BRASILEIRO FESTEJA PRÊMIO EM FESTIVAL FRANCÊS DE QUADRINHOS

‘Tungstênio’, de Marcello Quintanilha, foi considerado a melhor história policial

SÃO PAULO – Radicado na Espanha e morando em Barcelona há 14 anos, o niteroiense Marcello Quintanilha, de 44 anos, foi premiado anteontem, no Festival de Angoulême, na categoria Polar, que segundo o autor pode ser definida como uma mistura dos gêneros policial e suspense, com uma pitada de crítica social. O livro escolhido pelo “Festival de Cannes dos quadrinhos” foi “Tungstênio”, lançado no Brasil em 2014 pela editora Veneta e na França no ano passado, pela Çà et Là.

 

— O selo de participação num certame como esses já é uma grande coisa. Ganhar um prêmio tem uma dimensão muito maior — diz ele, em entrevista por Skype ao GLOBO.

 

Ambientada em Salvador, a história de “Tungstênio” acompanha as agruras de quatro personagens: um sargento reformado do exército, um jovem traficante, um policial e sua mulher. É uma mudança e tanto das ambientações do início de sua carreira, quando as tramas se passavam nos subúrbios cariocas e eram protagonizadas por jogadores de futebol, motoristas de van e outros personagens da fauna local.

 

Quintanilha diz que os quadrinhos brasileiros são muito apreciados no mercado europeu. Nem tanto por ser estrangeiros ou por ter alguma particularidade, mas porque são bons.

 

— Não existe nada extraordinário nisso — diz o quadrinista. — Existe uma mudança conjuntural. Com a internet, a circulação dessas obras está mais ágil. Fica mais fácil.

 

O autor disse que acompanha o máximo que pode o que está se passando no mercado brasileiro de quadrinhos. Ele acha que o país passa por um momento interessante, mas é preciso “preencher algumas lacunas”:

 

— Precisamos melhorar nossa relação com as obras de gênero, criar publicações que reúnam histórias de terror, policiais, de cangaço. Costumávamos ter isso antes e perdemos. O mercado se fortalece.

 

Quintanilha está trabalhando em um novo livro, que deve ser lançado ainda no primeiro semestre. Segundo ele, são histórias curtas, dando segmento ao que fez em “Talco de vidro” (2015).

 

— São histórias bem fortes, que mergulham na psicologia dos personagens. São histórias inspiradas naquilo que eu sou e que pessoas muito próximas de mim viveram.

 

Fonte: O Globo

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EDITORAS INVESTEM EM HISTÓRIAS QUE EXPANDEM UNIVERSO DE ‘STAR WARS’

Livros se passam antes ou depois dos filmes produzidos até agora

SÃO PAULO — Logo no começo de “Star Wars: O despertar da Força” (2015), os personagens mencionam uma batalha da qual só se sabe o nome do planeta onde ocorreu. O confronto, contado em detalhes e com as consequências visíveis para quem assistir ao filme, está em “Estrelas perdidas”, de Claudia Gray, que a Companhia das Letras lançou no fim do ano passado pelo selo Seguinte, dedicado ao público jovem. O livro faz parte do que os fãs chamam de “universo expandido” e se encaixa na cronologia da saga criada por George Lucas nos anos 1970.

 

Na trama, que começa oito anos após a queda da Velha República, acompanha o surgimento da Rebelião e termina com a derrota do Império, os amigos de infância Ciena Ree e Thane Kyrell crescem compartilhando o sonho de se tornar pilotos e, quando chegam à idade adulta, seguem caminhos diferentes. O livro relata, ainda, eventos que se passam depois de “O retorno de Jedi” (1983), e traz pistas sobre o episódio VII. Nenhum dos personagens é mencionado na aventura de Ray e Finn, embora estejam dentro do que os fãs chamam de “cânone”, o conjunto de histórias que forma o universo “Star Wars”.

 

— Ciena e Thane não são mencionados, é verdade. Mas dá para ver alguma coisa da história deles no filme. Tem que ler o livro e entender exatamente o que é — brinca a autora americana, cujo nome verdadeiro é Amy Vincent, em entrevista ao GLOBO.

 

Autora de livros para o público jovem, como a trilogia de ficção científica “Firebird” e a série paranormal “Noite eterna”, ela foi escolhida pela Disney e pela Lucasfilm para escrever “Estrelas perdidas” justamente por seu sucesso junto a esse grupo específico de leitores, que varia de 14 a 21 anos e busca temas um pouco mais adultos.

 

— Lá atrás, nos anos 1990, quando os livros começaram a sair, eu lia cada um deles, e ainda guardo alguns no meu coração, especialmente o trabalho de Timothy Zahn e A.C. Crispin — disse ela, que é fã de “Star Wars” desde os 7 anos de idade. — Sempre gostei de mergulhar nesse universo e descobrir o que poderia estar acontecendo com os personagens.

 

A resposta de Claudia explica também o conceito de “universo expandido”: histórias que não aparecem nos filmes, mostram pontos de vista alternativos e podem cobrir períodos anteriores ou posteriores a eles. Os livros são apenas uma parte desse mosaico, que contém também quadrinhos e séries animadas. O que a autora não explica é a diferença entre as “lendas” e o “cânone”, que aparece quando a Disney compra a Lucasfilm de George Lucas por cerca de US$ 4 bilhões.

 

— As lendas são o cânone antigo ou tudo o que foi feito fora dos filmes antes de a Disney comprar a Lucasfilm e os direitos de produzir “Star Wars” — esclarece Nathalia Dimambro, responsável pela edição brasileira de “Estrelas perdidas”. — O novo cânone é tudo o que foi produzido depois da aquisição e se concentra basicamente em torno da trilogia original (os episódio IV ao VI).

 

A Companhia das Letras lançou sete títulos “canônicos” da saga, incluindo três novelizações dos filmes. Além do livro de Claudia, a editora publicou mais três romances sob uma coleção chamada “Jornada para ‘Star Wars: O despertar da Força’”: “A arma de um Jedi: uma aventura de Luke Skywalker”, de Jason Fry, que se passa entre “Uma nova esperança” (1977) e “O Império contra-ataca” (1980); “A missão do contrabandista: uma aventura de Han Solo e Chewbacca”, de Greg Rucka, ambientado no mesmo período, e “Alvo em movimento: uma aventura da princesa Leia”, de Cecil Castelucci e Jason Fry, cujos eventos ocorrem entre “O Império contra-ataca” (1980) e “O retorno de Jedi” (1983).

 

A editora não revela números de vendas, apenas diz que foram distribuídos 15 mil exemplares de “Estrelas perdidas”, o que confirma a aposta nesse filão. Nathalia diz que a empresa está estudando a compra de novos títulos da saga, especialmente “Star Wars: Before the awakening”, que conta histórias de Rey, Finn e Poe Dameron antes de se encontrarem em “O despertar da Força”.

