EM NOVO LIVRO, ANTONIO RISÉRIO REFLETE SOBRE A RELAÇÃO ENTRE A MULHER E A CIDADE NO BRASIL E NO MUNDO

Em ensaios, antropólogo também analisa a vida e as obras de Carmen Portinho, Lina Bo Bardi e Lota de Macedo Soares

RIO – Antonio Risério é um intelectual à moda antiga. No seu livro recém-lançado, “Mulher, casa e cidade” (Editora 34), o antropólogo baiano constrói amplos arcos históricos, que vão da Antiguidade ao mundo contemporâneo, em artigos e ensaios que abordam a tensa relação entre a mulher e a cidade. Risério é capaz de apontar a ausência da urbanidade na obra da romancista japonesa do século XI Murasaki Shikibu e refletir sobre a contribuição decisiva de três mulheres para a arquitetura brasileira no século XX: Lota de Macedo Soares, Lina Bo Bardi e Carmen Portinho. Carmen foi uma das primeiras mulheres formadas em engenharia no país, e a responsável por construir as obras do seu marido, o arquiteto Afonso Reidy, como o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM).

 

Os textos reunidos no novo livro — que dá continuidade a algumas reflexões do elogiado “A cidade no Brasil” (Editora 34), publicado em 2012 — foram escritos ao longo de muitos anos. O pontapé inicial da obra foi uma palestra do antropólogo sobre a mulher e o espaço público na Escola da Cidade (uma instituição privada e não ligada à USP, como informado anteriormente) em 2012. A partir daí começou a recolher anotações e escritos antigos e viu que o assunto renderia um livro. No sábado passado, Risério recebeu o GLOBO para uma entrevista em Paraty, onde participou da mesa “A cidade e o território”, na Flip, com o poeta Eucanaã Ferraz. Ele afirmou que o movimento feminista foi o mais importante em séculos, ao introduzir a ideia de igualdade entre homens e mulheres, e disse que vê saída para as cidades brasileiras.

 

— Nós vivemos a maior crise urbana de toda a história do país. Se as pessoas forem sérias, tem saída. Você chega nos municípios hoje e os prefeitos não têm preocupação nenhuma com urbanismo, acham que é luxo. Agora, a sociedade tem que entrar na discussão. Se for ficar esperando, com essa crise que está aí, as cidades vão se deteriorar cada vez mais a cada dia.

 

O senhor defende que a casa é o ponto de partida do urbanismo. Por quê?

A casa tem que ser pensada em função da cidade. É ela que constrói a cidade. Não tem cidade sem casa. É preciso ter uma visão do sítio urbano, do entorno, o que significa aquilo historicamente. O mal foi que a arquitetura, principalmente a partir dos megaprojetos europeus, se afastou de forma insensata da antropologia, da sociologia e do urbanismo, e fez um casamento monogâmico com as belas-artes. Cada arquiteto quer fazer sua escultura. Mas você mora na cidade, não numa escultura. O Paulo Mendes da Rocha disse que o arquiteto não deve fazer uma casa que é “a cara do cliente”. Se o cara morre daqui a 50, 60 anos e a casa vai durar 300, a casa tem que ter a cara da cidade. Eu concordo totalmente.

 

A mulher é o terceiro vértice do livro, junto com a casa e a cidade. Onde a mulher entra nessa equação?

 

Este é o problema central. A mulher entra na casa convidada a habitar, ela não é construtora. Só muito recentemente as mulheres começaram a construir. As primeiras engenheiras do Brasil, como Carmen Portinho, são do século XX, os projetos de Lina Bo Bardi também. Entre os índios, mulher nunca construiu nada, nem na Antiguidade clássica. No Renascimento não há uma arquiteta. No Barroco brasileiro, não produzimos nenhuma “Aleijadinha”. As mulheres foram escanteadas, levadas a ocupar um lugar construído pelo homem. Dentro desse espaço ela criou a domesticidade, a intimidade doméstica, a ideia de conforto. Essa noção de conforto vem do próprio fato de cuidar do que ela pariu. Em alguns períodos históricos elas não tinham voz ativa sobre nada, como na casa medieval. Cada vez mais elas foram conquistando e definindo esse espaço.

 

Isso teve consequências até na produção literária, o senhor mostra.

 

A mulher não tem uma vivência da cidade como o homem tem. A minha hipótese é que a mulher foi confinada no espaço doméstico e isso fez com que ela não vivesse intensamente a cidade. Isso vai se refletir na criação literária. Você atravessa livros e livros de mulheres e nada. A cidade não tem concretude, densidade. E não é algo do Ocidente. Eu falo da japonesa Murasaki Shikibu, do século XI, escreveu um livro de mil e tantas páginas e não tem nada sobre a cidade japonesa. Ela era de Kyoto, capital do império Heian. Safo não fala de Mitilene, que era a cidade mais importante daquela época (século VII a.C.). A cidade marca muito fortemente a produção textual masculina, mas não a feminina. A mulher viaja dentro da casa e dentro dela, principalmente.

 

De que forma a sociabilidade da mulher na cidade é diferente do homem?

 

O homem é o rei do espaço público, de onde durante muito tempo as mulheres foram afastadas. No Brasil colonial, as mulheres eram trancafiadas dentro de casa. Gilberto Freyre fala que a casa e a rua eram inimigas. Elas não podiam ver as visitas que chegavam. Quando elas começam a falar e pensar em espaço público, os homens chamam logo atenção para o perigo, não para o prazer. A conquista desse espaço pela mulher é recente.

 

Qual a chave para entendermos essa permanência?

 

A chave é toda dominação masculina sobre as mulheres. Mulher nas sociedades indígenas era bem de troca. Nos povos árabes também não apitava nada. A grande mudança para o mundo é o movimento feminista. Isso vai mudar uma coisa de milênios. Esse negócio de igualdade entre homem e mulher é uma invenção moderna. No Brasil, as mulheres começaram a sair de casa no reinado de D. Pedro II. Falo das mulheres ricas porque as pobres não tinham isso. Também há essa grande distinção. As mulheres negras e pobres circulavam nas ruas do Brasil a mil. Se você pegar mais recentemente, é da classe média para cima que a rua era o problema, não para as classes populares. Como não existe uma literatura das classes populares, a não ser mais recentemente, não vemos a vivência feminina.

 

O senhor dedica três textos a Carmen Portinho, Lina Bo Bardi e Lota de Macedo Soares. Como seus trabalhos nos interpelam hoje?

