LUIS FERNANDO VERISSIMO LANÇA NOVA COLETÂNEA NESTA SEMANA

Cronista fala sobre as falsidades do cotidiano e brinca com textos apócrifos que circulam na internet com sua assinatura

RIO – A mulher que tem 34 anos mas diz ter 52 (“completos”) para ser elogiada por parecer quase 20 anos mais jovem. A que atravessa a cidade disfarçada para trair o marido, usando cachecol em pleno verão, mas acaba refém de um bandido numa fuga transmitida em rede nacional. A que tenta convencer a neta de que teve um longo currículo de conquistas amorosas, do ator mexicano Gilbert Roland ao rei Juan Carlos da Espanha. Essas são algumas das protagonistas da nova coletânea de Luis Fernando Verissimo, “As mentiras que as mulheres contam”, que chega às livrarias nesta quinta-feira, pela editora Objetiva, com o humor que é marca registrada do escritor e colunista do GLOBO.

 

O livro é a continuação de um dos maiores best-sellers do autor, “As mentiras que os homens contam”, lançado pela mesma editora em 2000. Depois de retratar as falsidades do universo masculino naquela obra, Verissimo reuniu textos antigos e recentes no novo volume para atender uma demanda de seus leitores.

 

— Quando saiu “As mentiras que os homens contam” me perguntavam muito quando viria um livro sobre as mentiras das mulheres, e eu respondia que nunca, porque seria um livro grande demais. Mas, no fim, ele saiu do mesmo tamanho do outro. Acho que empatamos — diz o escritor, de 79 anos, que enxerga uma diferença entre o modo de mentir masculino e o feminino: — Gosto das mentiras improváveis, sustentadas heroicamente contra todas as evidências em contrário. O homem faz mais isso do que a mulher.

 

‘FUNÇÃO SOCIAL’ DA MENTIRA

 

As histórias do novo livro trazem algumas “mentiras improváveis”. Algumas terminam em tragédia, como em “Isabel”, raro texto sombrio na obra solar de Verissimo, com uma protagonista que finge ser outra pessoa para conquistar um homem cego. Outras flertam com o absurdo, como na história da mulher-fantasma que assombra os bailes semanais do Clube dos Subgerentes, na Barra da Tijuca, em busca de um par de dança.

 

A maior parte do livro, porém, é composta pelas observações concisas e irônicas sobre o cotidiano que os leitores de Verissimo aprenderam a admirar desde 1969, quando ele começou a publicar crônicas no jornal gaúcho “Zero Hora”. São aquelas mentiras prosaicas, que passam quase despercebidas, como o uso da expressão “um minutinho” para enrolar alguém indefinidamente ou o sorriso amarelo para o presente de mau gosto.

 

— A mentira tem uma função social importante. A gente mente para não magoar, para evitar conflitos, para salvar casamentos e principalmente para não se incomodar. A sinceridade é uma virtude supervalorizada — brinca o escritor.

 

Verissimo vê com menos benevolência a falsidade na política, tema recorrente de suas colunas publicadas no GLOBO às quintas-feiras e aos domingos. Para o autor, o debate público brasileiro hoje está dominado pela hipocrisia e pela falta de diálogo entre lados opostos. Numa crônica de setembro, ele escreveu que, na história do país, “nunca as ‘verdades’ de cada um foram tão antagônicas, e nunca os antagonistas se xingaram tanto”.

 

— Há uma falta de civilidade assustadora e crescente no debate político brasileiro. E aí entra raiva, entra insulto, entra intolerância, e a mentira acaba nem sendo o pior dos efeitos do clima ruim — diz Verissimo.

 

GRAÇA COM A PASSAGEM DO TEMPO

 

Um dos mestres da crônica no Brasil, admirador e herdeiro de grandes cronistas como Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Antonio Maria, Verissimo já disse que o gênero pode ser definido como “a liberdade absoluta”, pois permite tudo, do comentário político à ficção. Com personagens, diálogos e tramas ágeis, os textos de “As mentiras que as mulheres contam” brincam com o formato do conto. Filho do autor de alguns dos mais populares romances brasileiros do século XX, Erico Verissimo, o cronista também já se aventurou pela narrativa longa, em livros como “Os espiões” (2009) e “O clube dos anjos” (1998), ambos pela Objetiva.

 

— A ficção é sempre uma invenção, o que não significa que seja sempre uma invenção mentirosa. Há autores que inventam grandes verdades — define o escritor.

 

Nos últimos anos, Verissimo se acostumou a ver outro tipo de invenção: os textos apócrifos que circulam pela internet com sua assinatura. Mas não demonstra incômodo com as imitações — e até brinca com a possibilidade de cometer uma também.

 

— Não há como evitar os textos apócrifos. Se eu fosse escrever um, começaria por cima: Jorge Luis Borges — diz Verissimo, que já homenageou o escritor argentino colocando-o como personagem de seu romance “Borges e os orangotangos eternos”, lançado pela Companhia das Letras em 2000.

 

A caminho de completar 80 anos, em setembro de 2016, Verissimo faz graça com a passagem dos anos em vários textos de “As mentiras que as mulheres contam”. Um deles inclui um poeminha satírico sobre as mentiras do tempo: “Depois de certa idade/ é temerário/ fazer aniversário/ Que agonia!/ Todo ‘parabéns’ soa,/ mesmo dito numa boa,/ como ironia”.

 

— A gente se distrai e, quando vê, está com 80 anos. É injusto isso — observa.

 

Leia trecho: ‘As mentiras que as mulheres contam’

 

Isabel

 

Apontamentos para uma história de horror. Ou um novelão. Uma mulher — trinta e quatro, trinta e cinco anos, solteira, tímida, poucos amigos, morando sozinha — está um dia olhando os novos lançamentos numa livraria, pois seu maior prazer é a leitura, quando sente uma mão no seu braço e ouve uma voz de homem que diz:

 

— Vamos?

 

Ela vira-se, já pronta para repelir o homem rispidamente, como faz com todos que ousam importuná-la, quando nota que o homem é cego. Fica sem saber o que dizer. O homem estranha o silêncio, aperta o seu braço e diz:

 

— Isabel?

 

E ela, sem saber por que, mas com a intuição de que a sua vida a partir daquele instante será outra, o coração batendo, diz:

 

— Sim…

 

— Vamos?

 

E ela, o coração batendo:

 

— Vamos.

 

O homem é mais moço do que ela. Bonito. Bem vestido. Bem cuidado. Deixa-se guiar por ela, fazendo perguntas sem muito interesse. Por que estão pegando um táxi e não o carro? Ela diz que perdeu a chave do carro na rua. Ele sorri e diz “Você…”. Quando chegam no apartamento dela ele pergunta onde estão. Ela diz “Em casa…”, e ele diz “Estranho…”. Mas não diz mais nada.