 

— É um título muito pedido pelos fãs — disse ela. — Mas ainda estamos avaliando.

 

Os títulos adultos e os infantis ficaram com a Aleph, especializada principalmente em ficção científica. Desde 2014, a editora paulista já lançou 14 livros da saga, entre “lendas” e que se incluem no novo cânone. Um dos carros-chefe é “Marcas da guerra”, de Chuck Weding, que esteve no Brasil no ano passado. Ambientado logo após “O retorno de Jedi”, dá dicas do que acontece no cenário político após a queda do Império.

 

— Tem uma passagem que mostra o contrabando do sabre de luz do Darth Vader como se fosse uma relíquia. É uma indicação de que os Cavaleiros de Ren já estavam começando a se organizar — revela Daniel Lameira, editor da Aleph, que contabiliza mais ou menos 300 mil exemplares vendidos reunindo inclusive os livros infantis.

 

A Aleph planeja o lançamento de pelo menos mais quatro títulos do novo cânone em 2016, incluindo “Herdeiro de Jedi”, de Kevin Hearne; “Lords Sith”, de Paul Kemp; “Discípulo sombrio”, de Christie Golden, e “Battlefront”, de Alexander Freed. Um dos diferenciais das edições são as capas exclusivas, encomendadas a estúdios e artistas europeus que são fãs da saga.

 

Fonte: O Globo

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ENSAÍSTA FAZ CRÍTICA CULTURAL DO BRASIL E QUESTIONA AUTORES CONSAGRADOS

Martim Vasques da Cunha lançou ‘A poeira da glória’ pela editora Record

RIO – Na apresentação de “A poeira da glória” (Record), o jornalista, crítico e ensaísta Martim Vasques da Cunha pede aos leitores que o julguem pelos argumentos que apresentará nas mais de 600 páginas seguintes. Seu objetivo é retirar a “poeira da glória”, expressão tomada de empréstimo do escritor Otto Lara Resende, dos clássicos da literatura brasileira. Mais do que uma crítica literária, Cunha faz uma crítica cultural do Brasil e questiona os seus mais consagrados intérpretes, como Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido. O ensaísta garante que não quis comprar briga com ninguém, mas mostrar “uma visão meio inesperada da literatura que sempre esteve oculta, mas poucos queriam ver”.

 

— Tudo está bem documentado nos livros e nos depoimentos. Basta apenas lê-los com um novo olhar, sem nenhum filtro ideológico — afirma Cunha em entrevista por e-mail ao GLOBO. — Antes de tudo temos de parar de colocar esses autores, vivos ou mortos, no pedestal e finalmente assoprar a “poeira da glória” em suas obras para que a cultura brasileira possa começar a respirar de novo.

 

Nas suas análises, vocês faz uma avaliação moral de escritores e suas obras e reflete sobre valores como o Bem, o Belo e o Verdadeiro. Quais as suas filiações teóricas em “A poeira da glória”?

 

Fazer uma avaliação moral não significa, em hipótese nenhuma, fazer uma avaliação moralista, isto é, que reduza esses escritores a dogmas de bom comportamento. Literatura não se faz com boas intenções, mas sim com a plena consciência de que, pouco importa o que faça, você não sairá ileso ou vivo deste mundo. O que eu fiz, na verdade, foi analisar a vida e a obra desses autores como se fosse o drama existencial que representa também o drama do país. Assim, a minha filiação teórica se encontra principalmente em autores como Mario Vieira de Mello, Lionel Trilling, Milan Kundera, Roger Kimball, além de Julien Benda, Antonio Paim, Paulo Mercadante e João César de Castro Rocha com seu “Machado de Assis — Uma poética da emulação”.

 

Analisar obras a partir de valores ideais como o Bem e o Belo não seria algo anacrônico, já abandonado pela crítica? Por que trazer de volta a compreensão da literatura a partir desta perspectiva?

 

Creio que “anacrônico” é um termo equivocado quando se percebe que a minha filiação teórica, como você mesmo disse, inclui autores de diversas filiações ideológicas e que abarcam vários anos de estudos. Não há nada anacrônico na minha abordagem quando se percebe que um gigante como Lionel Trilling — infelizmente, pouco conhecido no Brasil — ou alguém como Milan Kundera, em especial no seu livro de ensaios mais recente, “Um encontro” (2013), sempre abordaram a literatura sob o prisma destes “valores ideais”. E esta compreensão sobre a literatura pode oferecer de volta justamente o prazer da leitura que perdemos e que atualmente vemos como um fardo — quando ela é um dos poucos remédios que temos para mitigar a nossa solidão.

 

Machado de Assis é considerado o patrono da literatura brasileira. Você tem críticas a essa reverência, em especial por causa do apreço do autor pela dissimulação. Por que você vê como problemático o lugar ocupado por Machado de Assis?

 

A “poética da dissimulação” de Machado de Assis é algo muito bonito de se ver em termos estéticos e técnicos, mas extremamente nefasto quando a percebemos na nossa cultura e no nosso comportamento cotidiano. Machado mostra que apenas conseguiremos sobreviver neste mundo cruel se dependermos do fingimento e da falsidade perante nós mesmos porque não há qualquer chance de encontrarmos inocência ou bondade — e quando isso acontece, deve-se colocar tudo sob suspeita, já que provavelmente se trata de uma exceção à regra. Isso resulta numa cultura da trapaça e do ressentimento que fundamenta a nossa sociedade, em que o brasileiro é incapaz de dominar as suas paixões e encontrar dentro de si a liberdade interior que o impediria de se transformar em um “monstro moral”.

 

Uma das inovações do livro é propor uma organização dos autores em duplos. O que torna Lima Barreto um duplo de Euclides da Cunha, assim como Guimarães Rosa de Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues de Antonio Candido?

 

O livro foi estruturado como uma “descida aos infernos”, em que cada autor é o duplo do outro, seja pela contraposição de uma qualidade com um defeito (como é o caso de Nelson Rodrigues e Antonio Candido) ou então pelo paralelismo de obsessões em que um se sai razoavelmente vitorioso enquanto o outro sucumbe. O exemplo evidente desta construção dramática se encontra no capítulo sobre Guimarães Rosa e Otto Lara Resende, sendo que este último, como bem aponta o título do ensaio, é uma espécie de Virgílio e de verdadeiro herói neste submundo que se tornou a nossa literatura.

 

Antonio Candido, de quem você discorda várias vezes, é considerado o principal crítico literário brasileiro e responsável por formar gerações de críticos. Qual a sua principal crítica a Candido?