 

Todas elas têm uma coisa em comum muito interessante que é criar espaços de convívio. O Parque do Flamengo (de Lota) é um lugar de convívio extraordinário. Claro que a sociedade ficou violenta e as coisas ficaram complicadas, mas são lugares para convívio. O Sesc Pompeia, em São Paulo, uma das criações de Lina, é um grande lugar de convívio. E Carmen se engajou na construção de conjuntos habitacionais populares complexos, que têm escola, academia, espaço de cultura. Era o conjunto habitacional da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

 

Isso é um show, o Brasil não teve nada igual em arquitetura popular. O projeto do Conjunto do Pedregulho é do marido dela, Afonso (Reidy), mas é ela que constrói. É engraçada essa inversão também. Ela é a engenheira que comanda os peões. Era a preocupação social da vanguarda arquitetônica mundial se refletindo no Brasil. Vargas chamou a vanguarda para fazer as coisas, uma intuição fantástica porque ele mesmo não entendia nada do assunto. Tinha ali uma preocupação de morar bem e de ter uma vida comunitária, tudo muito entrosado na cidade. Não era esse negócio de Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que joga longe, sem nenhuma infraestrutura, sem vínculo com a cidade. Estão construindo hoje as favelas de amanhã.

 

O programa atual mostra que a casa é pensada desvinculada da cidade?

 

O Minha Casa, Minha Vida é um lixo de projeto. Mal entregam as casas e estão todas cheias de rachaduras, infiltrações, tudo que fui visitar é um absurdo. Você olha o Pedregulho em comparação. Programa social é o que a ditadura de Vargas fez: habitação mínima, popular, digna, decente. Hoje isso se perdeu. Dilma fala em habitação digna. Qual? Ela vai morar ali? E Getúlio soube fazer as coisas, congelou o preço dos alugueis, fez a lei do inquilinato. Ninguém despejava ninguém. Os conjuntos eram propriedade do Estado, eram alugados. Ele viu logo que o problema de morar não podia ser deixado na mão do mercado. No caso do MCMV é escandaloso, as construtoras são donas dos terrenos nas cidades e decidem o que vai ser bairro de luxo e bairro de pobre. Quem faz a política urbana no Brasil hoje são as imobiliárias, não é o governo.

 

O senhor diz que é preciso buscar uma narrativa comum para as lutas de mulheres, negros, gays. O direito à cidade pode ser essa narrativa?

 

Tem que ser porque tudo passa por aí: transporte, discriminação, as próprias disparidades de classe que dificultam a realização plena do direito à cidade. É preciso um eixo. É o direito à cidade que vai poder unir tudo. Esses movimentos têm a sua especificidade, mas podem encontrar pontos em comum. Eu me manifesto pela liberação da maconha e pela preservação dos córregos da Vila Madalena em São Paulo. Essas coisas não se excluem. Você quer transporte público de qualidade, tem a luta contra o automóvel, isso interessa desde a favela aos condomínios de luxo. O difícil é encontrar esses elementos comuns numa cidade completamente cindida. Ninguém vive nos mesmos espaços. Numa cidade que exclui, que segrega, como você quer que o indivíduo se identifique com esse corpo cívico? Isso vai ter que ser construído.

 

Como o senhor vê o avanço conservador vivido hoje no Brasil?

 

A gente se enganou. Em termos culturais, comportamentais, o Brasil avançou muito menos do que pensávamos e agora nos assustamos com a onda conservadora. O país não avançou como a gente sonhou. Estávamos dançando três compassos à frente da música. E outra coisa: as pessoas não agridem um gay na rua para não serem presas, não porque aceitaram. Direitos têm que ser empurrados goela abaixo em nome da cultura liberal democrática. A gente não pode se enganar e tem que continuar avançando centímetro por centímetro como era na década de 1970. Não pense que as pessoas estão aceitando drogas, homossexualidade, porque o grosso da população não está. Uma cultura não muda nem em uma, nem em duas, nem em três décadas, é preciso um século. Mas eu falo assim do ponto de vista de quem é mais velho. É claro que algum avanço aconteceu. Claro que tem um avanço. Desde que eu me entendo por gente o Brasil já acabou diversas vezes. E continua aí.

 

Fonte: O Globo

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BIOGRAFIA DE MANUEL BANDEIRA CHEGARÁ ÀS LIVRARIAS COM 9 ANOS DE ATRASO

Escrito em 2006, texto teve a circulação impedida pelos herdeiros do poeta

RIO — Uma pequena biografia sobre Manuel Bandeira, escrita por Paulo Polzonoff Jr. há nove anos, vai, finalmente, chegar às lojas nas próximas semanas.

 

A decisão ocorre após a determinação do Supremo Tribunal Federal, no dia 10, de impedir a autorização prévia de biografias.

O texto, que integrava a coleção Perfis do Rio, teve, em novembro de 2006, a circulação barrada pelos herdeiros do poeta, que se incomodaram com o teor do livro.

 

— A família disse que já estava preparando uma biografia e não queria uma segunda. Também reclamou de questões controversas presentes no livro, como a associação de Bandeira à boemia e ao uso de cocaína. Por fim, alegou que o perfil seria um pretexto para publicar poemas do autor sem o pagamento de direitos autorais, o que é um absurdo, porque tivemos o cuidado de inserir apenas trechos que ilustravam a trajetória do autor — diz o editor Alberto Schprejer, da Relume Dumará, hoje propriedade da Ediouro.

 

Na época, foram entregues 500 exemplares do livro à Prefeitura, que apoiou o projeto dos Perfis do Rio. A obra, porém, nunca chegou às lojas.

 

Paulo Polzonoff Jr. diz que sequer lembra-se do conteúdo do livro:

— Consegui achar uma cópia num sebo. Vou reler. Mas estou feliz com a decisão.

 

Fonte: O Globo

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BEATRIZ SARLO RELEMBRA VIAGENS PELA AMÉRICA DO SUL

Livro mescla autobiografia e História

BURNOS AIRES – Tudo começou quando chegaram a suas mãos algumas fotos que a levaram a relembrar aventuras da juventude, quando ela e alguns companheiros universitários viviam guiados por um “populismo sentimentalista” e pelo desejo de viver, em carne própria, a “ilusão revolucionária latino-americana”. Foi assim, pelo correio, que a escritora argentina Beatriz Sarlo recebeu o impulso que marcou o nascimento de seu mais recente livro, “Viagens. Da Amazônia às Malvinas” (e-galáxia), que ganhará lançamento exclusivo em e-book na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na quarta-feira, dia 1º de julho, a autora abrirá a 13ª edição do evento, que homenageia Mário de Andrade, com a conferência “As margens de Mário”, e no sábado, dia 4, participará da mesa “Turistas aprendizes”, com a escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

 

 

Em entrevista ao GLOBO, Sarlo explica por que, na maioria dos capítulos, optou por uma narração através de um “coletivo, um protagonista plural”, que buscou representar “a experiência de um grupo de fanáticos, com alto grau de ingenuidade”, que durante vários anos compartilhou viagens por um continente que já não existe.

