MARATONISTA HÁ 20 ANOS, DRAUZIO VARELLA LANÇA LIVRO SOBRE CORRIDA

‘Correr’ foi lançado no último sábado (25), no evento Rio Run Market

RIO — Corredor de maratonas há 20 anos, o médico paulista Drauzio Varella é crítico feroz do sedentarismo e do sobrepeso. Segundo ele, quem não faz ao menos 30 minutos de exercício por dia está vivendo de forma errada. Drauzio lança seu livro mais recente, ‘Correr’, no último sábado (25), durante a Rio Run Market, a feira que antecede a Maratona do Rio, prova que já completou algumas vezes.

 

 
O senhor está com 72 anos e corre maratonas. Quando é a hora de parar?
 
Enquanto as pernas aguentarem. Digo isso no meu livro. Sei que tem uma hora em que não vai dar mais. Mas não estou perto dela. Na verdade, não há conhecimento científico sobre os limites do corpo porque o ser humano não vivia tanto. Ainda são poucas as pessoas com mais de 70 anos que correm maratonas. O grande teste será ver como as pessoas que estão na meia-idade agora e correm, ou são ativas de outra forma, estarão quando chegarem aos 70 anos ou mais. Hoje, me considero o mais saudável dos meus amigos.
 
O senhor começou a correr maratonas aos 50 anos. Há uma época ideal?
 
Mais cedo teria sido melhor. Mas nunca é tarde para começar.
 
Muita gente vê a maratona como um desafio quase impossível. O que há de verdade nisso?
 
Na verdade, a maratona exige disciplina, treinamento. Mas é factível para a maioria das pessoas que treinam para isso. O lado psicológico é muito importante. É ele que nos faz levar uma vida mais regrada. Não exagerar na bebida. Não comer demais. No meu caso, fico mesmo mais antissocial, porque não dá para fazer um jantar, tomar um vinho e ficar acordado até tarde e fazer um treino longo no dia seguinte. É preciso vontade e disciplina. Mas correr uma maratona não é tão difícil assim.
 
Há quem considere que a maratona causa muito desgaste. É fato?
 
Você pode sofrer durante a prova, pode ser muito dura. Já passei por momentos em que achei que ia parar. Mas sempre encontramos forças e prosseguimos. Fico ótimo depois da prova. Não fico destruído. Tomo um banho e estou novo. A sensação de concluir uma maratona é maravilhosa. Felicidade e satisfação indescritíveis. Dá um barato que não tem quem pague.
 
A crença de que a corrida destrói os joelhos tem fundamento?
 
É uma bobagem. Um mito. No meu livro cito um estudo muito interessante. Ele mostra que, na verdade, não-corredores têm mais lesões nos joelhos do que corredores. Corro maratonas há mais de 20 anos e nunca tive problemas nos joelhos.
 
A maratona é para todo mundo?
 
É para quem gosta. Você pode adorar correr e nunca ter vontade de fazer uma maratona. Além da disciplina, há ainda o componente genético. Homens muito grandes e pesados sofrerão mais, claro. Vejo rapazes hipertrofiados correndo com um esforço enorme. Isso acontece porque, de fato, aquele corpo bombado de academia é tão pouco saudável quanto o de um sedentário.
 
O senhor faz alguma dieta especial para correr maratonas?
 
Não. Nunca fiz. Esse é outro mito. Não acredito em suplementos. Não trazem resultado. O importante é ter uma alimentação equilibrada com frutas, verduras, legumes. E não abusar de nenhum alimento. Nas semanas que antecedem uma maratona é preciso ingerir mais carboidratos, mas com moderação.
 
O senhor destaca sempre a importância do exercício. Qual o papel dele em nossas vidas?
 
Não é que exercício faça bem. A vida sedentária é que faz mal.
 
Por que é tão difícil deixar o sedentarismo?
 
Porque desperdiçar energia é contra a natureza humana. Na verdade, é contra a natureza de qualquer animal. Essa tendência natural é uma necessidade ancestral de economizar energia, surgida numa época em que não havia comida fácil. Agora vivemos num ambiente de comida abundante, gostosa e relativamente barata. O resultado é acumular gordura. Para você vencer a tendência ao sedentarismo, precisa de disciplina.
 
Temos tendência natural a acumular gordura…
 
Sim. E o resultado é impressionante. E as pessoas não engordam apenas por fora. O fígado acumula uma quantidade impressionante de gordura. Inclusive o das crianças. Isso é extremamente nocivo. A obesidade causa dependência, perda de mobilidade, suscetibilidade a doenças. Tenho um paciente que precisou fazer uma cirurgia bariátrica para emagrecer e me disse “sabe o que é felicidade, doutor? É poder amarrar o sapato”. Isso é muito triste.
 
Há aqueles que fazem exercício apenas no fim de semana e acham que se exercitam. Por exemplo, jogar futebol uma vez por semana é praticar exercício?
 
Claro que não. Primeiro que futebol assim não é esporte. É um jogo. E um jogo que destrói os joelhos.
 
Que conselho dá a um sedentário?
 
Se você não tem 30 ou 40 minutos por dia para fazer exercícios, está vivendo errado. Quando você conversa com um sedentário, ouve sempre uma ladainha de obrigações. Uma interminável história triste. Todo o tempo é absorvido pelo trabalho, pelos filhos, pela mãe doente, por uma lista infinita de problemas que, em tese, tomam todo o tempo. Mas precisamos ter tempo para nós.
 
As pessoas são muito autocondescendentes?
 
Sim. Há uma tendência a não se considerar responsável pela própria saúde. Mas cuidar da saúde cabe a nós mesmos. As pessoas têm ideias mirabolantes, procuram explicação divina, “Deus quis”. Ora, Deus lá tem tempo para provocar infartos? A frase “saúde é um bem de todos e um dever do Estado” é equivocada, um absurdo. É obrigação de cada um cuidar de si. Não comer demais, não se entregar ao sedentarismo. Quem não faz isso se expõe a um risco maior de doenças, custa mais caro para a saúde pública.
 