 

Fonte: O Globo

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DIREITOS AUTORAIS DE ‘O DIÁRIO DE ANNE FRANK’ GERAM POLÊMICA

No ano em que a morte da adolescente judia completa 70 anos, best-seller vira impasse mundial

RIO — Todos os anos, o mercado editorial saliva à espera da lista de obras literárias que caem em domínio público, o que acontece sempre no dia 1º de janeiro seguinte ao aniversário de 70 anos da morte do autor, segundo a legislação da maioria dos países. É quando as editoras podem valer-se dos textos originais para fazer novas traduções, adaptações, remixes — sem pedir a autorização e sem pagar por isso. Este ano, por exemplo, entrou em domínio público “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry — e não por acaso o mundo todo viu pipocar novas versões e produtos do principezinho, suas roseiras e asteroides.

 

No dia 1° de janeiro de 2016, cai em domínio público outra obra suculenta comercialmente: a versão original do “Diário de Anne Frank”. Com mais de 35 milhões de exemplares vendidos no planeta, a primeira edição do livro foi publicada em 1947 pelo pai da adolescente judia, Otto Frank, morto em 1980, logo depois de encontrar e reunir os diários escritos por Anne num esconderijo em Amsterdã, enquanto fugia da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Como Anne morreu em 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, e se o “Diário de Anne Frank” foi escrito por ela, a informação parece inconteste, certo? Não necessariamente.

 

Quem contesta é a Anne Frank Fonds — fundação suíça criada por Otto Frank em 1963 para administrar os direitos autorais da obra. A instituição causou polêmica ao divulgar nota, este ano, no jornal holandês “NRC Handelsblad”, afirmando que o “Diário de Anne Frank” não entrará em domínio público em 2016 porque o pai da autora seria coautor da obra; como Otto Frank morreu em 1980, ela só estaria “livre” comercialmente em 2051.

 

Para entender a intrincada relação de autoria, que se tornou um case mundial para discussões sobre domínio público, primeiro é preciso saber que existem quatro versões do diário: a chamada versão A, que são os escritos originais de Anne, enquanto esteve escondida no esconderijo da família, em Amsterdã, na Holanda; a versão B, reescrita pela própria Anne depois de um chamado ouvido no rádio enquanto estava no esconderijo, em março de 1944, quando o então ministro holandês Gerrit Bolkestein conclamou a população a guardar documentos sobre a guerra. Foi quando a jovem entendeu que o que escrevia poderia de fato virar uma publicação futura, e passou a reescrever, modificando nomes e referências, incluindo trechos novos e abreviando outros.

 

Existe ainda a versão C, que é a primeira reescrita por Otto para a publicação do “Diário…”, em 1947, quando ele excluiu trechos considerados privados. E há ainda a versão D, de 1991, feita pela pesquisadora Mirjam Pressler, sob autorização da Anne Frank Fonds, somando trechos das versões A e B à versão C.

 

Representante do escritório Silveiro Advogados, contratado pela Anne Frank Fonds este ano para garantir que nenhuma versão do livro apareça sem pagar os devidos direitos no Brasil, Rodrigo Azevedo detalhou em mensagem ao GLOBO o posicionamento da instituição: “Indiscutivelmente, Anne Frank detém a autoria exclusiva das versões A e B do ‘Diário…’ Porém, mais complexa é a circunstância que envolve a criação das versões C e D, sendo esta última justamente a obra que atualmente se encontra em circulação. Tanto na versão C quanto na D, o processo criativo foi diretamente influenciado por novas pessoas, gerando um resultado final inquestionavelmente diverso. Assim, cabe verificar se seriam essas modificações e rearranjos suficientes para qualificar as versões C e D como novas obras protegidas, o que, naturalmente, conduziria a diferentes prazos de duração dos direitos patrimoniais de autor, notadamente sabendo-se que Otto Frank faleceu apenas em 1980 e que Mirjam Pressler ainda vive. Desse modo, a versão atualmente em circulação (D), bem como o texto organizado por Otto Frank (C), na condição de obras derivadas, possuem prazos de proteção autoral independentes em relação aos textos originais, os quais seguirão vigentes ainda por décadas”.

 

O imbróglio é tema de discussão entre especialistas do direito autoral por todo o mundo, em escritórios e universidades. O GLOBO consultou dois especialistas: o advogado brasileiro Sérgio Branco e a advogada holandesa Emilie Kannekens, que faz mestrado sobre a questão.

 

Fonte: O Globo

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‘O QUE SE VÊ NO BRASIL HOJE É UMA OFENSIVA FEROZ CONTRA OS ÍNDIOS’

Antropólogo lança livro 'Metafísicas canibais' e expõe fotografias na mostra 'Variações do corpo selvagem'

RIO – Certa vez, ao dar uma palestra em Manaus, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro deparou-se com uma plateia dividida entre cientistas e índios. Enquanto apresentava suas teses sobre o perspectivismo ameríndio, conceito desenvolvido a partir da cosmologia dos povos com que estudou na Amazônia, notou que a metade branca da plateia ia perdendo o interesse. No fim da palestra, diante do silêncio dos cientistas, uma índia pediu a palavra para alertá-los: “Vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo. Ele está dizendo o que a gente sempre disse”.

 

A cena, relembrada por Viveiros de Castro em entrevista ao GLOBO, remete a uma das teses centrais de seu novo livro, “Metafísicas canibais” (Cosac Naify e n-1 Edições). O autor descreve-o como a “resenha” ou “sinopse” de uma obra que nunca conseguirá concluir e que se chamaria “O Anti-Narciso”. Nela, aproximaria filosofia e antropologia, Deleuze e Lévi-Strauss, para investigar a pergunta: “o que deve conceitualmente a antropologia aos povos que estuda?”. As culturas e sociedades pesquisadas pelos antropólogos, escreve, “influenciam, ou, para dizer de modo mais claro, coproduzem” as teses formuladas a partir dessas pesquisas.

 

Um dos mais influentes antropólogos hoje, autor de “A inconstância da alma selvagem” (Cosac Naify, 2002) e professor do Museu Nacional da UFRJ, Viveiros de Castro desenvolve em “Metafísicas canibais” suas ideias sobre o perspectivismo, formadas a partir de ideias presentes em sociedades amazônicas sobre como humanos, animais e espíritos veem-se a si mesmos e aos outros. Ele descreve a antropologia como uma forma de “tradução cultural” e pleiteia que seu ideal é ser “a teoria-prática da descolonização permanente do pensamento”. O que implica reconhecer a diferença e a autonomia do pensamento indígena: “não podemos pensar como os índios; podemos, no máximo, pensar com eles”.

 

Os primeiros contatos de Viveiros de Castro com esse universo estão registrados nas fotografias que fez durante o trabalho de campo com os índios Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina, entre meados dos anos 1970 e início dos 1990. Parte dessas fotos será exibida pela primeira vez na exposição “Variações do corpo selvagem”, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a partir do dia 29 de agosto. Com curadoria da escritora e crítica de arte Veronica Stigger e do poeta e crítico literário Eduardo Sterzi, a mostra reúne ainda fotos feitas pelo antropólogo nos anos 1970, quando trabalhava com o cineasta Ivan Cardoso, mestre do gênero “terrir” e diretor de filmes como “O segredo da múmia” (1982) e “As sete vampiras” (1986).