 

— Conhecemos uma América Latina épica, muito diferente da que existe hoje e tornou-se atração turística internacional — conta Sarlo, em seu escritório no centro de Buenos Aires.

 

Reviver o passado, porém, não tem a menor conotação melancólica para a autora. Não se trata de rememorar a juventude perdida. Nada disso. O objetivo é outro:

— Gostaria de transmitir uma experiência com o diferente. Este é um livro benevolente com tudo o que é diferente, com um alto grau de ingenuidade.

 

Seja numa travessia pelas províncias do Norte da Argentina; em visita à recém-inaugurada Brasília, na década de 60; durante uma inesquecível convivência com uma tribo de jibaros na Amazônia peruana ou numa cobertura jornalística nas Ilhas Malvinas, Sarlo mostra experiências que abriram seus olhos e, em alguns casos, os de seus companheiros de viagem.

 

Era um grupo pequeno, menos de dez pessoas, unidas pela vontade de conhecer o território latino-americano em travessias por terra e mar, realizadas com grande esforço físico. Estudantes de várias universidades portenhas, entre elas Arquitetura, Letras (no caso da escritora) e Fisioterapia, entre outras, que aproveitaram vários verões para conhecer outras cidades e países, levando em suas bagagens apenas uma bolsa de dormir e um casaco. “Éramos amigos do trekking”, resumiu Sarlo.

 

MERGULHO NAS REALIZADES LOCAIS

A viagem a Brasília foi longa e incluiu vários meios de transporte: caminhão, ônibus e barca. Depois de uma breve passagem pelo Rio, o grupo chegou ao destino sonhado, onde queria “estar em contato com o modernismo da arquitetura brasileira”. A meta era ver de perto o trabalho de Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Roberto Burle Marx, entre outros.

 

— Um dos colegas estudava arquitetura, mas eu também estava muito envolvida com as estéticas de vanguarda — diz a escritora, que sempre se interessou por arquitetura.

Sarlo se lembra muito bem do que viu na visita a Brasília, uma cidade, afirmou, “que já não é a mesma”:

 

— Fomos uns dos últimos que vimos uma Brasília recém-inaugurada, praticamente deserta.

O grupo dormia, quase sempre, em edifícios públicos. A comodidade não era uma questão relevante. O importante, para todos, era mergulhar nas realidades de cada um dos lugares que visitavam. Na Bolívia, viram de perto a revolução liderada pelo general Juan José Torres (presidente do país entre 1970 e 1971), um processo que cativou Sarlo e a fez pensar em trocar Buenos Aires por La Paz. Um dos capítulos do livro conta a viagem a uma Bolívia em estado revolucionário, onde os estudantes tiveram acesso às mais altas autoridades do Palácio Quemado, entre eles o ministro de Urbanismo, que, uma vez derrubado o governo de Torres, pediu ajuda a seus amigos argentinos quando chegou, de trem, a Buenos Aires.

 

— Sem conhecer ninguém em La Paz, pedimos uma entrevista com o ministro de Urbanismo e no dia seguinte estávamos comendo em sua casa. Isso é impensável hoje, uma loucura.

 

Ela recorda “outra América Latina, que vivia com uma expectativa revolucionária muito intensa”.

 

— Era o clima da época, tinha ficado entusiasmada com o lugar e estabeleci uma relação intensa com a cultura boliviana, que mantenho até hoje. É uma dessas paixões que temos em nossa vida. Era jovem e nós éramos fanáticos por natureza — assegura.

 

Nos últimos anos, a escritora, que em 2003 encerrou suas atividades como professora de literatura argentina na Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA), deu cursos em universidades dos Estados Unidos e Inglaterra, entre elas Columbia, Berkeley e Cambridge. Sarlo é uma das grandes referências em estudos culturais no mundo, acaba de ser premiada na República Dominicana e já foi condecorada pelo governo brasileiro. Ela se reconhece como discípula da vertente britânica dos estudos culturais (Raymond Williams e Richard Owen) e destaca a influência de Roland Barthes em seu trabalho. Quando era uma estudante de Letras, porém, a jovem Sarlo queria apenas ter experiências locais, conhecer de perto outras culturas, encontrar igrejas e tribos perdidas pelo continente.

 

Na Amazônia peruana, outro dos capítulos de seu livro, os estudantes passaram uma semana vivendo com uma tribo de jibaros, encontrada quando eles estavam caminhando perdidos pela selva.

 

— Quando fomos à Amazônia não sabíamos que encontraríamos uma tribo de jibaros, se tivéssemos tido essa informação teríamos ido com certos preconceitos, porque era a tribo que, no passado, cortava cabeças — brinca Sarlo, que lembra do encontro como uma experiência incrível. — Eles nos detiveram, vestidos com suas roupas tradicionais. Com sinais, entendemos que tínhamos de ir com eles. Eram todos muito amáveis e nós tínhamos um amor instantâneo por qualquer camponês: éramos populistas sentimentais.

 

Foram vários dias de convivência, até que o Exército peruano descobriu que os jovens argentinos estavam numa região de conflito com o Equador (conflito que se mantém até hoje) e decidiu detê-los para averiguar quais eram seus objetivos.

 

— Queriam saber se estávamos fazendo espionagem para o Equador, essa é minha hipótese. Quando responderam que éramos cinco bobos, nos liberaram. Nós não sabíamos que era uma região de conflito, nossa ignorância era infinita.

 

CLIMA TERRÍVEL NAS MALVINAS

No capítulo “Uma estrangeira nas ilhas”, Sarlo narra sua experiência nas Malvinas, em 2012, segundo ela “a última viagem importante que terei feito em minha vida”. Ir às Malvinas não era algo pendente para a escritora. A questão representa um trauma para Sarlo que, em 1982, se opôs à invasão comandada pela última ditadura argentina (1976-1983). Ela e uma pequena minoria. Foi difícil enfrentar um respaldo quase unânime à última aventura dos ditadores argentinos, que acabaram dando um tiro no próprio pé. Perderam a guerra e, pouco depois, o poder.