Mas o problema só aumenta…
 
Sim. Veremos uma discussão séria em saúde pública em pouco tempo. Está cada vez mais difícil arcar com os custos crescentes das doenças associadas à obesidade e ao sedentarismo. Por que alguém que se mantém no peso certo e se exercita terá que pagar as mesmas taxas de outro que conscientemente não faz isso e, logo, corre mais riscos? É justo? É uma discussão importante. Será que daqui a algum tempo não veremos as seguradoras de saúde adotarem a mesma estratégia que usam hoje com carros? Em vez de, por exemplo, cobrarem mais de quem está acima do peso, podem dar um “desconto” para os demais, assim como fazem hoje com quem usa menos o seguro de um automóvel.
 
Fonte: O Globo (com adaptações)

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EM NOVO LIVRO, ANTONIO RISÉRIO REFLETE SOBRE A RELAÇÃO ENTRE A MULHER E A CIDADE NO BRASIL E NO MUNDO

Em ensaios, antropólogo também analisa a vida e as obras de Carmen Portinho, Lina Bo Bardi e Lota de Macedo Soares

RIO – Antonio Risério é um intelectual à moda antiga. No seu livro recém-lançado, “Mulher, casa e cidade” (Editora 34), o antropólogo baiano constrói amplos arcos históricos, que vão da Antiguidade ao mundo contemporâneo, em artigos e ensaios que abordam a tensa relação entre a mulher e a cidade. Risério é capaz de apontar a ausência da urbanidade na obra da romancista japonesa do século XI Murasaki Shikibu e refletir sobre a contribuição decisiva de três mulheres para a arquitetura brasileira no século XX: Lota de Macedo Soares, Lina Bo Bardi e Carmen Portinho. Carmen foi uma das primeiras mulheres formadas em engenharia no país, e a responsável por construir as obras do seu marido, o arquiteto Afonso Reidy, como o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM).

 

Os textos reunidos no novo livro — que dá continuidade a algumas reflexões do elogiado “A cidade no Brasil” (Editora 34), publicado em 2012 — foram escritos ao longo de muitos anos. O pontapé inicial da obra foi uma palestra do antropólogo sobre a mulher e o espaço público na Escola da Cidade (uma instituição privada e não ligada à USP, como informado anteriormente) em 2012. A partir daí começou a recolher anotações e escritos antigos e viu que o assunto renderia um livro. No sábado passado, Risério recebeu o GLOBO para uma entrevista em Paraty, onde participou da mesa “A cidade e o território”, na Flip, com o poeta Eucanaã Ferraz. Ele afirmou que o movimento feminista foi o mais importante em séculos, ao introduzir a ideia de igualdade entre homens e mulheres, e disse que vê saída para as cidades brasileiras.

 

— Nós vivemos a maior crise urbana de toda a história do país. Se as pessoas forem sérias, tem saída. Você chega nos municípios hoje e os prefeitos não têm preocupação nenhuma com urbanismo, acham que é luxo. Agora, a sociedade tem que entrar na discussão. Se for ficar esperando, com essa crise que está aí, as cidades vão se deteriorar cada vez mais a cada dia.

 

O senhor defende que a casa é o ponto de partida do urbanismo. Por quê?

A casa tem que ser pensada em função da cidade. É ela que constrói a cidade. Não tem cidade sem casa. É preciso ter uma visão do sítio urbano, do entorno, o que significa aquilo historicamente. O mal foi que a arquitetura, principalmente a partir dos megaprojetos europeus, se afastou de forma insensata da antropologia, da sociologia e do urbanismo, e fez um casamento monogâmico com as belas-artes. Cada arquiteto quer fazer sua escultura. Mas você mora na cidade, não numa escultura. O Paulo Mendes da Rocha disse que o arquiteto não deve fazer uma casa que é “a cara do cliente”. Se o cara morre daqui a 50, 60 anos e a casa vai durar 300, a casa tem que ter a cara da cidade. Eu concordo totalmente.

 

A mulher é o terceiro vértice do livro, junto com a casa e a cidade. Onde a mulher entra nessa equação?

 

Este é o problema central. A mulher entra na casa convidada a habitar, ela não é construtora. Só muito recentemente as mulheres começaram a construir. As primeiras engenheiras do Brasil, como Carmen Portinho, são do século XX, os projetos de Lina Bo Bardi também. Entre os índios, mulher nunca construiu nada, nem na Antiguidade clássica. No Renascimento não há uma arquiteta. No Barroco brasileiro, não produzimos nenhuma “Aleijadinha”. As mulheres foram escanteadas, levadas a ocupar um lugar construído pelo homem. Dentro desse espaço ela criou a domesticidade, a intimidade doméstica, a ideia de conforto. Essa noção de conforto vem do próprio fato de cuidar do que ela pariu. Em alguns períodos históricos elas não tinham voz ativa sobre nada, como na casa medieval. Cada vez mais elas foram conquistando e definindo esse espaço.

 

Isso teve consequências até na produção literária, o senhor mostra.

 

A mulher não tem uma vivência da cidade como o homem tem. A minha hipótese é que a mulher foi confinada no espaço doméstico e isso fez com que ela não vivesse intensamente a cidade. Isso vai se refletir na criação literária. Você atravessa livros e livros de mulheres e nada. A cidade não tem concretude, densidade. E não é algo do Ocidente. Eu falo da japonesa Murasaki Shikibu, do século XI, escreveu um livro de mil e tantas páginas e não tem nada sobre a cidade japonesa. Ela era de Kyoto, capital do império Heian. Safo não fala de Mitilene, que era a cidade mais importante daquela época (século VII a.C.). A cidade marca muito fortemente a produção textual masculina, mas não a feminina. A mulher viaja dentro da casa e dentro dela, principalmente.

 

De que forma a sociabilidade da mulher na cidade é diferente do homem?

 

O homem é o rei do espaço público, de onde durante muito tempo as mulheres foram afastadas. No Brasil colonial, as mulheres eram trancafiadas dentro de casa. Gilberto Freyre fala que a casa e a rua eram inimigas. Elas não podiam ver as visitas que chegavam. Quando elas começam a falar e pensar em espaço público, os homens chamam logo atenção para o perigo, não para o prazer. A conquista desse espaço pela mulher é recente.