 

Em entrevista por e-mail, Viveiros de Castro, de 64 anos, fala sobre o livro e a exposição e discute outros temas de sua obra e sua atuação pública, como a crise climática, abordada em “Há mundo por vir?” (Cultura e Barbárie, 2014), que escreveu com a filósofa Déborah Danowski, com quem é casado. Fala também sobre a resistência dos índios contra o “dispositivo etnocida” armado contra eles no Brasil, que mira “suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia e sua autonomia política interna”.

 

Numa nota em “Metafísicas canibais”, você comenta que, sempre que expôs a ouvintes ameríndios suas teses sobre o perspectivismo, eles perceberam as implicações que elas poderiam ter para “as relações de força em vigor entre as ‘culturas’ indígenas e as ‘ciências’ ocidentais que as circunscrevem e administram”. Quais seriam essas implicações? O que interlocutores ameríndios costumam lhe dizer sobre o perspectivismo?

 

“Sempre que” é um pouco exagerado; dá impressão que eu faço tours de seminários sobre o pensamento indígena para ouvintes indígenas… Eu tinha em mente, naquela nota, uma ocasião em particular. Em 2006, a convite do Instituto Socioambiental, fiz uma palestra para uma plateia de cientistas do INPA, em Manaus, sobre as cosmologias amazônicas e as concepções indígenas da natureza da natureza, por assim dizer. Ao entrar na sala, descobri, com não pouca ansiedade, que apenas metade da plateia era composta de cientistas (biólogos, botânicos, pedólogos etc.) — e que a outra metade da sala estava cheia de índios do Rio Negro. Falar do que pensam os índios diante de uma plateia de índios não é exatamente uma situação confortável. Decidi então apresentar uma versão esquemática do que eu sabia a respeito do modo como o que chamei de “perspectivismo ameríndio” se manifestava nas culturas rionegrinas (povos Tukano e Aruaque, principalmente). No meio da palestra fui percebendo os cientistas cada vez menos interessados naquilo, e os índios cada vez mais agitados. Na hora das perguntas, nenhum cientista falou nada. Os índios, com sua cortesia habitual, esperaram os brancos presentes pararem de não dizer nada até que eles começassem a falar. Uma senhora então se levantou e, dirigindo-se à metade branca e científica da plateia, disse: “vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo.

 

Ele está dizendo o que a gente sempre disse: que vocês não veem as coisas direito; que, por exemplo, os peixes, quando fazem a piracema (a desova) estão na verdade, lá no fundo do rio, transformados em gente como nós, fazendo um grande dabucuri (cerimônia indígena típica da região)”. E outro índio perguntou: “aquilo que o professor disse, sobre os morros da região serem habitados por espíritos protetores da caça, é verdade. Mas isso quer dizer então que destruir esses morros com garimpo e mineração é perigoso, não é mesmo? E não quereria dizer também que índio não pode ser capitalista?” Percebi, naquele confronto entre cientistas que estudam a Amazônia e os índios que vivem lá, que os primeiros estão interessados apenas no saber indígena que interessa ao que eles, cientistas, já sabem, isto é, àquilo que se encaixa na moldura do conhecimento científico normalizado. Os índios são “úteis” aos cientistas na medida em que podem servir de informantes sobre novas espécies, novas associações ecológicas etc. Mas a estrutura metafísica que sustenta esse conhecimento indígena não lhes dizia absolutamente nada, ou era apenas um ornamento pitoresco para os fenômenos reais. E os índios, ao contrário, se interessaram precisamente pelo interesse de um branco (eu) sobre isso. O que me deu muita coisa a pensar.

 

Mais geralmente, porém, tenho tido notícia da difusão lenta e episódica, mas real, de meus escritos (e os de meus colegas) sobre isso que chamei de “perspectivismo” junto a pensadores indígenas, ou muito próximos politicamente a eles, em outros países da América Latina (o livro foi traduzido para o espanhol, assim como diversos artigos de mesmo teor). Isso me alegra e, por que não dizer, envaidece muito. Mil vezes poder servir, com esses meus escritos aparentemente tão abstratos, à luta indígena pela autonomia política e filosófica que ser lido e comentado nos círculos acadêmicos — o que também não faz mal nenhum, bem entendido.

 

No livro, você pergunta: “O que acontece quando se leva o pensamento nativo a sério?”. E continua: “Levar a sério é, para começar, não neutralizar”. Partindo destes termos, quais são as maiores ameaças de “neutralização” do pensamento indígena no Brasil hoje?

 

Neutralizar este pensamento significa reduzi-lo ao efeito de um complexo de causas ou condições cuja posse conceitual não lhes pertence. Significa, como escrevi no livro, pôr entre parênteses a questão de saber se e como tal pensamento ilustra universais cognitivos da espécie humana, explica-se por certos modos de transmissão socialmente determinada do conhecimento, exprime uma visão de mundo culturalmente particular, valida funcionalmente a distribuição do poder político, e outras tantas formas de neutralização do pensamento alheio. Trata-se de suspender tais explicações-padrão, típicas das ciências humanas, ou, pelo menos, evitar encerrar a antropologia nela. Trata-se de decidir, em suma, pensar o outro pensamento como uma atualização de virtualidades insuspeitas do pensamento em geral, o “nosso” inclusive. Tratá-lo como tratamos qualquer sistema intelectual ocidental: como algo que diz algo que deve ser tratado em seus próprios termos, se quisermos respeitá-lo e incorporá-lo como uma contribuição singular e valiosa à nossa própria e orgulhosa tradição intelectual. Só depois disso poderemos, se tal for nossa veleidade, anatomizá-lo e dissecá-lo segundo os instrumentos usuais da redução científica das práticas de sentido humano.

 

Mas sua pergunta acrescentava “no Brasil hoje”. No Brasil hoje o que se vê é muito mais que uma “neutralização do pensamento nativo”. O que se vê é uma ofensiva feroz para acabar com os nativos, para varrer suas formas de vida (e portanto de pensamento) da face do território nacional. O que se pretende hoje — o que sempre se pretendeu, mas hoje os métodos são ao mesmo tempo cada vez mais sutis e eficazes sem deixarem de ser brutais como sempre foram — é silenciar os índios, desindianizar todo pensamento nativo, de modo a transformar aquela caboclada atrasada toda que continua a “rexistir” (este é o modo de existência dos índios no Brasil hoje: a “rexistência”) em pobre, isto é, em “bom brasileiro”, mal assistencializado, mal alfabetizado, convertido ao cristianismo evangélico por um exército de missionários fanáticos, transformado em consumidor dócil do estoque infinito de porcarias produzidas pela economia mundial. Em suma: fazer do índio (os que não tiverem sido exterminados antes) um “cidadão”. Cidadão pobre, é claro. Índio rico seria uma ofensa praticamente teológica, uma heresia, à ideologia nacional. Para fazê-lo passar de índio a pobre, é preciso primeiro tirar dele o que ele tem — suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecológicos e morais de sua economia, sua autonomia política interna —‚ para obrigá-lo a desejar consumir o que ele não tem — o que é produzido na terra dos outros (no país do agronegócio, por exemplo, ou nas fábricas chinesas).