 

— Foi um movimento patético de patriotismo territorial. Depois disso, nunca esteve em minha cabeça ir às ilhas, me parecia que não era preciso conhecê-las para pensar que os que moram lá têm direito a expressar seus interesses e suas necessidades sobre seu próprio destino — explicou Sarlo, uma das poucas intelectuais renomadas da cultura argentina que se atreve a expressar, publicamente, sua visão crítica sobre a política de recuperação das ilhas, defendida, com unhas e dentes, pelo kirchnerismo e pela maioria dos governos que vieram depois da ditadura.

 

A escritora foi às Malvinas em março de 2013, quando realizou-se um referendo sobre a soberania das ilhas. Enviada pelo jornal “La Nación”, Sarlo passou uma semana morando com uma família kelper (como são chamados os moradores) e confirmou tudo o que já pensava sobre o conflito:

 

— Quem viveu a guerra viu um soldado argentino, portanto, estrangeiro, batendo na porta da sua casa. Os que não viram, sabem que isso aconteceu e alimentaram fantasias sobre esse passado. Nenhum latino-americano sabe o que isso significa.

 

Para a escritora, “todos os argentinos patrioteiros deveriam morar um tempo nas Malvinas, até mesmo os patagônicos. O clima é verdadeiramente terrível. Eu estava equipada para ir à Antártida e tive frio o tempo todo”.

 

— Eles (os kelpers) amam essas ilhas. É um povo instalado. Os jovens terminam sua escolaridade na Inglaterra, moram dez anos por lá e, em 70% dos casos, depois voltam para as Malvinas — diz Sarlo, que, para encerrar sua posição, indaga:

 

— O que aconteceria se todas as fronteiras europeias voltassem ao que eram no século XIX?

Sua frustração, reconhecida e detalhada no livro, foi não ter conseguido se aproximar dos jovens que moram nas ilhas. Nem mesmo suas “botas vermelhas, que fora de Buenos Aires sempre provocam comentários”, conseguiram abrir as portas de uma conversa mais profunda com as adolescentes da família que a hospedou.

 

— Tentei me aproximar dos mais jovens, mas não houve jeito. O hermetismo foi total.

 

Sarlo também recupera parte de sua infância, as férias na província de Córdoba, para demonstrar uma das teses do livro: a de que “também somos produto das viagens de outros, dos que nos rodeiam”.

 

Fonte: O Globo

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ROBERTO SAVIANO É DESTAQUE DA FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY 2015

Programação principal foi divulgada nesta terça-feira e inclui o escritor cubano Leonardo Padura e o cartunista Riad Sattouf

SÃO PAULO – O jornalista italiano Roberto Saviano, o escritor cubano Leonardo Padura, o matemático brasileiro Artur Avila e o cartunista francês Riad Sattouf estão entre os convidados anunciados nesta terça-feira (12) para a edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que se realiza de 1º a 5 de julho. Entre os nomes que já haviam sido confirmados na programação principal estão o irlandês Colm Tóibín, a israelense Ayelet Waldman, o britânico David Hare, o queniano Ngugiwa Thiong’o, os argentinos Diego Vecchio e Beatriz Sarlo, a portuguesa Matilde Campilho e os brasileiros Karina Buhr e Boris Fausto. Os ingressos começam a ser vendidos no dia 1º de junho.

 

Saviano, autor de “Gomorra” e “Zero Zero Zero”, sobre a relação das máfias italianas com as instituições do país, falará do seu trabalho como jornalista investigativo, que lhe valeu ameaças de morte e o obrigou a viver escondido sob proteção da polícia. Avila participará da mesa “Os homens que calculavam” com o também matemático russo-americano Edward Frankel para uma conversa sobre a rotina dos cientistas e a intimidade com os números. Ex-colaborador do jornal satírico francês “Charlie Hebdo”, Sattouf e o cartunista brasileiro Rafa Campos, do álbum “Deus, essa gostosa”, discutem na mesa “De balões e blasfêmias” como se travam as batalhas culturais e os limites do humor dentro do universo dos cartuns e publicações humorísticas.

 

Homenageando Mário de Andrade (1893-1945), a Flip 2015 reúne este ano em Paraty 39 autores brasileiros e estrangeiros para debater temas que vão desde a prosa e a poesia até políticas culturais e os rumos da sociedade brasileira, passando pela crítica, sexo e erotismo, ciência, família e vida afetiva, romance policial, política internacional, música e arquitetura. A 13ª edição da festa vai manter a gratuidade no show de abertura e nos telões externos. O jornalista e editor Paulo Werneck, que pelo segundo ano ficou responsável pela curadoria, disse que trazer Saviano (por questões de segurança) e Padura não foi uma tarefa fácil e as negociações se arrastaram por bastante tempo.

 

- Estou muito orgulhoso dessa programação. Tem autores para todos os perfis de leitores – diz o curador Paulo Werneck.

 

Mauro Munhoz, diretor presidente da Casa Azul, organização que promove a Flip, diz que a captação de patrocínio ainda não foi completada. E pode ser que termine com cerca de 15% a menos do valor total. Segundo Munhoz, dos R$ 7,5 milhões previstos para os cinco dias de festa só R$ 6,1 milhões foram captados. No ano passado, foram captados R$ 8,2 milhões.

 

- Estamos em um cenário bastante dramático e isso se reflete em todas as áreas. Captação acontece até o último momento. Estamos há 13 anos nesse processo. Trabalhamos com vários módulos, o que nos permite adaptar. De agora até o início da Flip, a expectativa é que terminemos com 15% a menos. Por outro lado, é um processo extremamente eficiente. Porque nos permite fazer mais com menos. É um princípio modernista, andradino.

 

Werneck acrescenta que, nesse contexto de crise, a programação tem obrigação de ser mais movimentada.

 

- A gente sabe que, em momentos de crise, a atividade cultural floresce. Não podemos esquecer que o próprio Mário de Andrade atuou em um contexto político muito difícil — disse o curador.

 

Na programação principal, a vida e obra de Mário de Andrade será dissecada em todos os âmbitos possíveis e a partir de vários pontos de vista por parte dos convidados. Hermínio Bello de Carvalho e o crítico José Ramos Tinhorão examinam o trabalho do homenageado no campo da música. A argentina Beatriz Sarlo e os brasileiros Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim mostram por que ele continua atual nos dias de hoje. O professor e músico José Miguel Wisnik volta ao tema da música no trabalho do intelectual paulista. E o jornalista Roberto Pompeu de Toledo e o professor Carlos Augusto Calil falam sobre a relação do patrono desta edição da Flip com a cidade de São Paulo.