 

Qual a chave para entendermos essa permanência?

 

A chave é toda dominação masculina sobre as mulheres. Mulher nas sociedades indígenas era bem de troca. Nos povos árabes também não apitava nada. A grande mudança para o mundo é o movimento feminista. Isso vai mudar uma coisa de milênios. Esse negócio de igualdade entre homem e mulher é uma invenção moderna. No Brasil, as mulheres começaram a sair de casa no reinado de D. Pedro II. Falo das mulheres ricas porque as pobres não tinham isso. Também há essa grande distinção. As mulheres negras e pobres circulavam nas ruas do Brasil a mil. Se você pegar mais recentemente, é da classe média para cima que a rua era o problema, não para as classes populares. Como não existe uma literatura das classes populares, a não ser mais recentemente, não vemos a vivência feminina.

 

O senhor dedica três textos a Carmen Portinho, Lina Bo Bardi e Lota de Macedo Soares. Como seus trabalhos nos interpelam hoje?

 

Todas elas têm uma coisa em comum muito interessante que é criar espaços de convívio. O Parque do Flamengo (de Lota) é um lugar de convívio extraordinário. Claro que a sociedade ficou violenta e as coisas ficaram complicadas, mas são lugares para convívio. O Sesc Pompeia, em São Paulo, uma das criações de Lina, é um grande lugar de convívio. E Carmen se engajou na construção de conjuntos habitacionais populares complexos, que têm escola, academia, espaço de cultura. Era o conjunto habitacional da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

 

Isso é um show, o Brasil não teve nada igual em arquitetura popular. O projeto do Conjunto do Pedregulho é do marido dela, Afonso (Reidy), mas é ela que constrói. É engraçada essa inversão também. Ela é a engenheira que comanda os peões. Era a preocupação social da vanguarda arquitetônica mundial se refletindo no Brasil. Vargas chamou a vanguarda para fazer as coisas, uma intuição fantástica porque ele mesmo não entendia nada do assunto. Tinha ali uma preocupação de morar bem e de ter uma vida comunitária, tudo muito entrosado na cidade. Não era esse negócio de Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que joga longe, sem nenhuma infraestrutura, sem vínculo com a cidade. Estão construindo hoje as favelas de amanhã.

 

O programa atual mostra que a casa é pensada desvinculada da cidade?

 

O Minha Casa, Minha Vida é um lixo de projeto. Mal entregam as casas e estão todas cheias de rachaduras, infiltrações, tudo que fui visitar é um absurdo. Você olha o Pedregulho em comparação. Programa social é o que a ditadura de Vargas fez: habitação mínima, popular, digna, decente. Hoje isso se perdeu. Dilma fala em habitação digna. Qual? Ela vai morar ali? E Getúlio soube fazer as coisas, congelou o preço dos alugueis, fez a lei do inquilinato. Ninguém despejava ninguém. Os conjuntos eram propriedade do Estado, eram alugados. Ele viu logo que o problema de morar não podia ser deixado na mão do mercado. No caso do MCMV é escandaloso, as construtoras são donas dos terrenos nas cidades e decidem o que vai ser bairro de luxo e bairro de pobre. Quem faz a política urbana no Brasil hoje são as imobiliárias, não é o governo.

 

O senhor diz que é preciso buscar uma narrativa comum para as lutas de mulheres, negros, gays. O direito à cidade pode ser essa narrativa?

 

Tem que ser porque tudo passa por aí: transporte, discriminação, as próprias disparidades de classe que dificultam a realização plena do direito à cidade. É preciso um eixo. É o direito à cidade que vai poder unir tudo. Esses movimentos têm a sua especificidade, mas podem encontrar pontos em comum. Eu me manifesto pela liberação da maconha e pela preservação dos córregos da Vila Madalena em São Paulo. Essas coisas não se excluem. Você quer transporte público de qualidade, tem a luta contra o automóvel, isso interessa desde a favela aos condomínios de luxo. O difícil é encontrar esses elementos comuns numa cidade completamente cindida. Ninguém vive nos mesmos espaços. Numa cidade que exclui, que segrega, como você quer que o indivíduo se identifique com esse corpo cívico? Isso vai ter que ser construído.

 

Como o senhor vê o avanço conservador vivido hoje no Brasil?

 

A gente se enganou. Em termos culturais, comportamentais, o Brasil avançou muito menos do que pensávamos e agora nos assustamos com a onda conservadora. O país não avançou como a gente sonhou. Estávamos dançando três compassos à frente da música. E outra coisa: as pessoas não agridem um gay na rua para não serem presas, não porque aceitaram. Direitos têm que ser empurrados goela abaixo em nome da cultura liberal democrática. A gente não pode se enganar e tem que continuar avançando centímetro por centímetro como era na década de 1970. Não pense que as pessoas estão aceitando drogas, homossexualidade, porque o grosso da população não está. Uma cultura não muda nem em uma, nem em duas, nem em três décadas, é preciso um século. Mas eu falo assim do ponto de vista de quem é mais velho. É claro que algum avanço aconteceu. Claro que tem um avanço. Desde que eu me entendo por gente o Brasil já acabou diversas vezes. E continua aí.

 

Fonte: O Globo

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BIOGRAFIA DE MANUEL BANDEIRA CHEGARÁ ÀS LIVRARIAS COM 9 ANOS DE ATRASO

Escrito em 2006, texto teve a circulação impedida pelos herdeiros do poeta

RIO — Uma pequena biografia sobre Manuel Bandeira, escrita por Paulo Polzonoff Jr. há nove anos, vai, finalmente, chegar às lojas nas próximas semanas.

 

A decisão ocorre após a determinação do Supremo Tribunal Federal, no dia 10, de impedir a autorização prévia de biografias.

O texto, que integrava a coleção Perfis do Rio, teve, em novembro de 2006, a circulação barrada pelos herdeiros do poeta, que se incomodaram com o teor do livro.