 

Como avalia o estado atual das mobilizações indígenas contra intervenções do Estado em seus modos de vida, como na região do Xingu, com a construção da usina de Belo Monte?

Os índios fazem o que podem. Estão lutando contra uma máquina tecnológica, econômica, politica e militar infinitamente mais poderosa do que eles. No caso de Belo Monte, já perderam. Mas não sem dar um bocado de trabalho ao “programa” que esse governo, cujo ódio estúpido aos índios só é comparável ao que se via nos sombrios tempos da ditadura, vai implantando a ferro e a fogo na Amazônia inteira, inclusive fora do Brasil. Mas a luta continua, e ainda tem muito índio disposto a resistir (a “rexistir”) ao dispositivo etnocida armado contra eles, no Mato Grosso do Sul, no Tapajós, no Xingu, no Rio Negro e por aí afora.

 

Você tem trabalhado com o conceito de Antropoceno (que já definiu como o momento em que “o capitalismo passa a ser um episódio da paleontologia”) para alertar sobre os efeitos destrutivos da ação humana sobre o planeta. O que precisa mudar no debate público sobre a crise climática?

 

Muito. Isso tudo vai descrito no livro que coautorei com a filósofa Déborah Danowski, “Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins”, onde comparamos, de um lado, os efeitos já instalados e aqueles por vir da catástrofe ecológica desencadeada pela economia movida a combustíveis fósseis, e tudo o que vem com ela (inclusive o capitalismo financeiro e cognitivo), com os modos com que esse tema arquimilenar, o “fim do mundo”, vem sendo tematizado pela imaginação estética, política e mitológica de nossa própria civilização moderna, de outro lado. E por fim, tecemos considerações sobre como a “mudança de Era” (como dizem os camponeses nordestinos para se referir aos efeitos já palpáveis das mudanças climáticas) por que passamos hoje é pensada pelos índios, em suas mitologias e em sua prática ecopolítica concreta. Penso que as ciências humanas têm sido lentas em assumir que esta questão, que a palavra “Antropoceno” resume, é a questão mais grave e urgente da história humana desde o começo da era Neolítica, e que estamos entrando em uma situação inédita para a espécie como um todo.

 

O debate na esfera pública tem sido laboriosamente mitigado, quando não silenciado, por uma poderosíssima máquina de propaganda financiada pelos principais interessados no status quo, a saber, as grandes corporações petroleiras e outras, como a Monsanto, a Nestlé, a Bunge, a Dow, a Vale, a Rio Tinto etc. Sem falarmos nos governos nacionais, meros instrumentos de polícia desses atores econômicos. Mas as coisas começam a mudar, devagar, mas mudando. Infelizmente, “devagar” é péssimo. Porque a aceleração dos processos de desequilíbrio termodinâmico do planeta marcha em ritmo crescente. O tempo e o espaço entraram em crise, escapam-nos por todos os lados. Hoje a luta política fundamental, a ser levada a nível mundial, é a luta pela liberação do espaço e do tempo.

 

Você afirma que o perspectivismo não é uma forma de relativismo cultural e, ao conceito corrente de “multiculturalismo”, contrapõe a noção de “multinaturalismo”. Quais são os problemas do relativismo cultural e como o multinaturalismo os evita?

 

O relativismo cultural é, ao menos como costumeiramente divulgado pela vulgata ideológica dominante, meramente a ideia de que existem várias opiniões sobre o mundo, o universo ou a “realidade”, mas que esta “coisa lá fora” (o mundo etc.) é uma só. Entre essas várias opiniões, há uma certa — a nossa, ou melhor, aquela que acreditamos ser a verdade cientifica (e 99,99% dos que acreditam nela não sabem em que estão acreditando). O resto é “cultura”, superstição, visões exóticas de gente que vive “fora da realidade”. Em relação a essa gente, podemos e até devemos mostrar um pouco de tolerância (afinal, são apenas opiniões, “visões de mundo”), devemos ser “multiculturalistas”. Mas a Natureza, com N maiúsculo, é uma só, e independe de nossas opiniões (exceto da minha, isto é, a da “Ciência” que nos serve de religião laica). O que chamei de “multinaturalismo” ou de “perspectivismo multinaturalista”, para caracterizar as metafísicas indígenas, supõe a indissociabilidade radical, ou pressuposição recíproca, entre “mundo” e “visão”. Não existem “visões de mundo” (muitas visões de um só mundo), mas mundos de visão, mundos compostos de uma multiplicidade de visões eles próprios, onde cada ser, cada elemento do mundo é uma visão no mundo, do mundo — é mundo. Para este tipo de ontologia, o problema que se coloca não é o da “tolerância” (só os donos do poder são “tolerantes”), mas o da diplomacia ou negociação intermundos.

 

Você defende uma concepção de antropologia como “descolonização permanente do pensamento”. Como ela pode fazer isso? Quais são os maiores impasses da disciplina hoje?

 

Vou responder rapidamente, ou os leitores não precisarão ler o livro… Trata-se de tomar o discurso dos povos que estudamos (os “nativos”, sejam quem forem) como interlocutores horizontalmente situados em relação ao discurso dos “observadores” (os “antropólogos”). O que a antropologia estuda são sempre outras antropologias, as antropologias dos outros, que articulam conceitos radicalmente diversos dos nossos sobre o que é o anthropos, o “humano”, e sobre o que é o logos (o conhecimento). Descolonizar o pensamento é explodir a distinção entre sujeito e objeto de conhecimento, e aceitar que só existe entreconhecimento, conhecimento comparativo, e que a antropologia como “estudo do outro” é sempre uma tradução (e uma tradução sempre equívoca) para nosso vocabulário conceitual do estudo do outro. O maior desafio vivido hoje pela antropologia é o de aceitar isso e tirar daí todas as consequências, inclusive as consequências políticas.

 

As fotografias reunidas em “Variações do corpo selvagem” remetem ao seu trabalho de campo com os Araweté, Yanomami, Yawalapiti e Kulina. Quais foram suas maiores descobertas nos encontros com esses povos?

 

Tudo o que eu escrevi sobre eles.

 

Fonte: O Globo

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MARATONISTA HÁ 20 ANOS, DRAUZIO VARELLA LANÇA LIVRO SOBRE CORRIDA

‘Correr’ foi lançado no último sábado (25), no evento Rio Run Market

RIO — Corredor de maratonas há 20 anos, o médico paulista Drauzio Varella é crítico feroz do sedentarismo e do sobrepeso. Segundo ele, quem não faz ao menos 30 minutos de exercício por dia está vivendo de forma errada. Drauzio lança seu livro mais recente, ‘Correr’, no último sábado (25), durante a Rio Run Market, a feira que antecede a Maratona do Rio, prova que já completou algumas vezes.