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

 

QUARTA, 1 DE JULHO

 

19h – Sessão de abertura: As margens de Mário

 

Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim

 

QUINTA, 2 DE JULHO

 

10h – Mesa 1: A cidade e o território

 

Antônio Risério e Eucanaã Ferraz

 

12h – Mesa Zé Kleber: Falando alemão

 

Geovani Martins, Deocleciano Moura Faião e Katjusch Hœ

 

15h – Mesa 2: De micróbios e soldados

 

Diego Vecchio e Saša Stanišić

 

17h15 – Mesa 3: A poesia em 2015

 

Matilde Campilho e Mariano Marovatto

 

19h30 – Mesa 4: Encontro com Colm Tóibín

 

21h30 – Mesa 5: Do angu ao kaos

 

Jorge Mautner e Marcelino Freire

SEXTA, 3 DE JULHO

 

10h – Mesa 6: Encontro com Boris Fausto

 

12h – Mesa 7: São Paulo! Comoção de minha vida…

 

Roberto Pompeu de Toledo e Carlos Augusto Calil

 

15h – Mesa 8: As ilusões da mente

 

Eduardo Giannetti e Sidarta Ribeiro

 

17h15 – Mesa 9: Escrever ao Sul

 

Ngũgĩ wa Thiong’o e Richard Flanagan

 

19h30 – Mesa 10: Amar, verbo transitivo

 

Ana Luisa Escorel e Ayelet Waldman

 

21h30 – Mesa 11: Os Imoraes

 

Eliane Robert Moraes e Reinaldo Moraes

 

SÁBADO, 4 DE JULHO

 

10h – Mesa 12: Turistas aprendizes

 

Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho

 

12h – Mesa 13: Encontro com David Hare

 

15h – Mesa 14: De balões e blasfêmias

 

Riad Sattouf e Rafa Rocha

 

17h15 – Mesa 15: Os homens que calculavam

 

Artur Avila e Edward Frenkel

 

19h30 – Mesa 16: Encontro com Roberto Saviano

 

21h30 – Mesa 17: Desperdiçando verso

 

Arnaldo Antunes e Karina Buhr

 

DOMINGO, 5 DE JULHO

 

10h – Mesa 18: Música, doce música

 

José Ramos Tinhorão e Hermínio Bello de Carvalho

 

12h – Mesa 19: De frente para o crime

 

Leonardo Padura e Sophie Hannah

 

14h – Mesa 20: Conferência de encerramento

 

José Miguel Wisnik

 

16h – Mesa 21: Livro de cabeceira

 

Fonte: O Globo

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NGUGI WA THIONG’O FALA SOBRE DILEMAS DA ÁFRICA

Em entrevista exclusiva, um dos principais autores do continente defende a preservação das línguas locais

RIO — Na década de 1960, enquanto a África vivia o colapso dos regimes coloniais europeus, uma nova geração de escritores africanos despontou no cenário mundial com obras que refletiam sobre as lutas por independência no continente. Eram jovens intelectuais recém-saídos da universidade, que se dividiam entre a participação ativa na campanha pela libertação de seus países, muitas vezes pegando em armas, e a criação de uma literatura africana moderna, ancorada no diálogo entre as tradições locais e a herança ocidental.

 

Ngugi wa Thiong’o entrou na linha de frente desse movimento em 1967, quando publicou seu terceiro romance, “Um grão de trigo”. Lançado apenas quatro anos depois da independência do Quênia, que deixou de ser colônia britânica em 1963, o livro era ao mesmo tempo uma afirmação da cultura queniana e uma meditação sobre as contradições e incertezas do novo momento do país. Um dos clássicos da literatura africana do século XX, “Um grão de trigo” será publicado no Brasil pela primeira vez em junho, pela Alfaguara, em tradução de Roberto Grey. Ngugi será um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 1 e 5 de julho, onde lançará também “Sonhos em tempo de guerra” (Biblioteca Azul), primeiro volume de sua trilogia de memórias.

 

Nascido em 1938, no vilarejo de Kamirithu, região central do Quênia, Ngugi pertence à etnia gikuyu, a mais populosa do país. Foi criado pelas quatro esposas de seu pai, numa casa onde o ritual noturno de contar histórias em torno do fogo era parte sagrada da rotina. Sua infância e adolescência foram atravessadas por conflitos históricos. Primeiro, a Segunda Guerra Mundial, na qual quenianos foram forçados a lutar ao lado dos colonizadores britânicos. Depois, nos anos 1950, a rebelião Mau Mau, quando uma guerrilha anticolonial foi massacrada, mas abriu caminho para a independência conquistada na década seguinte.

 

Escrito na Inglaterra, onde Ngugi estudou literatura nos anos 1960, “Um grão de trigo” é ambientado nos quatro dias anteriores à declaração de independência do Quênia, em 12 de dezembro de 1963, mas repassa a longa história de choques com o poder colonial. O protagonista do livro é Mugo, ex-prisioneiro político considerado em sua aldeia um herói da libertação, mas que carrega a culpa por uma traição cometida num momento decisivo de sua vida.

 

Depois do sucesso do romance, escrito em inglês, o autor, batizado como James Ngugi, adotou o nome atual e passou a escrever somente no idioma gikuyu. Em 1977, no governo do presidente Jomo Kenyatta, líder nacionalista exaltado em “Um grão de trigo”, Ngugi foi preso por causa das críticas sociais de seus romances e peças em gikuyu. Libertado um ano depois, continuou a ser perseguido e exilou-se nos Estados Unidos, onde vive até hoje, dando aulas na Universidade da Califórnia-Irvine. Em 2004, quando voltou ao Quênia pela primeira vez depois de 22 anos, sua casa foi invadida por três ladrões, que o agrediram e estupraram sua mulher. Os invasores foram presos e condenados à morte.

 

Em entrevista exclusiva por telefone, da Califórnia, Ngugi fala sobre sua obra e a conturbada relação com o país natal. Aos 77 anos, um dos maiores escritores africanos vivos, sempre cotado para o Nobel, avalia os dilemas enfrentados pela África desde as independências, diz admirar Jorge Amado e defende a preservação das culturas locais como alternativa para o futuro do continente.

 

Quais são suas memórias da infância no Quênia durante a Segunda Guerra Mundial?

 

Como o Quênia era uma colônia britânica, muitos quenianos tiveram que lutar ao lado de seus dominadores. Minhas memórias mais antigas são de comboios carregando soldados armados. Também lembro de prisioneiros de guerra italianos, que eram mandados para o Quênia depois de serem detidos na região da Somália disputada por britânicos e italianos. Eles vinham ao nosso vilarejo nos intervalos do trabalho forçado na construção de estradas. Tentavam comprar ovos e seduzir nossas mulheres.

 

Qual era o papel das histórias na sua família e na cultura gikuyu?