 

— A família disse que já estava preparando uma biografia e não queria uma segunda. Também reclamou de questões controversas presentes no livro, como a associação de Bandeira à boemia e ao uso de cocaína. Por fim, alegou que o perfil seria um pretexto para publicar poemas do autor sem o pagamento de direitos autorais, o que é um absurdo, porque tivemos o cuidado de inserir apenas trechos que ilustravam a trajetória do autor — diz o editor Alberto Schprejer, da Relume Dumará, hoje propriedade da Ediouro.

 

Na época, foram entregues 500 exemplares do livro à Prefeitura, que apoiou o projeto dos Perfis do Rio. A obra, porém, nunca chegou às lojas.

 

Paulo Polzonoff Jr. diz que sequer lembra-se do conteúdo do livro:

— Consegui achar uma cópia num sebo. Vou reler. Mas estou feliz com a decisão.

 

Fonte: O Globo

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BEATRIZ SARLO RELEMBRA VIAGENS PELA AMÉRICA DO SUL

Livro mescla autobiografia e História

BURNOS AIRES – Tudo começou quando chegaram a suas mãos algumas fotos que a levaram a relembrar aventuras da juventude, quando ela e alguns companheiros universitários viviam guiados por um “populismo sentimentalista” e pelo desejo de viver, em carne própria, a “ilusão revolucionária latino-americana”. Foi assim, pelo correio, que a escritora argentina Beatriz Sarlo recebeu o impulso que marcou o nascimento de seu mais recente livro, “Viagens. Da Amazônia às Malvinas” (e-galáxia), que ganhará lançamento exclusivo em e-book na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na quarta-feira, dia 1º de julho, a autora abrirá a 13ª edição do evento, que homenageia Mário de Andrade, com a conferência “As margens de Mário”, e no sábado, dia 4, participará da mesa “Turistas aprendizes”, com a escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

 

 

Em entrevista ao GLOBO, Sarlo explica por que, na maioria dos capítulos, optou por uma narração através de um “coletivo, um protagonista plural”, que buscou representar “a experiência de um grupo de fanáticos, com alto grau de ingenuidade”, que durante vários anos compartilhou viagens por um continente que já não existe.

 

— Conhecemos uma América Latina épica, muito diferente da que existe hoje e tornou-se atração turística internacional — conta Sarlo, em seu escritório no centro de Buenos Aires.

 

Reviver o passado, porém, não tem a menor conotação melancólica para a autora. Não se trata de rememorar a juventude perdida. Nada disso. O objetivo é outro:

— Gostaria de transmitir uma experiência com o diferente. Este é um livro benevolente com tudo o que é diferente, com um alto grau de ingenuidade.

 

Seja numa travessia pelas províncias do Norte da Argentina; em visita à recém-inaugurada Brasília, na década de 60; durante uma inesquecível convivência com uma tribo de jibaros na Amazônia peruana ou numa cobertura jornalística nas Ilhas Malvinas, Sarlo mostra experiências que abriram seus olhos e, em alguns casos, os de seus companheiros de viagem.

 

Era um grupo pequeno, menos de dez pessoas, unidas pela vontade de conhecer o território latino-americano em travessias por terra e mar, realizadas com grande esforço físico. Estudantes de várias universidades portenhas, entre elas Arquitetura, Letras (no caso da escritora) e Fisioterapia, entre outras, que aproveitaram vários verões para conhecer outras cidades e países, levando em suas bagagens apenas uma bolsa de dormir e um casaco. “Éramos amigos do trekking”, resumiu Sarlo.

 

MERGULHO NAS REALIZADES LOCAIS

A viagem a Brasília foi longa e incluiu vários meios de transporte: caminhão, ônibus e barca. Depois de uma breve passagem pelo Rio, o grupo chegou ao destino sonhado, onde queria “estar em contato com o modernismo da arquitetura brasileira”. A meta era ver de perto o trabalho de Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Roberto Burle Marx, entre outros.

 

— Um dos colegas estudava arquitetura, mas eu também estava muito envolvida com as estéticas de vanguarda — diz a escritora, que sempre se interessou por arquitetura.

Sarlo se lembra muito bem do que viu na visita a Brasília, uma cidade, afirmou, “que já não é a mesma”:

 

— Fomos uns dos últimos que vimos uma Brasília recém-inaugurada, praticamente deserta.

O grupo dormia, quase sempre, em edifícios públicos. A comodidade não era uma questão relevante. O importante, para todos, era mergulhar nas realidades de cada um dos lugares que visitavam. Na Bolívia, viram de perto a revolução liderada pelo general Juan José Torres (presidente do país entre 1970 e 1971), um processo que cativou Sarlo e a fez pensar em trocar Buenos Aires por La Paz. Um dos capítulos do livro conta a viagem a uma Bolívia em estado revolucionário, onde os estudantes tiveram acesso às mais altas autoridades do Palácio Quemado, entre eles o ministro de Urbanismo, que, uma vez derrubado o governo de Torres, pediu ajuda a seus amigos argentinos quando chegou, de trem, a Buenos Aires.

 

— Sem conhecer ninguém em La Paz, pedimos uma entrevista com o ministro de Urbanismo e no dia seguinte estávamos comendo em sua casa. Isso é impensável hoje, uma loucura.

 

Ela recorda “outra América Latina, que vivia com uma expectativa revolucionária muito intensa”.

 

— Era o clima da época, tinha ficado entusiasmada com o lugar e estabeleci uma relação intensa com a cultura boliviana, que mantenho até hoje. É uma dessas paixões que temos em nossa vida. Era jovem e nós éramos fanáticos por natureza — assegura.

 

Nos últimos anos, a escritora, que em 2003 encerrou suas atividades como professora de literatura argentina na Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA), deu cursos em universidades dos Estados Unidos e Inglaterra, entre elas Columbia, Berkeley e Cambridge. Sarlo é uma das grandes referências em estudos culturais no mundo, acaba de ser premiada na República Dominicana e já foi condecorada pelo governo brasileiro. Ela se reconhece como discípula da vertente britânica dos estudos culturais (Raymond Williams e Richard Owen) e destaca a influência de Roland Barthes em seu trabalho. Quando era uma estudante de Letras, porém, a jovem Sarlo queria apenas ter experiências locais, conhecer de perto outras culturas, encontrar igrejas e tribos perdidas pelo continente.