 

Antonio Candido foi o crítico que praticou aquilo que Julien Benda chamava de “a traição dos intelectuais” ao analisar a literatura somente pelas suas paixões políticas e esquecendo-se que ela retrata sobretudo o drama de uma realidade incapaz de ser classificada em gavetinhas ideológicas, seja do lado da esquerda ou da direita.

 

No livro, você critica também os chamados intérpretes do Brasil. Qual seria o principal equívoco deles ao fazer as suas interpretações?

 

O principal equívoco de intérpretes do Brasil como Sergio Buarque de Holanda, Mario de Andrade e Paulo Prado, entre outros, foi ter uma visão reducionista da natureza humana, substituindo-a por aquilo que o sociólogo Luis de Gusmão chamou de “o fetichismo do conceito”, transformando o homem em uma abstração, incapaz de assumir suas responsabilidades, ao jogar toda a culpa nas ideologias políticas e nas circunstâncias sociais.

 

No fim do seu livro, você argumenta que vivemos em um “totalitarismo cultural”. Quais são as características desse totalitarismo? E o termo não seria forte?

 

Não há nada forte ao usarmos a palavra “totalitarismo”. É apenas um termo científico, sem nenhum caráter positivista, que descreve precisamente qual o seu maior desejo: controlar a natureza humana em seus mínimos detalhes, na crença de que uma determinada interpretação da realidade se confunde com o centro do poder instituído. O totalitarismo cultural vivido no Brasil é exatamente essa busca obsessiva em querer “politizar” tudo, até mesmo os relacionamentos humanos, e amputar qualquer caminho do ser humano de conhecer a si mesmo para depois redescobrir a sua liberdade interior.

 

Fonte: O Globo

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ROMANCE DE REGINALDO PUJOL FILHO TRAZ REFERÊNCIAS ÁCIDAS AO MERCADO EDITORIAL

Com estilo próprio e bom humor, escritor reflete sobre a relação entre ficção e realidade

RIO – Reginaldo Pujol Filho e Edmundo Dornelles não são a mesma pessoa. Sim, os dois são escritores. Sim, os dois vivem em Porto Alegre. No entanto, as semelhanças entre o autor do romance “Só faltou o título” (Editora Record) e o protagonista da história terminam por aí. No livro, fruto do mestrado de Pujol Filho em Escrita Criativa, concluído no ano passado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), a realidade entra para potencializar a ficção. Uma série de escritores, editores e grupos editoriais reais são criticados por Edmundo, um amante de Dostoiévski e Balzac que ganha a vida como revisor de obras que detesta. Amargurado, preso num casamento infeliz e cobrado pela família por não arrumar um emprego, o escritor tem a certeza de que só os seus romances não publicados podem salvar a literatura brasileira contemporânea.

 

Desiludido sobre a capacidade da ficção de convencer as pessoas sobre as tramas que conta, Edmundo levará sua frustração a uma atitude radical — o ponto de virada do livro, que será lançado nesta quarta-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo, em um debate com o escritor Sérgio Rodrigues. Para Pujol Filho, colocar nomes reais no romance era uma exigência do próprio projeto, cujo embrião surgiu em 2006, não um desejo de acertar as contas com o mercado editorial ou algo do tipo.

 

Mas, afinal, ele temia que as diversas referências a editoras e autores poderiam causar problemas? O escritor garante que não pensou nisso quando estava escrevendo, mas ficou preocupado ao revisar a obra. A preocupação acabou se revelando infundada. Edmundo já trabalharia no Grupo Editorial Record antes mesmo de o editor Carlos Andreazza decidir lançar o livro. Aliás, o próprio Andreazza só não aparece no romance porque ainda não trabalhava na Record no período em que se passa a história.

 

— Para tomar a atitude que ele toma no livro, um ato extremo, o Edmundo precisava estar muito mal. Ele quer chegar no mercado, mas se sente impedido. É revisor de um grande grupo editorial (a Record, citada no livro), mas ouve de uma assistente editoral que suas obras não têm verossimilhança — conta o escritor gaúcho, em entrevista num café de Ipanema. — No começo, não me preocupei com isso, saí disparando geral porque o projeto pedia isso. O que o Edmundo faz é inserir ficção na realidade. Por isso, coloquei muita realidade no livro, para que o gesto dele de ficcionalizar a vida ficasse ainda mais forte.

 

ENTRE VERDADE E INVENÇÃO

O livro joga o tempo todo com as noções de verdade e invenção. Edmundo, por exemplo, revisa e detona de Cristovão Tezza a Meg Cabot. Mas, como diz o aviso antes do início do romance, “os personagens e os fatos dessa obra são reais apenas no universo da ficção (como pode ser lido na folha de créditos de romances da Companhia das Letras)”. Contudo, o protagonista irascível também reflete em boa medida o tempo em que vivemos, aponta o escritor.

 

— Vivemos um momento muito egoísta, de pouca capacidade empática. Só se vê dois lados das coisas. As pessoas se comportam como se tudo fosse contra elas. O Edmundo sai estereotipando e batendo em todo mundo, não quer tomar o lugar do outro, como se apenas o pensamento dele tivesse algum sentido. O Edmundo pode ser lido um pouco como um cara do nosso tempo.

 

Pujol Filho explica que quando começou a escrever a história, em 2013, acompanhou os debates sobre autoficção desencadeados pelo romance “Divórcio” (Alfaguara), de Ricardo Lísias. Ele chegou a fazer um levantamento dos prêmios literários e descobriu que, de 2006 a 2013, entre os três primeiros colocados sempre havia um livro enquadrado como “autoficção”. Para ele, entretanto, a busca pelo que é real no romance acaba empobrecendo a própria leitura.

 

— No caso do “Divórcio”, muito se falou no que era verdade ou não, mas o que me interessou foi a forma do romance. Nessa pequena ilha literária, que pensa que é o mundo, vi muita gente fazendo esse tipo de crítica ingênua sobre o livro — diz o autor. — Nós vivemos hoje no espetáculo do hiper-real, nessa busca incessante pelo princípio de realidade das coisas. É a década dos reality shows, dos filmes baseados em fatos reais. Comecei a observar essa indústria do real, que, na verdade, é um real encenado.

 

INFLUÊNCIA DA PUBLICIDADE

Dono de uma dicção particular e bem-humorada, o escritor gaúcho trabalhou como redator publicitário dos 19 aos 31 anos. Seus dois primeiros livros de contos, publicados pela Não Editora, foram escritos quando ainda dividia sua rotina com a agência. Há quatro anos, entretanto, pediu demissão e foi morar um ano em Lisboa, onde fez uma pós-graduação em Artes da Escrita e foi aluno de Gonçalo M. Tavares e Mário de Carvalho, entre outros. Ainda continuou fazendo alguns trabalhos como freelancer, mas desde fevereiro está totalmente afastado da publicidade. Pujol Filho vê influências do antigo trabalho na sua prosa.