 

Cresci numa casa com quatro mães e um pai. Ele estava ausente da nossa vida a maior parte do tempo, mas as mães estavam sempre presentes. Eram elas que nos davam comida, roupas e histórias. Essas histórias que elas contavam eram muito importantes para nós. As gerações atuais podem não ter dimensão disso, por causa da onipresença da TV, do rádio e da internet, mas naquela época o ato de contar histórias era uma atividade diária. À noite, antes ou depois do jantar, as pessoas contavam histórias, desde narrativas ficcionais até relatos de encontros do dia e acontecimentos políticos ou simplesmente boatos que circulavam pelo país. Eram como rituais em que sentávamos ao redor do fogo para ouvir as histórias do dia.

 

Como muitas famílias quenianas, a sua se viu envolvida na rebelião anticolonial Mau Mau, nos anos 1950. Um de seus irmãos se juntou aos guerrilheiros e outro foi assassinado. Como enfrentaram esse período?

 

Mal acabou a Segunda Guerra, não fazia nem cinco anos que não víamos mais os soldados, começou a guerra por nossa libertação. É importante lembrar que o nome dos Mau Mau era Exército Terra e Liberdade. Foram os britânicos que criaram essa onomatopeia tola para que o movimento parecesse mambembe e sem foco. Mas o nome era claro: Exército Terra e Liberdade. Muitas famílias quenianas se envolveram na guerra. A maioria ficou ao lado dos guerrilheiros Mau Mau, mas algumas atuaram como força auxiliar da presença militar britânica. Foi declarado um estado de emergência no país entre 1952 e 1960, que instaurava a lei marcial no lugar da lei colonial “normal” — que já era uma espécie de lei marcial, é claro. Toda a população do país foi atingida pelas operações militares, de uma forma ou de outra. Famílias se partiram ao meio, casas foram destruídas, houve um imenso êxodo humano, comparável às maiores tragédias da História.

 

“Um grão de trigo” se passa no momento da independência, em 1963, mas também recapitula a rebelião Mau Mau e toda a história do colonialismo no Quênia. Um aspecto marcante é a ambiguidade dos personagens: Mugo, o protagonista, é visto como um herói nacionalista em sua aldeia, mas se revela um traidor. Críticos relacionaram esse traço do romance às contradições das independências africanas. Como você avalia a forma como os quenianos lidaram com a independência?

 

Como romancista, é claro que não me interesso por situações em preto e branco, tento ver as nuances das personalidades e da História. “Um grão de trigo” expressava meus sentimentos na época, quatro anos depois da independência, quando eu sentia que muitas metas da luta pela libertação estavam sendo deixadas de lado pelo novo governo pós-colonial. O romance investigava aquele momento, quando não tínhamos uma ideia clara do que estava errado, mas sentíamos que algo não ia bem. Daí a ambiguidade, talvez.

 

Quais eram suas maiores preocupações com o Quênia na época?

 

A forma como o país tratava os guerrilheiros que lutaram pela nossa liberdade, por exemplo. Eles realizaram um grande sacrifício, mas estavam sendo relegados a segundo plano. O que eu estava tentando dizer era: o povo do Quênia, e da África, foi a base do sucesso das lutas anticoloniais e nossa independência só terá sentido se conservarmos a unidade entre os líderes e os povos. Não derrotamos os poderes coloniais porque tínhamos mais armas, e sim porque tínhamos nosso povo. E ainda temos. Precisamos de líderes que saibam que seu poder vem do povo.

 

Nos anos 1960, muitos escritores africanos lidavam com os temas do colonialismo e da independência, como Wole Soyinka e Chinua Achebe, na Nigéria, ou José Craveirinha, em Moçambique. Qual é o legado da sua geração de escritores para a África?

 

Soyinka, Achebe, eu e vários outros éramos jovens nascidos sob o colonialismo e estávamos amadurecendo junto com nossos países. Éramos otimistas, não só em nosso discurso, mas também na energia com que nos entregávamos ao trabalho. Nossa energia refletia a energia da luta anticolonial em toda a África, mesmo quando criticávamos o que acontecia. Isso ajudou a criar um sentido de “nova África”, à qual nós demos voz. Nossa geração veio de uma tradição literária que ainda era muito ocidentalizada e ajudamos a formar uma geração cuja tradição literária é o nosso trabalho. Eles podem construir a partir do que nós construímos. Mas há um lado negativo nisso. Quase todos escrevíamos em inglês, francês ou português, então ajudamos a criar uma tradição literária africana na língua dos colonizadores, negligenciando nossas próprias línguas africanas.

 

Nos anos 1970, você mudou seu nome de James Ngugi para Ngugi wa Thiong’o e passou a escrever no idioma gikuyu. Como chegou a essa decisão?

 

Uma das contradições da condição pós-colonial é a descrença dos africanos quanto às nacionalidades nativas. Ironicamente, tínhamos mais fé em nós mesmos quando estávamos lutando pela independência. Depois, a classe média africana passou a ter mais fé no que vinha de fora, incluindo os idiomas. Minha posição é a seguinte: podemos fazer parte do mundo sem abandonar nossas bases. Não precisamos abrir mão de nossos idiomas para nos integrar ao resto do mundo. Devia ser justamente o contrário: nossa condição para fazer parte do mundo deveria ser a fidelidade às nossas bases, incluindo nossos idiomas.

 

Você foi preso no Quênia em 1977, por escrever romances e peças no idioma gikuyu. Por que isso era visto como ameaça pelo governo?

 

Se você quer se comunicar com as pessoas, tem que falar a língua delas. No fundo, o governo não queria que eu escrevesse em gikuyu por medo de que isso estimulasse as pessoas a tomarem consciência de si. Se você sabe todas as línguas do mundo, menos a sua, isso é escravidão. Mas se sabe sua língua materna e aprende outras, isso é poder.

 

Em “Um grão de trigo” e outros livros, você tem uma diálogo criativo com autores ocidentais, especialmente Joseph Conrad. Qual foi o papel da literatura ocidental na sua formação como escritor?

 

Falamos sobre minha educação noturna na casa das minhas mães e as histórias que elas contavam. Como você pode imaginar, essa educação era bem diferente da que tive na escola. Os livros que nos davam em sala de aula eram todos em inglês, fomos educados em inglês. Mais tarde, quando fui estudar em Londres, a literatura inglesa foi parte da minha formação como escritor e como indivíduo. Não posso me livrar da literatura ocidental, nem quero me livrar dela. Mas sei que isso também é parte do colonialismo. Por isso, é importante olhar para outros lugares. Minha libertação mental não veio só com a valorização dos idiomas africanos, veio também com a descoberta de outras literaturas que não a europeia. Lembro até hoje do que senti lendo Jorge Amado. Não falo português, mas mesmo na tradução inglesa tive a sensação de vivenciar o dia a dia descrito nos livros dele.