 

Na Amazônia peruana, outro dos capítulos de seu livro, os estudantes passaram uma semana vivendo com uma tribo de jibaros, encontrada quando eles estavam caminhando perdidos pela selva.

 

— Quando fomos à Amazônia não sabíamos que encontraríamos uma tribo de jibaros, se tivéssemos tido essa informação teríamos ido com certos preconceitos, porque era a tribo que, no passado, cortava cabeças — brinca Sarlo, que lembra do encontro como uma experiência incrível. — Eles nos detiveram, vestidos com suas roupas tradicionais. Com sinais, entendemos que tínhamos de ir com eles. Eram todos muito amáveis e nós tínhamos um amor instantâneo por qualquer camponês: éramos populistas sentimentais.

 

Foram vários dias de convivência, até que o Exército peruano descobriu que os jovens argentinos estavam numa região de conflito com o Equador (conflito que se mantém até hoje) e decidiu detê-los para averiguar quais eram seus objetivos.

 

— Queriam saber se estávamos fazendo espionagem para o Equador, essa é minha hipótese. Quando responderam que éramos cinco bobos, nos liberaram. Nós não sabíamos que era uma região de conflito, nossa ignorância era infinita.

 

CLIMA TERRÍVEL NAS MALVINAS

No capítulo “Uma estrangeira nas ilhas”, Sarlo narra sua experiência nas Malvinas, em 2012, segundo ela “a última viagem importante que terei feito em minha vida”. Ir às Malvinas não era algo pendente para a escritora. A questão representa um trauma para Sarlo que, em 1982, se opôs à invasão comandada pela última ditadura argentina (1976-1983). Ela e uma pequena minoria. Foi difícil enfrentar um respaldo quase unânime à última aventura dos ditadores argentinos, que acabaram dando um tiro no próprio pé. Perderam a guerra e, pouco depois, o poder.

 

— Foi um movimento patético de patriotismo territorial. Depois disso, nunca esteve em minha cabeça ir às ilhas, me parecia que não era preciso conhecê-las para pensar que os que moram lá têm direito a expressar seus interesses e suas necessidades sobre seu próprio destino — explicou Sarlo, uma das poucas intelectuais renomadas da cultura argentina que se atreve a expressar, publicamente, sua visão crítica sobre a política de recuperação das ilhas, defendida, com unhas e dentes, pelo kirchnerismo e pela maioria dos governos que vieram depois da ditadura.

 

A escritora foi às Malvinas em março de 2013, quando realizou-se um referendo sobre a soberania das ilhas. Enviada pelo jornal “La Nación”, Sarlo passou uma semana morando com uma família kelper (como são chamados os moradores) e confirmou tudo o que já pensava sobre o conflito:

 

— Quem viveu a guerra viu um soldado argentino, portanto, estrangeiro, batendo na porta da sua casa. Os que não viram, sabem que isso aconteceu e alimentaram fantasias sobre esse passado. Nenhum latino-americano sabe o que isso significa.

 

Para a escritora, “todos os argentinos patrioteiros deveriam morar um tempo nas Malvinas, até mesmo os patagônicos. O clima é verdadeiramente terrível. Eu estava equipada para ir à Antártida e tive frio o tempo todo”.

 

— Eles (os kelpers) amam essas ilhas. É um povo instalado. Os jovens terminam sua escolaridade na Inglaterra, moram dez anos por lá e, em 70% dos casos, depois voltam para as Malvinas — diz Sarlo, que, para encerrar sua posição, indaga:

 

— O que aconteceria se todas as fronteiras europeias voltassem ao que eram no século XIX?

Sua frustração, reconhecida e detalhada no livro, foi não ter conseguido se aproximar dos jovens que moram nas ilhas. Nem mesmo suas “botas vermelhas, que fora de Buenos Aires sempre provocam comentários”, conseguiram abrir as portas de uma conversa mais profunda com as adolescentes da família que a hospedou.

 

— Tentei me aproximar dos mais jovens, mas não houve jeito. O hermetismo foi total.

 

Sarlo também recupera parte de sua infância, as férias na província de Córdoba, para demonstrar uma das teses do livro: a de que “também somos produto das viagens de outros, dos que nos rodeiam”.

 

Fonte: O Globo

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ROBERTO SAVIANO É DESTAQUE DA FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY 2015

Programação principal foi divulgada nesta terça-feira e inclui o escritor cubano Leonardo Padura e o cartunista Riad Sattouf

SÃO PAULO – O jornalista italiano Roberto Saviano, o escritor cubano Leonardo Padura, o matemático brasileiro Artur Avila e o cartunista francês Riad Sattouf estão entre os convidados anunciados nesta terça-feira (12) para a edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que se realiza de 1º a 5 de julho. Entre os nomes que já haviam sido confirmados na programação principal estão o irlandês Colm Tóibín, a israelense Ayelet Waldman, o britânico David Hare, o queniano Ngugiwa Thiong’o, os argentinos Diego Vecchio e Beatriz Sarlo, a portuguesa Matilde Campilho e os brasileiros Karina Buhr e Boris Fausto. Os ingressos começam a ser vendidos no dia 1º de junho.

 

Saviano, autor de “Gomorra” e “Zero Zero Zero”, sobre a relação das máfias italianas com as instituições do país, falará do seu trabalho como jornalista investigativo, que lhe valeu ameaças de morte e o obrigou a viver escondido sob proteção da polícia. Avila participará da mesa “Os homens que calculavam” com o também matemático russo-americano Edward Frankel para uma conversa sobre a rotina dos cientistas e a intimidade com os números. Ex-colaborador do jornal satírico francês “Charlie Hebdo”, Sattouf e o cartunista brasileiro Rafa Campos, do álbum “Deus, essa gostosa”, discutem na mesa “De balões e blasfêmias” como se travam as batalhas culturais e os limites do humor dentro do universo dos cartuns e publicações humorísticas.