 

— Uma coisa que eu já inseria na publicidade e também faço na minha escrita é emular diferentes vozes. Escrevi muitos spots para rádio parodiando linguagens. Inclusive, não era dos redatores mais premiados exatamente por buscar mais a experimentação — afirma. — Não quero apagar isso, é algo que faz parte da minha formação.

 

O autor, que agora cursa o doutorado em Escrita Criativa, já tem esboçado um novo romance. O ponto de partida são os textos de apoio de exposições de arte contemporânea. Uma boa fonte para exercitar seus talentos para a paródia (presentes também em “Só faltou o título”). Pujol Filho conta que lhe atraiu nesse assunto a conjugação necessária entre texto e imagem, entre repertório e capacidade de fruição.

 

— De certa forma, na arte contemporânea, acontece o inverso do romance, onde você primeiro lê o livro e depois pensa no autor. Já na produção contemporânea você precisa chegar com repertório. Parece que as obras precisam desses textos de apoio. O projeto é construir a ficção a partir disso.

 

Fonte: O Globo

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ARTHUR DAPIEVE LANÇA ‘MARACANAZO’, COM HISTÓRIAS SOBRE FUTEBOL E MÚSICA

Publicação também trata de conflitos do passado

RIO – Da música ao futebol, de Copacabana à Segunda Guerra Mundial, o novo livro do jornalista e escritor Arthur Dapieve percorre obsessões familiares para os leitores de suas crônicas semanais no GLOBO. Nos contos de “Maracanazo” (Alfaguara), há diversas referências a eventos reais, como a partida entre Chile e Espanha na Copa do Mundo de 2014, no Maracanã, e um concerto em Viena às vésperas da anexação da Áustria pelos nazistas.

 

— Como jornalista, sempre tive dificuldade para me desapegar de dados reais, mesmo escrevendo ficção. Então comecei a usar isso a meu favor, tomando fatos como ponto de partida para construir ficções — diz Dapieve, que lança “Maracanazo” nesta terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.

 

O conto que dá título a “Maracanazo” parte de um trauma ligado ao estádio — mas não a mítica queda brasileira diante do Uruguai em 1950. O protagonista é o jovem espanhol Victor, que vem ao Rio em 2014 sedento por ver a seleção de seu país se vingar de duas derrotas históricas para o Brasil no Maracanã (na Copa do Mundo de 1950 e na das Confederações de 2013). Em vez disso, sofre outro baque ao ver a Espanha eliminada pelos chilenos na primeira fase do torneio.

 

Na arquibancada, Victor é surpreendido pelo beijo de uma torcedora do Chile. O que aparentava ser uma saída romântica para a frustração, porém, revela-se uma extensão do confronto no gramado. Os dois se descobrem opostos: ele é um espanhol conservador e religioso, cuja família foi vítima de milícias de esquerda na Guerra Civil, e ela é uma brasileira filha de chilenos socialistas atingidos pela brutalidade do regime de Pinochet. Para Dapieve, o futebol no conto é metáfora para conflitos do passado e do presente.

 

 

— Os dois personagens são muito maniqueístas. Enquanto escrevia, me ocorreu que o conto também é sobre o Brasil. Ele fala das memórias do golpe no Chile e da ditadura franquista, mas também da polarização política no país hoje — diz Dapieve, autor dos romances “De cada amor tu herdarás só o cinismo” e “Black music” (ambos pela Objetiva).

 

Publicado na França como novela independente, o conto foi finalista do Prêmio Jules Rimet, concedido a obras literárias com temas esportivos, vencido pelo francês Alain Gillot. Dapieve acredita que o futebol tem sido mais abordado pela literatura brasileira, apesar dos desafios do assunto:

 

— Falar sobre futebol na literatura é difícil porque ele é uma forma de expressão em si. É esporte, mas também expressão de estética, nacionalidade, identidade.

 

Outros contos do livro partem de fatos reais, como “Inverno, 1968”, que recria a saída de Syd Barret do Pink Floyd, e “Tempo ruim”, inspirado nas memórias praianas da juventude do jornalista em Copacabana. Mas é em “Fragmento da paisagem” que Dapieve mescla de forma mais incisiva a ficção e a realidade.

 

O conto é construído em torno da execução da Nona Sinfonia de Mahler pela Filarmônica de Viena em 16 de janeiro de 1938, dois meses antes da anexação da Áustria pela Alemanha nazista. A narrativa sobre a ida de um casal de judeus ao concerto é pontuada por dados históricos sobre a ascensão de Hitler.

 

— Mahler dizia que a execução de uma obra se nutre do espírito do tempo. Naquele concerto em Viena, isso é palpável. Tenho mais de dez gravações da Nona de Mahler, aquela é a mais tensa — diz Dapieve, que cogita escrever uma narrativa mais longa a partir desse conto.

 

LEIA UM TRECHO DE ‘MARACANAZO E OUTRAS HISTÓRIAS’

 

“As coisas que se sucedem parecem-me simultâneas, um assalto generalizado a meus sentidos. Não tenho como estabelecer com precisão o que veio antes e o que veio depois. Se é que houve um antes e um depois. Olho para o túnel por onde acabam de desaparecer os jogadores, uns cinquenta metros à nossa esquerda. Percebo uma súbita agitação das pessoas em torno de mim, algumas pulam de pé como bonecos de mola. O barulho faz-me pensar num jato decolando, numa serra abrindo o tampo de um crânio. Olho para um dos placares eletrônicos que mostra, dentre uma massa avermelhada de torcedores chilenos e espanhóis, duas loiras peitudas socadas em camisas amarelas. Elas me são familiares, mas… de onde? Do lado direito delas, está uma moreninha com a camiseta da seleção do Chile. (…) Então, ou pode ter sido logo antes, sinto a mão sobre a coxa esquerda, o cabelo preto chicoteia-me a face, e os lábios quentes e úmidos da moreninha estão sobre os meus. Tudo isso dura dez segundos, se tanto”.

 

SERVIÇO:

Autor: Arthur Dapieve.

Editora: Alfaguara.

Páginas: 160.

Preço: R$ 39,90.

Lançamento: Terça-feira (dia 10), às 19h, na Livraria da Travessa — Shopping Leblon, Rua Afrânio de Melo Franco 290, 2º piso (3138-9600).