 

Quais são os maiores desafios ainda enfrentados pelo Quênia e outros países do continente, décadas depois das independências?

 

É fundamental não subestimar a importância das independências africanas, mesmo com seus problemas. Mas elas nem sempre significaram a liberdade de um país ou sua real independência econômica. Até hoje, quem extrai o ouro, o diamante e o cobre da África? Quem lucra com isso? Os recursos africanos ainda são controlados por corporações estrangeiras. Um povo só pode dizer que é livre se controla sua economia, sua política e sua cultura. A descolonização só estará completa quando tivermos relações baseadas na troca, não na exploração.

 

Como é sua relação com o Quênia hoje, depois da prisão, do exílio e do ataque contra você e sua mulher em 2004?

 

O Quênia hoje tem um clima político melhor. Já não matam dissidentes, nem prendem por traição. A insegurança continua e a economia é instável, mas estou otimista. Hoje sinto que posso ir ao Quênia, já voltei outras vezes desde 2004 e vou de novo em junho. O país está mais aberto.

 

Você acompanha a nova geração de escritores africanos que começa a ficar mais conhecida no mundo, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, o queniano Binyavanga Wainaina e o etíope Dinaw Mengestu? Como ela se compara à sua geração?

 

É muito animador comparar minha geração com a atual. Na minha época, dava para contar os escritores africanos nos dedos. Hoje são vários — eu mesmo tenho três filhos e uma filha que já publicaram livros (risos). Essa nova geração explora áreas diversas com muita coragem, eles são mais viajados, conhecem o mundo. Minha preocupação é que não vejo muitos deles abraçando línguas africanas. Fico feliz por ver autores africanos fazendo sucesso internacional, mas sinto que as línguas africanas podem morrer se não conseguirmos que os jovens se interessem por elas. Mas como vamos fazer isso se os governos africanos não têm qualquer política para as línguas do continente, e na verdade são até contra elas? Eu gostaria de ver um líder africano falando com seu povo na língua local. Gostaria de ver línguas africanas no currículo das escolas. Gostaria de ver mais livros publicados em línguas africanas, mais traduções entre línguas africanas e de idiomas estrangeiros para línguas africanas. Gostaria de ler Jorge Amado em gikuyu. Por que não?

 

Fonte: O Globo

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ROMANCE ‘CONTAR TUDO’, DO PERUANO JEREMÍAS GAMBOA CHEGA AO BRASIL

Com referências à música e intrigantes cenas de sexo, obra conta a história de um jornalista que decide largar tudo e viver de literatura

RIO — O romance tem mais de 500 páginas e um título auspicioso: “Contar tudo”. Elogiado pelo Nobel Mario Vargas Llosa e recebido por críticos literários latino-americanos como uma revelación, é o primeiro livro publicado no Brasil do jornalista e escritor peruano Jeremías Gamboa, de 40 anos. E o que um autor praticamente estreante tem tanto a contar? A própria vida, mas aqui confundida com a história de Gabriel Lisboa: um jovem estudante de Jornalismo da periferia de Lima que conta moedas para pagar a passagem, ouve Lou Reed e Caetano Veloso e lê livros o dia todo, tem certa dificuldade com os amores, mora de favor na casa de um tio e faz estágio em uma revista política semanal. E que um dia, tornado jornalista experiente, decide largar tudo e viver de literatura — tal qual Gamboa, que abandonou as redações (hoje colabora semanalmente com uma coluna de literatura para o “El Comercio”) para escrever o livro e dar oficinas de escrita no Peru. Ao tentar responder a si mesmo como faria isso — viver de literatura nos dias de hoje — o autor encontrou o título e o cerne do romance, uma bravata existencial em direção às palavras.

 

Muitos primeiros romances falam sobre a própria vida do escritor. É mais fácil escrever sobre o que se conhece?

 

É mais fácil, sim, mas a parte inventada aparece imediatamente. Desde o primeiro parágrafo, que escrevi saindo de um banho nos Estados Unidos, comecei a mentir, porque o meu protagonista faz o mesmo mas em um quarto em Santa Anita, na periferia de Lima. Escrever ficção é viver pelos pés de alguém. Gabriel Lisboa não sou eu, mas é um garoto feito de mim: dos meus medos, meus assuntos, meus desejos, meus sonhos.

 

É um romance caudaloso. Isso foi um problema durante a escrita?

 

É um problema editorial, pelo qual eu temia. Não queria que a extensão complicasse sua publicação e depois sua tradução: as cerca de 200 mil palavras encareceriam o custo de edição, a quantidade de papel, o custo das traduções. Neste sentido foi um problema. Mas no sentido literário, não. Gosto muito das novelas longas, e é de se agradecer que um escritor tenha uma história extensa e o tom preciso para narrá-la: é como sustentar uma relação amorosa duradoura e plena de bem-estar. Eu comecei a “contar tudo” pela metade, a partir do momento da renúncia, mas constantemente fazia flashbacks para contar o início da vida do personagem como jornalista. Então descobri que era uma novela de iniciação, que devia ser mais linear. Às vezes, quando escrevia, eu tinha receios pelo tamanho da história porque não há como se ter muito controle sobre a totalidade. E porque quando uma cena não saía sentia que todo o livro estava em risco. É como navegar um transatlântico.

 

Por que o livro se tornou um best-seller no Peru?

 

Foi impressionante. Hoje acho que foi uma empatia muito grande dos leitores com o protagonista: um garoto que representa uma maneira de ser de muitos peruanos, um adolescente mestiço e sem oportunidades que se lança a um lugar no mundo da mesma forma que muitos filhos de migrantes peruanos em Lima, transformando-se, e à cidade, definitivamente.

 

Em que momento de “Contar tudo” você notou que tinha uma linguagem própria?

 

Desde o início eu intuí. Sem essa certeza seria difícil abandonar o que estava fazendo para escrevê-lo. Custou muito encontrar uma voz própria, sobretudo pelo tratamento que daria à pobreza, que é uma característica dos meus personagens. Quando encontrei uma maneira digna de representá-los, achei algo parecido com a minha voz nos contos do livro “Punto de fuga” (primeiro livro de Gamboa, a coletânea de contos “Pontos de fuga”, em tradução livre, deve ser publicada ainda este ano pela Alfaguara). Foi precisamente este processo lento e doloroso do encontro de uma voz própria que quis representar no romance.