 

Homenageando Mário de Andrade (1893-1945), a Flip 2015 reúne este ano em Paraty 39 autores brasileiros e estrangeiros para debater temas que vão desde a prosa e a poesia até políticas culturais e os rumos da sociedade brasileira, passando pela crítica, sexo e erotismo, ciência, família e vida afetiva, romance policial, política internacional, música e arquitetura. A 13ª edição da festa vai manter a gratuidade no show de abertura e nos telões externos. O jornalista e editor Paulo Werneck, que pelo segundo ano ficou responsável pela curadoria, disse que trazer Saviano (por questões de segurança) e Padura não foi uma tarefa fácil e as negociações se arrastaram por bastante tempo.

 

- Estou muito orgulhoso dessa programação. Tem autores para todos os perfis de leitores – diz o curador Paulo Werneck.

 

Mauro Munhoz, diretor presidente da Casa Azul, organização que promove a Flip, diz que a captação de patrocínio ainda não foi completada. E pode ser que termine com cerca de 15% a menos do valor total. Segundo Munhoz, dos R$ 7,5 milhões previstos para os cinco dias de festa só R$ 6,1 milhões foram captados. No ano passado, foram captados R$ 8,2 milhões.

 

- Estamos em um cenário bastante dramático e isso se reflete em todas as áreas. Captação acontece até o último momento. Estamos há 13 anos nesse processo. Trabalhamos com vários módulos, o que nos permite adaptar. De agora até o início da Flip, a expectativa é que terminemos com 15% a menos. Por outro lado, é um processo extremamente eficiente. Porque nos permite fazer mais com menos. É um princípio modernista, andradino.

 

Werneck acrescenta que, nesse contexto de crise, a programação tem obrigação de ser mais movimentada.

 

- A gente sabe que, em momentos de crise, a atividade cultural floresce. Não podemos esquecer que o próprio Mário de Andrade atuou em um contexto político muito difícil — disse o curador.

 

Na programação principal, a vida e obra de Mário de Andrade será dissecada em todos os âmbitos possíveis e a partir de vários pontos de vista por parte dos convidados. Hermínio Bello de Carvalho e o crítico José Ramos Tinhorão examinam o trabalho do homenageado no campo da música. A argentina Beatriz Sarlo e os brasileiros Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim mostram por que ele continua atual nos dias de hoje. O professor e músico José Miguel Wisnik volta ao tema da música no trabalho do intelectual paulista. E o jornalista Roberto Pompeu de Toledo e o professor Carlos Augusto Calil falam sobre a relação do patrono desta edição da Flip com a cidade de São Paulo.

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

 

QUARTA, 1 DE JULHO

 

19h – Sessão de abertura: As margens de Mário

 

Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim

 

QUINTA, 2 DE JULHO

 

10h – Mesa 1: A cidade e o território

 

Antônio Risério e Eucanaã Ferraz

 

12h – Mesa Zé Kleber: Falando alemão

 

Geovani Martins, Deocleciano Moura Faião e Katjusch Hœ

 

15h – Mesa 2: De micróbios e soldados

 

Diego Vecchio e Saša Stanišić

 

17h15 – Mesa 3: A poesia em 2015

 

Matilde Campilho e Mariano Marovatto

 

19h30 – Mesa 4: Encontro com Colm Tóibín

 

21h30 – Mesa 5: Do angu ao kaos

 

Jorge Mautner e Marcelino Freire

SEXTA, 3 DE JULHO

 

10h – Mesa 6: Encontro com Boris Fausto

 

12h – Mesa 7: São Paulo! Comoção de minha vida…

 

Roberto Pompeu de Toledo e Carlos Augusto Calil

 

15h – Mesa 8: As ilusões da mente

 

Eduardo Giannetti e Sidarta Ribeiro

 

17h15 – Mesa 9: Escrever ao Sul

 

Ngũgĩ wa Thiong’o e Richard Flanagan

 

19h30 – Mesa 10: Amar, verbo transitivo

 

Ana Luisa Escorel e Ayelet Waldman

 

21h30 – Mesa 11: Os Imoraes

 

Eliane Robert Moraes e Reinaldo Moraes

 

SÁBADO, 4 DE JULHO

 

10h – Mesa 12: Turistas aprendizes

 

Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho

 

12h – Mesa 13: Encontro com David Hare

 

15h – Mesa 14: De balões e blasfêmias

 

Riad Sattouf e Rafa Rocha

 

17h15 – Mesa 15: Os homens que calculavam

 

Artur Avila e Edward Frenkel

 

19h30 – Mesa 16: Encontro com Roberto Saviano

 

21h30 – Mesa 17: Desperdiçando verso

 

Arnaldo Antunes e Karina Buhr

 

DOMINGO, 5 DE JULHO

 

10h – Mesa 18: Música, doce música

 

José Ramos Tinhorão e Hermínio Bello de Carvalho

 

12h – Mesa 19: De frente para o crime

 

Leonardo Padura e Sophie Hannah

 

14h – Mesa 20: Conferência de encerramento

 

José Miguel Wisnik

 

16h – Mesa 21: Livro de cabeceira

 

Fonte: O Globo

Categoria: Literatura e Filmes
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NGUGI WA THIONG’O FALA SOBRE DILEMAS DA ÁFRICA

Em entrevista exclusiva, um dos principais autores do continente defende a preservação das línguas locais

RIO — Na década de 1960, enquanto a África vivia o colapso dos regimes coloniais europeus, uma nova geração de escritores africanos despontou no cenário mundial com obras que refletiam sobre as lutas por independência no continente. Eram jovens intelectuais recém-saídos da universidade, que se dividiam entre a participação ativa na campanha pela libertação de seus países, muitas vezes pegando em armas, e a criação de uma literatura africana moderna, ancorada no diálogo entre as tradições locais e a herança ocidental.