 

Fonte: O Globo

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LUIS FERNANDO VERISSIMO LANÇA NOVA COLETÂNEA NESTA SEMANA

Cronista fala sobre as falsidades do cotidiano e brinca com textos apócrifos que circulam na internet com sua assinatura

RIO – A mulher que tem 34 anos mas diz ter 52 (“completos”) para ser elogiada por parecer quase 20 anos mais jovem. A que atravessa a cidade disfarçada para trair o marido, usando cachecol em pleno verão, mas acaba refém de um bandido numa fuga transmitida em rede nacional. A que tenta convencer a neta de que teve um longo currículo de conquistas amorosas, do ator mexicano Gilbert Roland ao rei Juan Carlos da Espanha. Essas são algumas das protagonistas da nova coletânea de Luis Fernando Verissimo, “As mentiras que as mulheres contam”, que chega às livrarias nesta quinta-feira, pela editora Objetiva, com o humor que é marca registrada do escritor e colunista do GLOBO.

 

O livro é a continuação de um dos maiores best-sellers do autor, “As mentiras que os homens contam”, lançado pela mesma editora em 2000. Depois de retratar as falsidades do universo masculino naquela obra, Verissimo reuniu textos antigos e recentes no novo volume para atender uma demanda de seus leitores.

 

— Quando saiu “As mentiras que os homens contam” me perguntavam muito quando viria um livro sobre as mentiras das mulheres, e eu respondia que nunca, porque seria um livro grande demais. Mas, no fim, ele saiu do mesmo tamanho do outro. Acho que empatamos — diz o escritor, de 79 anos, que enxerga uma diferença entre o modo de mentir masculino e o feminino: — Gosto das mentiras improváveis, sustentadas heroicamente contra todas as evidências em contrário. O homem faz mais isso do que a mulher.

 

‘FUNÇÃO SOCIAL’ DA MENTIRA

 

As histórias do novo livro trazem algumas “mentiras improváveis”. Algumas terminam em tragédia, como em “Isabel”, raro texto sombrio na obra solar de Verissimo, com uma protagonista que finge ser outra pessoa para conquistar um homem cego. Outras flertam com o absurdo, como na história da mulher-fantasma que assombra os bailes semanais do Clube dos Subgerentes, na Barra da Tijuca, em busca de um par de dança.

 

A maior parte do livro, porém, é composta pelas observações concisas e irônicas sobre o cotidiano que os leitores de Verissimo aprenderam a admirar desde 1969, quando ele começou a publicar crônicas no jornal gaúcho “Zero Hora”. São aquelas mentiras prosaicas, que passam quase despercebidas, como o uso da expressão “um minutinho” para enrolar alguém indefinidamente ou o sorriso amarelo para o presente de mau gosto.

 

— A mentira tem uma função social importante. A gente mente para não magoar, para evitar conflitos, para salvar casamentos e principalmente para não se incomodar. A sinceridade é uma virtude supervalorizada — brinca o escritor.

 

Verissimo vê com menos benevolência a falsidade na política, tema recorrente de suas colunas publicadas no GLOBO às quintas-feiras e aos domingos. Para o autor, o debate público brasileiro hoje está dominado pela hipocrisia e pela falta de diálogo entre lados opostos. Numa crônica de setembro, ele escreveu que, na história do país, “nunca as ‘verdades’ de cada um foram tão antagônicas, e nunca os antagonistas se xingaram tanto”.

 

— Há uma falta de civilidade assustadora e crescente no debate político brasileiro. E aí entra raiva, entra insulto, entra intolerância, e a mentira acaba nem sendo o pior dos efeitos do clima ruim — diz Verissimo.

 

GRAÇA COM A PASSAGEM DO TEMPO

 

Um dos mestres da crônica no Brasil, admirador e herdeiro de grandes cronistas como Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Antonio Maria, Verissimo já disse que o gênero pode ser definido como “a liberdade absoluta”, pois permite tudo, do comentário político à ficção. Com personagens, diálogos e tramas ágeis, os textos de “As mentiras que as mulheres contam” brincam com o formato do conto. Filho do autor de alguns dos mais populares romances brasileiros do século XX, Erico Verissimo, o cronista também já se aventurou pela narrativa longa, em livros como “Os espiões” (2009) e “O clube dos anjos” (1998), ambos pela Objetiva.

 

— A ficção é sempre uma invenção, o que não significa que seja sempre uma invenção mentirosa. Há autores que inventam grandes verdades — define o escritor.

 

Nos últimos anos, Verissimo se acostumou a ver outro tipo de invenção: os textos apócrifos que circulam pela internet com sua assinatura. Mas não demonstra incômodo com as imitações — e até brinca com a possibilidade de cometer uma também.

 

— Não há como evitar os textos apócrifos. Se eu fosse escrever um, começaria por cima: Jorge Luis Borges — diz Verissimo, que já homenageou o escritor argentino colocando-o como personagem de seu romance “Borges e os orangotangos eternos”, lançado pela Companhia das Letras em 2000.

 

A caminho de completar 80 anos, em setembro de 2016, Verissimo faz graça com a passagem dos anos em vários textos de “As mentiras que as mulheres contam”. Um deles inclui um poeminha satírico sobre as mentiras do tempo: “Depois de certa idade/ é temerário/ fazer aniversário/ Que agonia!/ Todo ‘parabéns’ soa,/ mesmo dito numa boa,/ como ironia”.

 

— A gente se distrai e, quando vê, está com 80 anos. É injusto isso — observa.

 

Leia trecho: ‘As mentiras que as mulheres contam’

 

Isabel

 

Apontamentos para uma história de horror. Ou um novelão. Uma mulher — trinta e quatro, trinta e cinco anos, solteira, tímida, poucos amigos, morando sozinha — está um dia olhando os novos lançamentos numa livraria, pois seu maior prazer é a leitura, quando sente uma mão no seu braço e ouve uma voz de homem que diz:

 

— Vamos?

 

Ela vira-se, já pronta para repelir o homem rispidamente, como faz com todos que ousam importuná-la, quando nota que o homem é cego. Fica sem saber o que dizer. O homem estranha o silêncio, aperta o seu braço e diz:

 

— Isabel?

 

E ela, sem saber por que, mas com a intuição de que a sua vida a partir daquele instante será outra, o coração batendo, diz:

 

— Sim…

 

— Vamos?

 

E ela, o coração batendo:

 

— Vamos.

 

O homem é mais moço do que ela. Bonito. Bem vestido. Bem cuidado. Deixa-se guiar por ela, fazendo perguntas sem muito interesse. Por que estão pegando um táxi e não o carro? Ela diz que perdeu a chave do carro na rua. Ele sorri e diz “Você…”. Quando chegam no apartamento dela ele pergunta onde estão. Ela diz “Em casa…”, e ele diz “Estranho…”. Mas não diz mais nada.