 

 
O senhor está com 72 anos e corre maratonas. Quando é a hora de parar?
 
Enquanto as pernas aguentarem. Digo isso no meu livro. Sei que tem uma hora em que não vai dar mais. Mas não estou perto dela. Na verdade, não há conhecimento científico sobre os limites do corpo porque o ser humano não vivia tanto. Ainda são poucas as pessoas com mais de 70 anos que correm maratonas. O grande teste será ver como as pessoas que estão na meia-idade agora e correm, ou são ativas de outra forma, estarão quando chegarem aos 70 anos ou mais. Hoje, me considero o mais saudável dos meus amigos.
 
O senhor começou a correr maratonas aos 50 anos. Há uma época ideal?
 
Mais cedo teria sido melhor. Mas nunca é tarde para começar.
 
Muita gente vê a maratona como um desafio quase impossível. O que há de verdade nisso?
 
Na verdade, a maratona exige disciplina, treinamento. Mas é factível para a maioria das pessoas que treinam para isso. O lado psicológico é muito importante. É ele que nos faz levar uma vida mais regrada. Não exagerar na bebida. Não comer demais. No meu caso, fico mesmo mais antissocial, porque não dá para fazer um jantar, tomar um vinho e ficar acordado até tarde e fazer um treino longo no dia seguinte. É preciso vontade e disciplina. Mas correr uma maratona não é tão difícil assim.
 
Há quem considere que a maratona causa muito desgaste. É fato?
 
Você pode sofrer durante a prova, pode ser muito dura. Já passei por momentos em que achei que ia parar. Mas sempre encontramos forças e prosseguimos. Fico ótimo depois da prova. Não fico destruído. Tomo um banho e estou novo. A sensação de concluir uma maratona é maravilhosa. Felicidade e satisfação indescritíveis. Dá um barato que não tem quem pague.
 
A crença de que a corrida destrói os joelhos tem fundamento?
 
É uma bobagem. Um mito. No meu livro cito um estudo muito interessante. Ele mostra que, na verdade, não-corredores têm mais lesões nos joelhos do que corredores. Corro maratonas há mais de 20 anos e nunca tive problemas nos joelhos.
 
A maratona é para todo mundo?
 
É para quem gosta. Você pode adorar correr e nunca ter vontade de fazer uma maratona. Além da disciplina, há ainda o componente genético. Homens muito grandes e pesados sofrerão mais, claro. Vejo rapazes hipertrofiados correndo com um esforço enorme. Isso acontece porque, de fato, aquele corpo bombado de academia é tão pouco saudável quanto o de um sedentário.
 
O senhor faz alguma dieta especial para correr maratonas?
 
Não. Nunca fiz. Esse é outro mito. Não acredito em suplementos. Não trazem resultado. O importante é ter uma alimentação equilibrada com frutas, verduras, legumes. E não abusar de nenhum alimento. Nas semanas que antecedem uma maratona é preciso ingerir mais carboidratos, mas com moderação.
 
O senhor destaca sempre a importância do exercício. Qual o papel dele em nossas vidas?
 
Não é que exercício faça bem. A vida sedentária é que faz mal.
 
Por que é tão difícil deixar o sedentarismo?
 
Porque desperdiçar energia é contra a natureza humana. Na verdade, é contra a natureza de qualquer animal. Essa tendência natural é uma necessidade ancestral de economizar energia, surgida numa época em que não havia comida fácil. Agora vivemos num ambiente de comida abundante, gostosa e relativamente barata. O resultado é acumular gordura. Para você vencer a tendência ao sedentarismo, precisa de disciplina.
 
Temos tendência natural a acumular gordura…
 
Sim. E o resultado é impressionante. E as pessoas não engordam apenas por fora. O fígado acumula uma quantidade impressionante de gordura. Inclusive o das crianças. Isso é extremamente nocivo. A obesidade causa dependência, perda de mobilidade, suscetibilidade a doenças. Tenho um paciente que precisou fazer uma cirurgia bariátrica para emagrecer e me disse “sabe o que é felicidade, doutor? É poder amarrar o sapato”. Isso é muito triste.
 
Há aqueles que fazem exercício apenas no fim de semana e acham que se exercitam. Por exemplo, jogar futebol uma vez por semana é praticar exercício?
 
Claro que não. Primeiro que futebol assim não é esporte. É um jogo. E um jogo que destrói os joelhos.
 
Que conselho dá a um sedentário?
 
Se você não tem 30 ou 40 minutos por dia para fazer exercícios, está vivendo errado. Quando você conversa com um sedentário, ouve sempre uma ladainha de obrigações. Uma interminável história triste. Todo o tempo é absorvido pelo trabalho, pelos filhos, pela mãe doente, por uma lista infinita de problemas que, em tese, tomam todo o tempo. Mas precisamos ter tempo para nós.
 
As pessoas são muito autocondescendentes?
 
Sim. Há uma tendência a não se considerar responsável pela própria saúde. Mas cuidar da saúde cabe a nós mesmos. As pessoas têm ideias mirabolantes, procuram explicação divina, “Deus quis”. Ora, Deus lá tem tempo para provocar infartos? A frase “saúde é um bem de todos e um dever do Estado” é equivocada, um absurdo. É obrigação de cada um cuidar de si. Não comer demais, não se entregar ao sedentarismo. Quem não faz isso se expõe a um risco maior de doenças, custa mais caro para a saúde pública.
 
Mas o problema só aumenta…
 
Sim. Veremos uma discussão séria em saúde pública em pouco tempo. Está cada vez mais difícil arcar com os custos crescentes das doenças associadas à obesidade e ao sedentarismo. Por que alguém que se mantém no peso certo e se exercita terá que pagar as mesmas taxas de outro que conscientemente não faz isso e, logo, corre mais riscos? É justo? É uma discussão importante. Será que daqui a algum tempo não veremos as seguradoras de saúde adotarem a mesma estratégia que usam hoje com carros? Em vez de, por exemplo, cobrarem mais de quem está acima do peso, podem dar um “desconto” para os demais, assim como fazem hoje com quem usa menos o seguro de um automóvel.
 
Fonte: O Globo (com adaptações)

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EM NOVO LIVRO, ANTONIO RISÉRIO REFLETE SOBRE A RELAÇÃO ENTRE A MULHER E A CIDADE NO BRASIL E NO MUNDO

Em ensaios, antropólogo também analisa a vida e as obras de Carmen Portinho, Lina Bo Bardi e Lota de Macedo Soares

RIO – Antonio Risério é um intelectual à moda antiga. No seu livro recém-lançado, “Mulher, casa e cidade” (Editora 34), o antropólogo baiano constrói amplos arcos históricos, que vão da Antiguidade ao mundo contemporâneo, em artigos e ensaios que abordam a tensa relação entre a mulher e a cidade. Risério é capaz de apontar a ausência da urbanidade na obra da romancista japonesa do século XI Murasaki Shikibu e refletir sobre a contribuição decisiva de três mulheres para a arquitetura brasileira no século XX: Lota de Macedo Soares, Lina Bo Bardi e Carmen Portinho. Carmen foi uma das primeiras mulheres formadas em engenharia no país, e a responsável por construir as obras do seu marido, o arquiteto Afonso Reidy, como o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM).

