.

 

O conto que dá título a “Maracanazo” parte de um trauma ligado ao estádio — mas não a mítica queda brasileira diante do Uruguai em 1950. O protagonista é o jovem espanhol Victor, que vem ao Rio em 2014 sedento por ver a seleção de seu país se vingar de duas derrotas históricas para o Brasil no Maracanã (na Copa do Mundo de 1950 e na das Confederações de 2013). Em vez disso, sofre outro baque ao ver a Espanha eliminada pelos chilenos na primeira fase do torneio.

 

Na arquibancada, Victor é surpreendido pelo beijo de uma torcedora do Chile. O que aparentava ser uma saída romântica para a frustração, porém, revela-se uma extensão do confronto no gramado. Os dois se descobrem opostos: ele é um espanhol conservador e religioso, cuja família foi vítima de milícias de esquerda na Guerra Civil, e ela é uma brasileira filha de chilenos socialistas atingidos pela brutalidade do regime de Pinochet. Para Dapieve, o futebol no conto é metáfora para conflitos do passado e do presente.

 

 

— Os dois personagens são muito maniqueístas. Enquanto escrevia, me ocorreu que o conto também é sobre o Brasil. Ele fala das memórias do golpe no Chile e da ditadura franquista, mas também da polarização política no país hoje — diz Dapieve, autor dos romances “De cada amor tu herdarás só o cinismo” e “Black music” (ambos pela Objetiva).

 

Publicado na França como novela independente, o conto foi finalista do Prêmio Jules Rimet, concedido a obras literárias com temas esportivos, vencido pelo francês Alain Gillot. Dapieve acredita que o futebol tem sido mais abordado pela literatura brasileira, apesar dos desafios do assunto:

 

— Falar sobre futebol na literatura é difícil porque ele é uma forma de expressão em si. É esporte, mas também expressão de estética, nacionalidade, identidade.

 

Outros contos do livro partem de fatos reais, como “Inverno, 1968”, que recria a saída de Syd Barret do Pink Floyd, e “Tempo ruim”, inspirado nas memórias praianas da juventude do jornalista em Copacabana. Mas é em “Fragmento da paisagem” que Dapieve mescla de forma mais incisiva a ficção e a realidade.

 

O conto é construído em torno da execução da Nona Sinfonia de Mahler pela Filarmônica de Viena em 16 de janeiro de 1938, dois meses antes da anexação da Áustria pela Alemanha nazista. A narrativa sobre a ida de um casal de judeus ao concerto é pontuada por dados históricos sobre a ascensão de Hitler.

 

— Mahler dizia que a execução de uma obra se nutre do espírito do tempo. Naquele concerto em Viena, isso é palpável. Tenho mais de dez gravações da Nona de Mahler, aquela é a mais tensa — diz Dapieve, que cogita escrever uma narrativa mais longa a partir desse conto.

 

LEIA UM TRECHO DE ‘MARACANAZO E OUTRAS HISTÓRIAS’

 

“As coisas que se sucedem parecem-me simultâneas, um assalto generalizado a meus sentidos. Não tenho como estabelecer com precisão o que veio antes e o que veio depois. Se é que houve um antes e um depois. Olho para o túnel por onde acabam de desaparecer os jogadores, uns cinquenta metros à nossa esquerda. Percebo uma súbita agitação das pessoas em torno de mim, algumas pulam de pé como bonecos de mola. O barulho faz-me pensar num jato decolando, numa serra abrindo o tampo de um crânio. Olho para um dos placares eletrônicos que mostra, dentre uma massa avermelhada de torcedores chilenos e espanhóis, duas loiras peitudas socadas em camisas amarelas. Elas me são familiares, mas… de onde? Do lado direito delas, está uma moreninha com a camiseta da seleção do Chile. (…) Então, ou pode ter sido logo antes, sinto a mão sobre a coxa esquerda, o cabelo preto chicoteia-me a face, e os lábios quentes e úmidos da moreninha estão sobre os meus. Tudo isso dura dez segundos, se tanto”.

 

SERVIÇO:

Autor: Arthur Dapieve.

Editora: Alfaguara.

Páginas: 160.

Preço: R$ 39,90.

Lançamento: Terça-feira (dia 10), às 19h, na Livraria da Travessa — Shopping Leblon, Rua Afrânio de Melo Franco 290, 2º piso (3138-9600).

 

Fonte: O Globo

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