 

Fonte: O Globo

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DIREITOS AUTORAIS DE ‘O DIÁRIO DE ANNE FRANK’ GERAM POLÊMICA

No ano em que a morte da adolescente judia completa 70 anos, best-seller vira impasse mundial

RIO — Todos os anos, o mercado editorial saliva à espera da lista de obras literárias que caem em domínio público, o que acontece sempre no dia 1º de janeiro seguinte ao aniversário de 70 anos da morte do autor, segundo a legislação da maioria dos países. É quando as editoras podem valer-se dos textos originais para fazer novas traduções, adaptações, remixes — sem pedir a autorização e sem pagar por isso. Este ano, por exemplo, entrou em domínio público “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry — e não por acaso o mundo todo viu pipocar novas versões e produtos do principezinho, suas roseiras e asteroides.

 

No dia 1° de janeiro de 2016, cai em domínio público outra obra suculenta comercialmente: a versão original do “Diário de Anne Frank”. Com mais de 35 milhões de exemplares vendidos no planeta, a primeira edição do livro foi publicada em 1947 pelo pai da adolescente judia, Otto Frank, morto em 1980, logo depois de encontrar e reunir os diários escritos por Anne num esconderijo em Amsterdã, enquanto fugia da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Como Anne morreu em 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, e se o “Diário de Anne Frank” foi escrito por ela, a informação parece inconteste, certo? Não necessariamente.

 

Quem contesta é a Anne Frank Fonds — fundação suíça criada por Otto Frank em 1963 para administrar os direitos autorais da obra. A instituição causou polêmica ao divulgar nota, este ano, no jornal holandês “NRC Handelsblad”, afirmando que o “Diário de Anne Frank” não entrará em domínio público em 2016 porque o pai da autora seria coautor da obra; como Otto Frank morreu em 1980, ela só estaria “livre” comercialmente em 2051.

 

Para entender a intrincada relação de autoria, que se tornou um case mundial para discussões sobre domínio público, primeiro é preciso saber que existem quatro versões do diário: a chamada versão A, que são os escritos originais de Anne, enquanto esteve escondida no esconderijo da família, em Amsterdã, na Holanda; a versão B, reescrita pela própria Anne depois de um chamado ouvido no rádio enquanto estava no esconderijo, em março de 1944, quando o então ministro holandês Gerrit Bolkestein conclamou a população a guardar documentos sobre a guerra. Foi quando a jovem entendeu que o que escrevia poderia de fato virar uma publicação futura, e passou a reescrever, modificando nomes e referências, incluindo trechos novos e abreviando outros.

 

Existe ainda a versão C, que é a primeira reescrita por Otto para a publicação do “Diário…”, em 1947, quando ele excluiu trechos considerados privados. E há ainda a versão D, de 1991, feita pela pesquisadora Mirjam Pressler, sob autorização da Anne Frank Fonds, somando trechos das versões A e B à versão C.

 

Representante do escritório Silveiro Advogados, contratado pela Anne Frank Fonds este ano para garantir que nenhuma versão do livro apareça sem pagar os devidos direitos no Brasil, Rodrigo Azevedo detalhou em mensagem ao GLOBO o posicionamento da instituição: “Indiscutivelmente, Anne Frank detém a autoria exclusiva das versões A e B do ‘Diário…’ Porém, mais complexa é a circunstância que envolve a criação das versões C e D, sendo esta última justamente a obra que atualmente se encontra em circulação. Tanto na versão C quanto na D, o processo criativo foi diretamente influenciado por novas pessoas, gerando um resultado final inquestionavelmente diverso. Assim, cabe verificar se seriam essas modificações e rearranjos suficientes para qualificar as versões C e D como novas obras protegidas, o que, naturalmente, conduziria a diferentes prazos de duração dos direitos patrimoniais de autor, notadamente sabendo-se que Otto Frank faleceu apenas em 1980 e que Mirjam Pressler ainda vive. Desse modo, a versão atualmente em circulação (D), bem como o texto organizado por Otto Frank (C), na condição de obras derivadas, possuem prazos de proteção autoral independentes em relação aos textos originais, os quais seguirão vigentes ainda por décadas”.

 

O imbróglio é tema de discussão entre especialistas do direito autoral por todo o mundo, em escritórios e universidades. O GLOBO consultou dois especialistas: o advogado brasileiro Sérgio Branco e a advogada holandesa Emilie Kannekens, que faz mestrado sobre a questão.

 

Fonte: O Globo

Categoria: Literatura e Filmes
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‘O QUE SE VÊ NO BRASIL HOJE É UMA OFENSIVA FEROZ CONTRA OS ÍNDIOS’

Antropólogo lança livro 'Metafísicas canibais' e expõe fotografias na mostra 'Variações do corpo selvagem'

RIO – Certa vez, ao dar uma palestra em Manaus, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro deparou-se com uma plateia dividida entre cientistas e índios. Enquanto apresentava suas teses sobre o perspectivismo ameríndio, conceito desenvolvido a partir da cosmologia dos povos com que estudou na Amazônia, notou que a metade branca da plateia ia perdendo o interesse. No fim da palestra, diante do silêncio dos cientistas, uma índia pediu a palavra para alertá-los: “Vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo. Ele está dizendo o que a gente sempre disse”.

 

A cena, relembrada por Viveiros de Castro em entrevista ao GLOBO, remete a uma das teses centrais de seu novo livro, “Metafísicas canibais” (Cosac Naify e n-1 Edições). O autor descreve-o como a “resenha” ou “sinopse” de uma obra que nunca conseguirá concluir e que se chamaria “O Anti-Narciso”. Nela, aproximaria filosofia e antropologia, Deleuze e Lévi-Strauss, para investigar a pergunta: “o que deve conceitualmente a antropologia aos povos que estuda?”. As culturas e sociedades pesquisadas pelos antropólogos, escreve, “influenciam, ou, para dizer de modo mais claro, coproduzem” as teses formuladas a partir dessas pesquisas.

 

Um dos mais influentes antropólogos hoje, autor de “A inconstância da alma selvagem” (Cosac Naify, 2002) e professor do Museu Nacional da UFRJ, Viveiros de Castro desenvolve em “Metafísicas canibais” suas ideias sobre o perspectivismo, formadas a partir de ideias presentes em sociedades amazônicas sobre como humanos, animais e espíritos veem-se a si mesmos e aos outros. Ele descreve a antropologia como uma forma de “tradução cultural” e pleiteia que seu ideal é ser “a teoria-prática da descolonização permanente do pensamento”. O que implica reconhecer a diferença e a autonomia do pensamento indígena: “não podemos pensar como os índios; podemos, no máximo, pensar com eles”.

 

Os primeiros contatos de Viveiros de Castro com esse universo estão registrados nas fotografias que fez durante o trabalho de campo com os índios Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina, entre meados dos anos 1970 e início dos 1990. Parte dessas fotos será exibida pela primeira vez na exposição “Variações do corpo selvagem”, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a partir do dia 29 de agosto. Com curadoria da escritora e crítica de arte Veronica Stigger e do poeta e crítico literário Eduardo Sterzi, a mostra reúne ainda fotos feitas pelo antropólogo nos anos 1970, quando trabalhava com o cineasta Ivan Cardoso, mestre do gênero “terrir” e diretor de filmes como “O segredo da múmia” (1982) e “As sete vampiras” (1986).