 

Os textos reunidos no novo livro — que dá continuidade a algumas reflexões do elogiado “A cidade no Brasil” (Editora 34), publicado em 2012 — foram escritos ao longo de muitos anos. O pontapé inicial da obra foi uma palestra do antropólogo sobre a mulher e o espaço público na Escola da Cidade (uma instituição privada e não ligada à USP, como informado anteriormente) em 2012. A partir daí começou a recolher anotações e escritos antigos e viu que o assunto renderia um livro. No sábado passado, Risério recebeu o GLOBO para uma entrevista em Paraty, onde participou da mesa “A cidade e o território”, na Flip, com o poeta Eucanaã Ferraz. Ele afirmou que o movimento feminista foi o mais importante em séculos, ao introduzir a ideia de igualdade entre homens e mulheres, e disse que vê saída para as cidades brasileiras.

 

— Nós vivemos a maior crise urbana de toda a história do país. Se as pessoas forem sérias, tem saída. Você chega nos municípios hoje e os prefeitos não têm preocupação nenhuma com urbanismo, acham que é luxo. Agora, a sociedade tem que entrar na discussão. Se for ficar esperando, com essa crise que está aí, as cidades vão se deteriorar cada vez mais a cada dia.

 

O senhor defende que a casa é o ponto de partida do urbanismo. Por quê?

A casa tem que ser pensada em função da cidade. É ela que constrói a cidade. Não tem cidade sem casa. É preciso ter uma visão do sítio urbano, do entorno, o que significa aquilo historicamente. O mal foi que a arquitetura, principalmente a partir dos megaprojetos europeus, se afastou de forma insensata da antropologia, da sociologia e do urbanismo, e fez um casamento monogâmico com as belas-artes. Cada arquiteto quer fazer sua escultura. Mas você mora na cidade, não numa escultura. O Paulo Mendes da Rocha disse que o arquiteto não deve fazer uma casa que é “a cara do cliente”. Se o cara morre daqui a 50, 60 anos e a casa vai durar 300, a casa tem que ter a cara da cidade. Eu concordo totalmente.

 

A mulher é o terceiro vértice do livro, junto com a casa e a cidade. Onde a mulher entra nessa equação?

 

Este é o problema central. A mulher entra na casa convidada a habitar, ela não é construtora. Só muito recentemente as mulheres começaram a construir. As primeiras engenheiras do Brasil, como Carmen Portinho, são do século XX, os projetos de Lina Bo Bardi também. Entre os índios, mulher nunca construiu nada, nem na Antiguidade clássica. No Renascimento não há uma arquiteta. No Barroco brasileiro, não produzimos nenhuma “Aleijadinha”. As mulheres foram escanteadas, levadas a ocupar um lugar construído pelo homem. Dentro desse espaço ela criou a domesticidade, a intimidade doméstica, a ideia de conforto. Essa noção de conforto vem do próprio fato de cuidar do que ela pariu. Em alguns períodos históricos elas não tinham voz ativa sobre nada, como na casa medieval. Cada vez mais elas foram conquistando e definindo esse espaço.

 

Isso teve consequências até na produção literária, o senhor mostra.

 

A mulher não tem uma vivência da cidade como o homem tem. A minha hipótese é que a mulher foi confinada no espaço doméstico e isso fez com que ela não vivesse intensamente a cidade. Isso vai se refletir na criação literária. Você atravessa livros e livros de mulheres e nada. A cidade não tem concretude, densidade. E não é algo do Ocidente. Eu falo da japonesa Murasaki Shikibu, do século XI, escreveu um livro de mil e tantas páginas e não tem nada sobre a cidade japonesa. Ela era de Kyoto, capital do império Heian. Safo não fala de Mitilene, que era a cidade mais importante daquela época (século VII a.C.). A cidade marca muito fortemente a produção textual masculina, mas não a feminina. A mulher viaja dentro da casa e dentro dela, principalmente.

 

De que forma a sociabilidade da mulher na cidade é diferente do homem?

 

O homem é o rei do espaço público, de onde durante muito tempo as mulheres foram afastadas. No Brasil colonial, as mulheres eram trancafiadas dentro de casa. Gilberto Freyre fala que a casa e a rua eram inimigas. Elas não podiam ver as visitas que chegavam. Quando elas começam a falar e pensar em espaço público, os homens chamam logo atenção para o perigo, não para o prazer. A conquista desse espaço pela mulher é recente.

 

Qual a chave para entendermos essa permanência?

 

A chave é toda dominação masculina sobre as mulheres. Mulher nas sociedades indígenas era bem de troca. Nos povos árabes também não apitava nada. A grande mudança para o mundo é o movimento feminista. Isso vai mudar uma coisa de milênios. Esse negócio de igualdade entre homem e mulher é uma invenção moderna. No Brasil, as mulheres começaram a sair de casa no reinado de D. Pedro II. Falo das mulheres ricas porque as pobres não tinham isso. Também há essa grande distinção. As mulheres negras e pobres circulavam nas ruas do Brasil a mil. Se você pegar mais recentemente, é da classe média para cima que a rua era o problema, não para as classes populares. Como não existe uma literatura das classes populares, a não ser mais recentemente, não vemos a vivência feminina.

 

O senhor dedica três textos a Carmen Portinho, Lina Bo Bardi e Lota de Macedo Soares. Como seus trabalhos nos interpelam hoje?

 

Todas elas têm uma coisa em comum muito interessante que é criar espaços de convívio. O Parque do Flamengo (de Lota) é um lugar de convívio extraordinário. Claro que a sociedade ficou violenta e as coisas ficaram complicadas, mas são lugares para convívio. O Sesc Pompeia, em São Paulo, uma das criações de Lina, é um grande lugar de convívio. E Carmen se engajou na construção de conjuntos habitacionais populares complexos, que têm escola, academia, espaço de cultura. Era o conjunto habitacional da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

 

Isso é um show, o Brasil não teve nada igual em arquitetura popular. O projeto do Conjunto do Pedregulho é do marido dela, Afonso (Reidy), mas é ela que constrói. É engraçada essa inversão também. Ela é a engenheira que comanda os peões. Era a preocupação social da vanguarda arquitetônica mundial se refletindo no Brasil. Vargas chamou a vanguarda para fazer as coisas, uma intuição fantástica porque ele mesmo não entendia nada do assunto. Tinha ali uma preocupação de morar bem e de ter uma vida comunitária, tudo muito entrosado na cidade. Não era esse negócio de Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que joga longe, sem nenhuma infraestrutura, sem vínculo com a cidade. Estão construindo hoje as favelas de amanhã.

 

O programa atual mostra que a casa é pensada desvinculada da cidade?