 

Ngugi wa Thiong’o entrou na linha de frente desse movimento em 1967, quando publicou seu terceiro romance, “Um grão de trigo”. Lançado apenas quatro anos depois da independência do Quênia, que deixou de ser colônia britânica em 1963, o livro era ao mesmo tempo uma afirmação da cultura queniana e uma meditação sobre as contradições e incertezas do novo momento do país. Um dos clássicos da literatura africana do século XX, “Um grão de trigo” será publicado no Brasil pela primeira vez em junho, pela Alfaguara, em tradução de Roberto Grey. Ngugi será um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 1 e 5 de julho, onde lançará também “Sonhos em tempo de guerra” (Biblioteca Azul), primeiro volume de sua trilogia de memórias.

 

Nascido em 1938, no vilarejo de Kamirithu, região central do Quênia, Ngugi pertence à etnia gikuyu, a mais populosa do país. Foi criado pelas quatro esposas de seu pai, numa casa onde o ritual noturno de contar histórias em torno do fogo era parte sagrada da rotina. Sua infância e adolescência foram atravessadas por conflitos históricos. Primeiro, a Segunda Guerra Mundial, na qual quenianos foram forçados a lutar ao lado dos colonizadores britânicos. Depois, nos anos 1950, a rebelião Mau Mau, quando uma guerrilha anticolonial foi massacrada, mas abriu caminho para a independência conquistada na década seguinte.

 

Escrito na Inglaterra, onde Ngugi estudou literatura nos anos 1960, “Um grão de trigo” é ambientado nos quatro dias anteriores à declaração de independência do Quênia, em 12 de dezembro de 1963, mas repassa a longa história de choques com o poder colonial. O protagonista do livro é Mugo, ex-prisioneiro político considerado em sua aldeia um herói da libertação, mas que carrega a culpa por uma traição cometida num momento decisivo de sua vida.

 

Depois do sucesso do romance, escrito em inglês, o autor, batizado como James Ngugi, adotou o nome atual e passou a escrever somente no idioma gikuyu. Em 1977, no governo do presidente Jomo Kenyatta, líder nacionalista exaltado em “Um grão de trigo”, Ngugi foi preso por causa das críticas sociais de seus romances e peças em gikuyu. Libertado um ano depois, continuou a ser perseguido e exilou-se nos Estados Unidos, onde vive até hoje, dando aulas na Universidade da Califórnia-Irvine. Em 2004, quando voltou ao Quênia pela primeira vez depois de 22 anos, sua casa foi invadida por três ladrões, que o agrediram e estupraram sua mulher. Os invasores foram presos e condenados à morte.

 

Em entrevista exclusiva por telefone, da Califórnia, Ngugi fala sobre sua obra e a conturbada relação com o país natal. Aos 77 anos, um dos maiores escritores africanos vivos, sempre cotado para o Nobel, avalia os dilemas enfrentados pela África desde as independências, diz admirar Jorge Amado e defende a preservação das culturas locais como alternativa para o futuro do continente.

 

Quais são suas memórias da infância no Quênia durante a Segunda Guerra Mundial?

 

Como o Quênia era uma colônia britânica, muitos quenianos tiveram que lutar ao lado de seus dominadores. Minhas memórias mais antigas são de comboios carregando soldados armados. Também lembro de prisioneiros de guerra italianos, que eram mandados para o Quênia depois de serem detidos na região da Somália disputada por britânicos e italianos. Eles vinham ao nosso vilarejo nos intervalos do trabalho forçado na construção de estradas. Tentavam comprar ovos e seduzir nossas mulheres.

 

Qual era o papel das histórias na sua família e na cultura gikuyu?

 

Cresci numa casa com quatro mães e um pai. Ele estava ausente da nossa vida a maior parte do tempo, mas as mães estavam sempre presentes. Eram elas que nos davam comida, roupas e histórias. Essas histórias que elas contavam eram muito importantes para nós. As gerações atuais podem não ter dimensão disso, por causa da onipresença da TV, do rádio e da internet, mas naquela época o ato de contar histórias era uma atividade diária. À noite, antes ou depois do jantar, as pessoas contavam histórias, desde narrativas ficcionais até relatos de encontros do dia e acontecimentos políticos ou simplesmente boatos que circulavam pelo país. Eram como rituais em que sentávamos ao redor do fogo para ouvir as histórias do dia.

 

Como muitas famílias quenianas, a sua se viu envolvida na rebelião anticolonial Mau Mau, nos anos 1950. Um de seus irmãos se juntou aos guerrilheiros e outro foi assassinado. Como enfrentaram esse período?

 

Mal acabou a Segunda Guerra, não fazia nem cinco anos que não víamos mais os soldados, começou a guerra por nossa libertação. É importante lembrar que o nome dos Mau Mau era Exército Terra e Liberdade. Foram os britânicos que criaram essa onomatopeia tola para que o movimento parecesse mambembe e sem foco. Mas o nome era claro: Exército Terra e Liberdade. Muitas famílias quenianas se envolveram na guerra. A maioria ficou ao lado dos guerrilheiros Mau Mau, mas algumas atuaram como força auxiliar da presença militar britânica. Foi declarado um estado de emergência no país entre 1952 e 1960, que instaurava a lei marcial no lugar da lei colonial “normal” — que já era uma espécie de lei marcial, é claro. Toda a população do país foi atingida pelas operações militares, de uma forma ou de outra. Famílias se partiram ao meio, casas foram destruídas, houve um imenso êxodo humano, comparável às maiores tragédias da História.

 

“Um grão de trigo” se passa no momento da independência, em 1963, mas também recapitula a rebelião Mau Mau e toda a história do colonialismo no Quênia. Um aspecto marcante é a ambiguidade dos personagens: Mugo, o protagonista, é visto como um herói nacionalista em sua aldeia, mas se revela um traidor. Críticos relacionaram esse traço do romance às contradições das independências africanas. Como você avalia a forma como os quenianos lidaram com a independência?

 

Como romancista, é claro que não me interesso por situações em preto e branco, tento ver as nuances das personalidades e da História. “Um grão de trigo” expressava meus sentimentos na época, quatro anos depois da independência, quando eu sentia que muitas metas da luta pela libertação estavam sendo deixadas de lado pelo novo governo pós-colonial. O romance investigava aquele momento, quando não tínhamos uma ideia clara do que estava errado, mas sentíamos que algo não ia bem. Daí a ambiguidade, talvez.