 

Há muita música no romance. Lou Reed é quase um personagem.

 

Escrevo com música. Deve ser por isso. Jamais soube escrever em silêncio. No momento de escrever este livro ouvi muita música, e fui incorporando as canções e discos desde o primeiro parágrafo. De fato a música é um gatilho da escrita. Gosto muito das ficções de Hanif Kureishi, Nick Hornby, e do chileno Alberto Fuguet, que incorporam muita música pop à trama. Eu me formei com música e por isso Gabriel também. Algumas das melhores lições que recebi sobre criação vêm da música, por isso homenageei Lou Reed, que me ensinou um sentido de escritura e liberdade, e Caetano Veloso, que foi meu grande guru na maneira de encarar meu ser mestiço.

 

É um romance sobre a escrita. As cenas de sexo do tímido Gabriel foram as mais difíceis, como costumam afirmar muitos escritores?

 

São difíceis como qualquer outra. Quando me aproximava delas, e sabia que entraria nelas, temia não conseguir escrevê-las e recorrer às elipses. Ao final acredito que tenham dado certo, graças à poesia de Jorge Eduardo Eielson, por exemplo, que li bastante durante a escrita. Quando li elogios a essas cenas de cama me senti seguro, empoderado como escritor. O sexo é um momento esplêndido para conhecer as pessoas e também para apresentar a essência dos personagens.

 

Fonte: O Globo

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ACERVO DE J. CARLOS É ADQUIRIDO EM COMODATO PELO INSTITUTO MOREIRA SALLES

Cartunista é um dos principais cronistas visuais do Brasil na primeira metade do século XX

RIO— Ele é um dos principais cronistas visuais do Brasil do século XX. Agora, quem quiser rever a produção de José Carlos de Brito e Cunha, o cartunista J. Carlos (1884-1950), vai poder encontrá-la toda em um só lugar. O Instituto Moreira Salles (IMS) acaba de receber o acervo do desenhista, preservado durante décadas em Petrópolis por seu filho.

 

 

São revistas como “Careta”, “O tico-tico” e “Fon-fon” — além de muitas outras; o artista trabalhou na maior parte das publicações do Rio de Janeiro, à época capital federal. São volumes encadernados, além de quase mil originais e desenhos esparsos. Filho de J. Carlos, Eduardo Augusto de Brito e Cunha ainda colecionou em álbuns as notícias que saíram sobre o pai depois de sua morte — e agora elas também estão no IMS, em regime de comodato, por pelo menos dez anos.

 

— É uma produção enorme e fascinante. Contei os dias de trabalho dele. J. Carlos começa em 1902 (na revista “Tagarela”) e trabalha até outubro de 1950. São 18 mil dias de trabalho! — afirma o cartunista Cássio Loredano, que já pesquisava o acervo desde 1995 e é consultor de iconografia do IMS.

 

REVISTAS EM BOM ESTADO

Loredano é o articulador da ida do acervo para a instituição. Ele começou a pesquisá-lo em 1995, indo à casa da família e fazendo cópias das publicações. Já publicou alguns livros a partir dessas pesquisas, como “O vidente míope — J. Carlos n’O Malho” (Folha Seca), em parceria com o historiador Luiz Antonio Simas; “J. Carlos contra a guerra” (Casa da Palavra), em colaboração com o colunista do GLOBO Arthur Dapieve; e “Carnaval de J. Carlos” (Lech), com Luciano Trigo, entre outros.

 

— Está tudo muito bem conservado. O filho do J. Carlos manuseava tudo sempre, então as publicações não estão nem amareladas. A “Careta” parece novinha. O acervo está em processo de higienização, ainda não começamos a pensar em exposições e publicações — afirma Julia Kovensky, coordenadora de iconografia do IMS.

 

A ideia de Loredano, colunista visual do GLOBO, é que outros pesquisadores possam ter acesso ao acervo, até por ter um olhar diferente do dele. Mesmo assim, o cartunista já tem pelo menos um outro livro na manga a partir do material que agora está no IMS.

— Quero fazer algo sobre o J. Carlos publicitário. Ele viveu uma época de grandes mudanças no Brasil, que se transformava de rural em urbano — destaca Loredano. — A fotografia ainda não estava popularizada, então usavam os desenhistas. Era a época de aquecimento a gás, eletricidade, automóvel, bondes, avião e o começo da televisão. Ele é o maior cronista visual possível do Brasil.

 

Naturalmente, o acervo não traz toda a produção de J. Carlos. Em primeiro lugar, porque tudo indica que ele se desfez do que publicou na revista “O Malho”, hoje arquivada na Biblioteca Nacional. Foi nela que o artista fez parte significativa da oposição a Getúlio Vargas, que logo depois chegou ao poder, pela revolução de 1930. O palpite de Loredano é que J. Carlos se ressentia desse período. Curiosamente, ele morreu na véspera da eleição de 1950, na qual Getúlio voltou democraticamente ao poder.

 

Estima-se que o artista tenha produzido mais de 100 mil desenhos. Ele disse certa vez que suas obras “davam para cobrir a Avenida Rio Branco”. Ele poderia voltar de táxi para casa, mas preferia o bonde — era o jeito de observar o cotidiano do Rio de Janeiro. J. Carlos trabalhou até o fim — estava debruçado sobre um desenho quando teve o derrame que o levaria à morte.

 

Fonte: O Globo

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COMPANHIA DAS LETRAS PUBLICARÁ SELO EM PORTUGAL

RIO — A partir de fevereiro, o Grupo Companhia das Letras publicará em Portugal um selo com o mesmo nome. Em conjunto com a Portugal Penguin Random House, a editora brasileira lançará autores, clássicos e contemporâneos, brasileiros e de língua portuguesa de outras nacionalidades . O primeiro livro a ser publicado no mercado português é o romance O irmão alemão, o mais recente de Chico Buarque. Lançado no Brasil em novembro de 2014, o livro já teve 100 mil cópias impressas.

 

Para 2015 estão garantidos, além de Chico Buarque, os clássicos Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, e nomes como Fernanda Torres, Sérgio Rodrigues e Raphael Montes. No Brasil, a Companhia das Letras passa a intensificar a publicação de autores portugueses. Já neste ano, será publicado o romance “A Biografia involuntária dos amantes”, de João Tordo, autor vencedor do Prêmio José Saramago.

 

Em Portugal, Companhia das Letras será o selo dedicado à publicação de autores de língua portuguesa de todas as nacionalidades, com 12 títulos planejados já para o primeiro ano.

 

Fonte: O Globo

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