 

O Minha Casa, Minha Vida é um lixo de projeto. Mal entregam as casas e estão todas cheias de rachaduras, infiltrações, tudo que fui visitar é um absurdo. Você olha o Pedregulho em comparação. Programa social é o que a ditadura de Vargas fez: habitação mínima, popular, digna, decente. Hoje isso se perdeu. Dilma fala em habitação digna. Qual? Ela vai morar ali? E Getúlio soube fazer as coisas, congelou o preço dos alugueis, fez a lei do inquilinato. Ninguém despejava ninguém. Os conjuntos eram propriedade do Estado, eram alugados. Ele viu logo que o problema de morar não podia ser deixado na mão do mercado. No caso do MCMV é escandaloso, as construtoras são donas dos terrenos nas cidades e decidem o que vai ser bairro de luxo e bairro de pobre. Quem faz a política urbana no Brasil hoje são as imobiliárias, não é o governo.

 

O senhor diz que é preciso buscar uma narrativa comum para as lutas de mulheres, negros, gays. O direito à cidade pode ser essa narrativa?

 

Tem que ser porque tudo passa por aí: transporte, discriminação, as próprias disparidades de classe que dificultam a realização plena do direito à cidade. É preciso um eixo. É o direito à cidade que vai poder unir tudo. Esses movimentos têm a sua especificidade, mas podem encontrar pontos em comum. Eu me manifesto pela liberação da maconha e pela preservação dos córregos da Vila Madalena em São Paulo. Essas coisas não se excluem. Você quer transporte público de qualidade, tem a luta contra o automóvel, isso interessa desde a favela aos condomínios de luxo. O difícil é encontrar esses elementos comuns numa cidade completamente cindida. Ninguém vive nos mesmos espaços. Numa cidade que exclui, que segrega, como você quer que o indivíduo se identifique com esse corpo cívico? Isso vai ter que ser construído.

 

Como o senhor vê o avanço conservador vivido hoje no Brasil?

 

A gente se enganou. Em termos culturais, comportamentais, o Brasil avançou muito menos do que pensávamos e agora nos assustamos com a onda conservadora. O país não avançou como a gente sonhou. Estávamos dançando três compassos à frente da música. E outra coisa: as pessoas não agridem um gay na rua para não serem presas, não porque aceitaram. Direitos têm que ser empurrados goela abaixo em nome da cultura liberal democrática. A gente não pode se enganar e tem que continuar avançando centímetro por centímetro como era na década de 1970. Não pense que as pessoas estão aceitando drogas, homossexualidade, porque o grosso da população não está. Uma cultura não muda nem em uma, nem em duas, nem em três décadas, é preciso um século. Mas eu falo assim do ponto de vista de quem é mais velho. É claro que algum avanço aconteceu. Claro que tem um avanço. Desde que eu me entendo por gente o Brasil já acabou diversas vezes. E continua aí.

 

Fonte: O Globo

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BIOGRAFIA DE MANUEL BANDEIRA CHEGARÁ ÀS LIVRARIAS COM 9 ANOS DE ATRASO

Escrito em 2006, texto teve a circulação impedida pelos herdeiros do poeta

RIO — Uma pequena biografia sobre Manuel Bandeira, escrita por Paulo Polzonoff Jr. há nove anos, vai, finalmente, chegar às lojas nas próximas semanas.

 

A decisão ocorre após a determinação do Supremo Tribunal Federal, no dia 10, de impedir a autorização prévia de biografias.

O texto, que integrava a coleção Perfis do Rio, teve, em novembro de 2006, a circulação barrada pelos herdeiros do poeta, que se incomodaram com o teor do livro.

 

— A família disse que já estava preparando uma biografia e não queria uma segunda. Também reclamou de questões controversas presentes no livro, como a associação de Bandeira à boemia e ao uso de cocaína. Por fim, alegou que o perfil seria um pretexto para publicar poemas do autor sem o pagamento de direitos autorais, o que é um absurdo, porque tivemos o cuidado de inserir apenas trechos que ilustravam a trajetória do autor — diz o editor Alberto Schprejer, da Relume Dumará, hoje propriedade da Ediouro.

 

Na época, foram entregues 500 exemplares do livro à Prefeitura, que apoiou o projeto dos Perfis do Rio. A obra, porém, nunca chegou às lojas.

 

Paulo Polzonoff Jr. diz que sequer lembra-se do conteúdo do livro:

— Consegui achar uma cópia num sebo. Vou reler. Mas estou feliz com a decisão.

 

Fonte: O Globo

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BEATRIZ SARLO RELEMBRA VIAGENS PELA AMÉRICA DO SUL

Livro mescla autobiografia e História

BURNOS AIRES – Tudo começou quando chegaram a suas mãos algumas fotos que a levaram a relembrar aventuras da juventude, quando ela e alguns companheiros universitários viviam guiados por um “populismo sentimentalista” e pelo desejo de viver, em carne própria, a “ilusão revolucionária latino-americana”. Foi assim, pelo correio, que a escritora argentina Beatriz Sarlo recebeu o impulso que marcou o nascimento de seu mais recente livro, “Viagens. Da Amazônia às Malvinas” (e-galáxia), que ganhará lançamento exclusivo em e-book na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na quarta-feira, dia 1º de julho, a autora abrirá a 13ª edição do evento, que homenageia Mário de Andrade, com a conferência “As margens de Mário”, e no sábado, dia 4, participará da mesa “Turistas aprendizes”, com a escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

 

 

Em entrevista ao GLOBO, Sarlo explica por que, na maioria dos capítulos, optou por uma narração através de um “coletivo, um protagonista plural”, que buscou representar “a experiência de um grupo de fanáticos, com alto grau de ingenuidade”, que durante vários anos compartilhou viagens por um continente que já não existe.

 

— Conhecemos uma América Latina épica, muito diferente da que existe hoje e tornou-se atração turística internacional — conta Sarlo, em seu escritório no centro de Buenos Aires.

 

Reviver o passado, porém, não tem a menor conotação melancólica para a autora. Não se trata de rememorar a juventude perdida. Nada disso. O objetivo é outro:

— Gostaria de transmitir uma experiência com o diferente. Este é um livro benevolente com tudo o que é diferente, com um alto grau de ingenuidade.

 

Seja numa travessia pelas províncias do Norte da Argentina; em visita à recém-inaugurada Brasília, na década de 60; durante uma inesquecível convivência com uma tribo de jibaros na Amazônia peruana ou numa cobertura jornalística nas Ilhas Malvinas, Sarlo mostra experiências que abriram seus olhos e, em alguns casos, os de seus companheiros de viagem.

 

Era um grupo pequeno, menos de dez pessoas, unidas pela vontade de conhecer o território latino-americano em travessias por terra e mar, realizadas com grande esforço físico. Estudantes de várias universidades portenhas, entre elas Arquitetura, Letras (no caso da escritora) e Fisioterapia, entre outras, que aproveitaram vários verões para conhecer outras cidades e países, levando em suas bagagens apenas uma bolsa de dormir e um casaco. “Éramos amigos do trekking”, resumiu Sarlo.