 

Em entrevista por e-mail, Viveiros de Castro, de 64 anos, fala sobre o livro e a exposição e discute outros temas de sua obra e sua atuação pública, como a crise climática, abordada em “Há mundo por vir?” (Cultura e Barbárie, 2014), que escreveu com a filósofa Déborah Danowski, com quem é casado. Fala também sobre a resistência dos índios contra o “dispositivo etnocida” armado contra eles no Brasil, que mira “suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia e sua autonomia política interna”.

 

Numa nota em “Metafísicas canibais”, você comenta que, sempre que expôs a ouvintes ameríndios suas teses sobre o perspectivismo, eles perceberam as implicações que elas poderiam ter para “as relações de força em vigor entre as ‘culturas’ indígenas e as ‘ciências’ ocidentais que as circunscrevem e administram”. Quais seriam essas implicações? O que interlocutores ameríndios costumam lhe dizer sobre o perspectivismo?

 

“Sempre que” é um pouco exagerado; dá impressão que eu faço tours de seminários sobre o pensamento indígena para ouvintes indígenas… Eu tinha em mente, naquela nota, uma ocasião em particular. Em 2006, a convite do Instituto Socioambiental, fiz uma palestra para uma plateia de cientistas do INPA, em Manaus, sobre as cosmologias amazônicas e as concepções indígenas da natureza da natureza, por assim dizer. Ao entrar na sala, descobri, com não pouca ansiedade, que apenas metade da plateia era composta de cientistas (biólogos, botânicos, pedólogos etc.) — e que a outra metade da sala estava cheia de índios do Rio Negro. Falar do que pensam os índios diante de uma plateia de índios não é exatamente uma situação confortável. Decidi então apresentar uma versão esquemática do que eu sabia a respeito do modo como o que chamei de “perspectivismo ameríndio” se manifestava nas culturas rionegrinas (povos Tukano e Aruaque, principalmente). No meio da palestra fui percebendo os cientistas cada vez menos interessados naquilo, e os índios cada vez mais agitados. Na hora das perguntas, nenhum cientista falou nada. Os índios, com sua cortesia habitual, esperaram os brancos presentes pararem de não dizer nada até que eles começassem a falar. Uma senhora então se levantou e, dirigindo-se à metade branca e científica da plateia, disse: “vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo.

 

Ele está dizendo o que a gente sempre disse: que vocês não veem as coisas direito; que, por exemplo, os peixes, quando fazem a piracema (a desova) estão na verdade, lá no fundo do rio, transformados em gente como nós, fazendo um grande dabucuri (cerimônia indígena típica da região)”. E outro índio perguntou: “aquilo que o professor disse, sobre os morros da região serem habitados por espíritos protetores da caça, é verdade. Mas isso quer dizer então que destruir esses morros com garimpo e mineração é perigoso, não é mesmo? E não quereria dizer também que índio não pode ser capitalista?” Percebi, naquele confronto entre cientistas que estudam a Amazônia e os índios que vivem lá, que os primeiros estão interessados apenas no saber indígena que interessa ao que eles, cientistas, já sabem, isto é, àquilo que se encaixa na moldura do conhecimento científico normalizado. Os índios são “úteis” aos cientistas na medida em que podem servir de informantes sobre novas espécies, novas associações ecológicas etc. Mas a estrutura metafísica que sustenta esse conhecimento indígena não lhes dizia absolutamente nada, ou era apenas um ornamento pitoresco para os fenômenos reais. E os índios, ao contrário, se interessaram precisamente pelo interesse de um branco (eu) sobre isso. O que me deu muita coisa a pensar.

 

Mais geralmente, porém, tenho tido notícia da difusão lenta e episódica, mas real, de meus escritos (e os de meus colegas) sobre isso que chamei de “perspectivismo” junto a pensadores indígenas, ou muito próximos politicamente a eles, em outros países da América Latina (o livro foi traduzido para o espanhol, assim como diversos artigos de mesmo teor). Isso me alegra e, por que não dizer, envaidece muito. Mil vezes poder servir, com esses meus escritos aparentemente tão abstratos, à luta indígena pela autonomia política e filosófica que ser lido e comentado nos círculos acadêmicos — o que também não faz mal nenhum, bem entendido.

 

No livro, você pergunta: “O que acontece quando se leva o pensamento nativo a sério?”. E continua: “Levar a sério é, para começar, não neutralizar”. Partindo destes termos, quais são as maiores ameaças de “neutralização” do pensamento indígena no Brasil hoje?

 

Neutralizar este pensamento significa reduzi-lo ao efeito de um complexo de causas ou condições cuja posse conceitual não lhes pertence. Significa, como escrevi no livro, pôr entre parênteses a questão de saber se e como tal pensamento ilustra universais cognitivos da espécie humana, explica-se por certos modos de transmissão socialmente determinada do conhecimento, exprime uma visão de mundo culturalmente particular, valida funcionalmente a distribuição do poder político, e outras tantas formas de neutralização do pensamento alheio. Trata-se de suspender tais explicações-padrão, típicas das ciências humanas, ou, pelo menos, evitar encerrar a antropologia nela. Trata-se de decidir, em suma, pensar o outro pensamento como uma atualização de virtualidades insuspeitas do pensamento em geral, o “nosso” inclusive. Tratá-lo como tratamos qualquer sistema intelectual ocidental: como algo que diz algo que deve ser tratado em seus próprios termos, se quisermos respeitá-lo e incorporá-lo como uma contribuição singular e valiosa à nossa própria e orgulhosa tradição intelectual. Só depois disso poderemos, se tal for nossa veleidade, anatomizá-lo e dissecá-lo segundo os instrumentos usuais da redução científica das práticas de sentido humano.

 

Mas sua pergunta acrescentava “no Brasil hoje”. No Brasil hoje o que se vê é muito mais que uma “neutralização do pensamento nativo”. O que se vê é uma ofensiva feroz para acabar com os nativos, para varrer suas formas de vida (e portanto de pensamento) da face do território nacional. O que se pretende hoje — o que sempre se pretendeu, mas hoje os métodos são ao mesmo tempo cada vez mais sutis e eficazes sem deixarem de ser brutais como sempre foram — é silenciar os índios, desindianizar todo pensamento nativo, de modo a transformar aquela caboclada atrasada toda que continua a “rexistir” (este é o modo de existência dos índios no Brasil hoje: a “rexistência”) em pobre, isto é, em “bom brasileiro”, mal assistencializado, mal alfabetizado, convertido ao cristianismo evangélico por um exército de missionários fanáticos, transformado em consumidor dócil do estoque infinito de porcarias produzidas pela economia mundial. Em suma: fazer do índio (os que não tiverem sido exterminados antes) um “cidadão”. Cidadão pobre, é claro. Índio rico seria uma ofensa praticamente teológica, uma heresia, à ideologia nacional. Para fazê-lo passar de índio a pobre, é preciso primeiro tirar dele o que ele tem — suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia, sua autonomia política interna —‚ para obrigá-lo a desejar consumir o que ele não tem — o que é produzido na terra dos outros (no país do agronegócio, por exemplo, ou nas fábricas chinesas).