 

MERGULHO NAS REALIZADES LOCAIS

A viagem a Brasília foi longa e incluiu vários meios de transporte: caminhão, ônibus e barca. Depois de uma breve passagem pelo Rio, o grupo chegou ao destino sonhado, onde queria “estar em contato com o modernismo da arquitetura brasileira”. A meta era ver de perto o trabalho de Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Roberto Burle Marx, entre outros.

 

— Um dos colegas estudava arquitetura, mas eu também estava muito envolvida com as estéticas de vanguarda — diz a escritora, que sempre se interessou por arquitetura.

Sarlo se lembra muito bem do que viu na visita a Brasília, uma cidade, afirmou, “que já não é a mesma”:

 

— Fomos uns dos últimos que vimos uma Brasília recém-inaugurada, praticamente deserta.

O grupo dormia, quase sempre, em edifícios públicos. A comodidade não era uma questão relevante. O importante, para todos, era mergulhar nas realidades de cada um dos lugares que visitavam. Na Bolívia, viram de perto a revolução liderada pelo general Juan José Torres (presidente do país entre 1970 e 1971), um processo que cativou Sarlo e a fez pensar em trocar Buenos Aires por La Paz. Um dos capítulos do livro conta a viagem a uma Bolívia em estado revolucionário, onde os estudantes tiveram acesso às mais altas autoridades do Palácio Quemado, entre eles o ministro de Urbanismo, que, uma vez derrubado o governo de Torres, pediu ajuda a seus amigos argentinos quando chegou, de trem, a Buenos Aires.

 

— Sem conhecer ninguém em La Paz, pedimos uma entrevista com o ministro de Urbanismo e no dia seguinte estávamos comendo em sua casa. Isso é impensável hoje, uma loucura.

 

Ela recorda “outra América Latina, que vivia com uma expectativa revolucionária muito intensa”.

 

— Era o clima da época, tinha ficado entusiasmada com o lugar e estabeleci uma relação intensa com a cultura boliviana, que mantenho até hoje. É uma dessas paixões que temos em nossa vida. Era jovem e nós éramos fanáticos por natureza — assegura.

 

Nos últimos anos, a escritora, que em 2003 encerrou suas atividades como professora de literatura argentina na Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA), deu cursos em universidades dos Estados Unidos e Inglaterra, entre elas Columbia, Berkeley e Cambridge. Sarlo é uma das grandes referências em estudos culturais no mundo, acaba de ser premiada na República Dominicana e já foi condecorada pelo governo brasileiro. Ela se reconhece como discípula da vertente britânica dos estudos culturais (Raymond Williams e Richard Owen) e destaca a influência de Roland Barthes em seu trabalho. Quando era uma estudante de Letras, porém, a jovem Sarlo queria apenas ter experiências locais, conhecer de perto outras culturas, encontrar igrejas e tribos perdidas pelo continente.

 

Na Amazônia peruana, outro dos capítulos de seu livro, os estudantes passaram uma semana vivendo com uma tribo de jibaros, encontrada quando eles estavam caminhando perdidos pela selva.

 

— Quando fomos à Amazônia não sabíamos que encontraríamos uma tribo de jibaros, se tivéssemos tido essa informação teríamos ido com certos preconceitos, porque era a tribo que, no passado, cortava cabeças — brinca Sarlo, que lembra do encontro como uma experiência incrível. — Eles nos detiveram, vestidos com suas roupas tradicionais. Com sinais, entendemos que tínhamos de ir com eles. Eram todos muito amáveis e nós tínhamos um amor instantâneo por qualquer camponês: éramos populistas sentimentais.

 

Foram vários dias de convivência, até que o Exército peruano descobriu que os jovens argentinos estavam numa região de conflito com o Equador (conflito que se mantém até hoje) e decidiu detê-los para averiguar quais eram seus objetivos.

 

— Queriam saber se estávamos fazendo espionagem para o Equador, essa é minha hipótese. Quando responderam que éramos cinco bobos, nos liberaram. Nós não sabíamos que era uma região de conflito, nossa ignorância era infinita.

 

CLIMA TERRÍVEL NAS MALVINAS

No capítulo “Uma estrangeira nas ilhas”, Sarlo narra sua experiência nas Malvinas, em 2012, segundo ela “a última viagem importante que terei feito em minha vida”. Ir às Malvinas não era algo pendente para a escritora. A questão representa um trauma para Sarlo que, em 1982, se opôs à invasão comandada pela última ditadura argentina (1976-1983). Ela e uma pequena minoria. Foi difícil enfrentar um respaldo quase unânime à última aventura dos ditadores argentinos, que acabaram dando um tiro no próprio pé. Perderam a guerra e, pouco depois, o poder.

 

— Foi um movimento patético de patriotismo territorial. Depois disso, nunca esteve em minha cabeça ir às ilhas, me parecia que não era preciso conhecê-las para pensar que os que moram lá têm direito a expressar seus interesses e suas necessidades sobre seu próprio destino — explicou Sarlo, uma das poucas intelectuais renomadas da cultura argentina que se atreve a expressar, publicamente, sua visão crítica sobre a política de recuperação das ilhas, defendida, com unhas e dentes, pelo kirchnerismo e pela maioria dos governos que vieram depois da ditadura.

 

A escritora foi às Malvinas em março de 2013, quando realizou-se um referendo sobre a soberania das ilhas. Enviada pelo jornal “La Nación”, Sarlo passou uma semana morando com uma família kelper (como são chamados os moradores) e confirmou tudo o que já pensava sobre o conflito:

 

— Quem viveu a guerra viu um soldado argentino, portanto, estrangeiro, batendo na porta da sua casa. Os que não viram, sabem que isso aconteceu e alimentaram fantasias sobre esse passado. Nenhum latino-americano sabe o que isso significa.

 

Para a escritora, “todos os argentinos patrioteiros deveriam morar um tempo nas Malvinas, até mesmo os patagônicos. O clima é verdadeiramente terrível. Eu estava equipada para ir à Antártida e tive frio o tempo todo”.

 

— Eles (os kelpers) amam essas ilhas. É um povo instalado. Os jovens terminam sua escolaridade na Inglaterra, moram dez anos por lá e, em 70% dos casos, depois voltam para as Malvinas — diz Sarlo, que, para encerrar sua posição, indaga:

 

— O que aconteceria se todas as fronteiras europeias voltassem ao que eram no século XIX?

Sua frustração, reconhecida e detalhada no livro, foi não ter conseguido se aproximar dos jovens que moram nas ilhas. Nem mesmo suas “botas vermelhas, que fora de Buenos Aires sempre provocam comentários”, conseguiram abrir as portas de uma conversa mais profunda com as adolescentes da família que a hospedou.

 

— Tentei me aproximar dos mais jovens, mas não houve jeito. O hermetismo foi total.

 

Sarlo também recupera parte de sua infância, as férias na província de Córdoba, para demonstrar uma das teses do livro: a de que “também somos produto das viagens de outros, dos que nos rodeiam”.

 

Fonte: O Globo

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