 

Como avalia o estado atual das mobilizações indígenas contra intervenções do Estado em seus modos de vida, como na região do Xingu, com a construção da usina de Belo Monte?

Os índios fazem o que podem. Estão lutando contra uma máquina tecnológica, econômica, politica e militar infinitamente mais poderosa do que eles. No caso de Belo Monte, já perderam. Mas não sem dar um bocado de trabalho ao “programa” que esse governo, cujo ódio estúpido aos índios só é comparável ao que se via nos sombrios tempos da ditadura, vai implantando a ferro e a fogo na Amazônia inteira, inclusive fora do Brasil. Mas a luta continua, e ainda tem muito índio disposto a resistir (a “rexistir”) ao dispositivo etnocida armado contra eles, no Mato Grosso do Sul, no Tapajós, no Xingu, no Rio Negro e por aí afora.

 

Você tem trabalhado com o conceito de Antropoceno (que já definiu como o momento em que “o capitalismo passa a ser um episódio da paleontologia”) para alertar sobre os efeitos destrutivos da ação humana sobre o planeta. O que precisa mudar no debate público sobre a crise climática?

 

Muito. Isso tudo vai descrito no livro que coautorei com a filósofa Déborah Danowski, “Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”, onde comparamos, de um lado, os efeitos já instalados e aqueles por vir da catástrofe ecológica desencadeada pela economia movida a combustíveis fósseis, e tudo o que vem com ela (inclusive o capitalismo financeiro e cognitivo), com os modos com que esse tema arquimilenar, o “fim do mundo”, vem sendo tematizado pela imaginação estética, política e mitológica de nossa própria civilização moderna, de outro lado. E por fim, tecemos considerações sobre como a “mudança de Era” (como dizem os camponeses nordestinos para se referir aos efeitos já palpáveis das mudanças climáticas) por que passamos hoje é pensada pelos índios, em suas mitologias e em sua prática ecopolítica concreta. Penso que as ciências humanas têm sido lentas em assumir que esta questão, que a palavra “Antropoceno” resume, é a questão mais grave e urgente da história humana desde o começo da era Neolítica, e que estamos entrando em uma situação inédita para a espécie como um todo.

 

O debate na esfera pública tem sido laboriosamente mitigado, quando não silenciado, por uma poderosíssima máquina de propaganda financiada pelos principais interessados no status quo, a saber, as grandes corporações petroleiras e outras, como a Monsanto, a Nestlé, a Bunge, a Dow, a Vale, a Rio Tinto etc. Sem falarmos nos governos nacionais, meros instrumentos de polícia desses atores econômicos. Mas as coisas começam a mudar, devagar, mas mudando. Infelizmente, “devagar” é péssimo. Porque a aceleração dos processos de desequilíbrio termodinâmico do planeta marcha em ritmo crescente. O tempo e o espaço entraram em crise, escapam-nos por todos os lados. Hoje a luta política fundamental, a ser levada a nível mundial, é a luta pela liberação do espaço e do tempo.

 

Você afirma que o perspectivismo não é uma forma de relativismo cultural e, ao conceito corrente de “multiculturalismo”, contrapõe a noção de “multinaturalismo”. Quais são os problemas do relativismo cultural e como o multinaturalismo os evita?

 

O relativismo cultural é, ao menos como costumeiramente divulgado pela vulgata ideológica dominante, meramente a ideia de que existem várias opiniões sobre o mundo, o universo ou a “realidade”, mas que esta “coisa lá fora” (o mundo etc.) é uma só. Entre essas várias opiniões, há uma certa — a nossa, ou melhor, aquela que acreditamos ser a verdade cientifica (e 99,99% dos que acreditam nela não sabem em que estão acreditando). O resto é “cultura”, superstição, visões exóticas de gente que vive “fora da realidade”. Em relação a essa gente, podemos e até devemos mostrar um pouco de tolerância (afinal, são apenas opiniões, “visões de mundo”), devemos ser “multiculturalistas”. Mas a Natureza, com N maiúsculo, é uma só, e independe de nossas opiniões (exceto da minha, isto é, a da “Ciência” que nos serve de religião laica). O que chamei de “multinaturalismo” ou de “perspectivismo multinaturalista”, para caracterizar as metafísicas indígenas, supõe a indissociabilidade radical, ou pressuposição recíproca, entre “mundo” e “visão”. Não existem “visões de mundo” (muitas visões de um só mundo), mas mundos de visão, mundos compostos de uma multiplicidade de visões eles próprios, onde cada ser, cada elemento do mundo é uma visão no mundo, do mundo — é mundo. Para este tipo de ontologia, o problema que se coloca não é o da “tolerância” (só os donos do poder são “tolerantes”), mas o da diplomacia ou negociação intermundos.

 

Você defende uma concepção de antropologia como “descolonização permanente do pensamento”. Como ela pode fazer isso? Quais são os maiores impasses da disciplina hoje?

 

Vou responder rapidamente, ou os leitores não precisarão ler o livro… Trata-se de tomar o discurso dos povos que estudamos (os “nativos”, sejam quem forem) como interlocutores horizontalmente situados em relação ao discurso dos “observadores” (os “antropólogos”). O que a antropologia estuda são sempre outras antropologias, as antropologias dos outros, que articulam conceitos radicalmente diversos dos nossos sobre o que é o anthropos, o “humano”, e sobre o que é o logos (o conhecimento). Descolonizar o pensamento é explodir a distinção entre sujeito e objeto de conhecimento, e aceitar que só existe entreconhecimento, conhecimento comparativo, e que a antropologia como “estudo do outro” é sempre uma tradução (e uma tradução sempre equívoca) para nosso vocabulário conceitual do estudo do outro. O maior desafio vivido hoje pela antropologia é o de aceitar isso e tirar daí todas as consequências, inclusive as consequências políticas.

 

As fotografias reunidas em “Variações do corpo selvagem” remetem ao seu trabalho de campo com os Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina. Quais foram suas maiores descobertas nos encontros com esses povos?

 

Tudo o que eu escrevi sobre eles.

 

Fonte: O Globo

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