 

Quais eram suas maiores preocupações com o Quênia na época?

 

A forma como o país tratava os guerrilheiros que lutaram pela nossa liberdade, por exemplo. Eles realizaram um grande sacrifício, mas estavam sendo relegados a segundo plano. O que eu estava tentando dizer era: o povo do Quênia, e da África, foi a base do sucesso das lutas anticoloniais e nossa independência só terá sentido se conservarmos a unidade entre os líderes e os povos. Não derrotamos os poderes coloniais porque tínhamos mais armas, e sim porque tínhamos nosso povo. E ainda temos. Precisamos de líderes que saibam que seu poder vem do povo.

 

Nos anos 1960, muitos escritores africanos lidavam com os temas do colonialismo e da independência, como Wole Soyinka e Chinua Achebe, na Nigéria, ou José Craveirinha, em Moçambique. Qual é o legado da sua geração de escritores para a África?

 

Soyinka, Achebe, eu e vários outros éramos jovens nascidos sob o colonialismo e estávamos amadurecendo junto com nossos países. Éramos otimistas, não só em nosso discurso, mas também na energia com que nos entregávamos ao trabalho. Nossa energia refletia a energia da luta anticolonial em toda a África, mesmo quando criticávamos o que acontecia. Isso ajudou a criar um sentido de “nova África”, à qual nós demos voz. Nossa geração veio de uma tradição literária que ainda era muito ocidentalizada e ajudamos a formar uma geração cuja tradição literária é o nosso trabalho. Eles podem construir a partir do que nós construímos. Mas há um lado negativo nisso. Quase todos escrevíamos em inglês, francês ou português, então ajudamos a criar uma tradição literária africana na língua dos colonizadores, negligenciando nossas próprias línguas africanas.

 

Nos anos 1970, você mudou seu nome de James Ngugi para Ngugi wa Thiong’o e passou a escrever no idioma gikuyu. Como chegou a essa decisão?

 

Uma das contradições da condição pós-colonial é a descrença dos africanos quanto às nacionalidades nativas. Ironicamente, tínhamos mais fé em nós mesmos quando estávamos lutando pela independência. Depois, a classe média africana passou a ter mais fé no que vinha de fora, incluindo os idiomas. Minha posição é a seguinte: podemos fazer parte do mundo sem abandonar nossas bases. Não precisamos abrir mão de nossos idiomas para nos integrar ao resto do mundo. Devia ser justamente o contrário: nossa condição para fazer parte do mundo deveria ser a fidelidade às nossas bases, incluindo nossos idiomas.

 

Você foi preso no Quênia em 1977, por escrever romances e peças no idioma gikuyu. Por que isso era visto como ameaça pelo governo?

 

Se você quer se comunicar com as pessoas, tem que falar a língua delas. No fundo, o governo não queria que eu escrevesse em gikuyu por medo de que isso estimulasse as pessoas a tomarem consciência de si. Se você sabe todas as línguas do mundo, menos a sua, isso é escravidão. Mas se sabe sua língua materna e aprende outras, isso é poder.

 

Em “Um grão de trigo” e outros livros, você tem uma diálogo criativo com autores ocidentais, especialmente Joseph Conrad. Qual foi o papel da literatura ocidental na sua formação como escritor?

 

Falamos sobre minha educação noturna na casa das minhas mães e as histórias que elas contavam. Como você pode imaginar, essa educação era bem diferente da que tive na escola. Os livros que nos davam em sala de aula eram todos em inglês, fomos educados em inglês. Mais tarde, quando fui estudar em Londres, a literatura inglesa foi parte da minha formação como escritor e como indivíduo. Não posso me livrar da literatura ocidental, nem quero me livrar dela. Mas sei que isso também é parte do colonialismo. Por isso, é importante olhar para outros lugares. Minha libertação mental não veio só com a valorização dos idiomas africanos, veio também com a descoberta de outras literaturas que não a europeia. Lembro até hoje do que senti lendo Jorge Amado. Não falo português, mas mesmo na tradução inglesa tive a sensação de vivenciar o dia a dia descrito nos livros dele.

 

Quais são os maiores desafios ainda enfrentados pelo Quênia e outros países do continente, décadas depois das independências?

 

É fundamental não subestimar a importância das independências africanas, mesmo com seus problemas. Mas elas nem sempre significaram a liberdade de um país ou sua real independência econômica. Até hoje, quem extrai o ouro, o diamante e o cobre da África? Quem lucra com isso? Os recursos africanos ainda são controlados por corporações estrangeiras. Um povo só pode dizer que é livre se controla sua economia, sua política e sua cultura. A descolonização só estará completa quando tivermos relações baseadas na troca, não na exploração.

 

Como é sua relação com o Quênia hoje, depois da prisão, do exílio e do ataque contra você e sua mulher em 2004?

 

O Quênia hoje tem um clima político melhor. Já não matam dissidentes, nem prendem por traição. A insegurança continua e a economia é instável, mas estou otimista. Hoje sinto que posso ir ao Quênia, já voltei outras vezes desde 2004 e vou de novo em junho. O país está mais aberto.

 

Você acompanha a nova geração de escritores africanos que começa a ficar mais conhecida no mundo, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, o queniano Binyavanga Wainaina e o etíope Dinaw Mengestu? Como ela se compara à sua geração?

 

É muito animador comparar minha geração com a atual. Na minha época, dava para contar os escritores africanos nos dedos. Hoje são vários — eu mesmo tenho três filhos e uma filha que já publicaram livros (risos). Essa nova geração explora áreas diversas com muita coragem, eles são mais viajados, conhecem o mundo. Minha preocupação é que não vejo muitos deles abraçando línguas africanas. Fico feliz por ver autores africanos fazendo sucesso internacional, mas sinto que as línguas africanas podem morrer se não conseguirmos que os jovens se interessem por elas. Mas como vamos fazer isso se os governos africanos não têm qualquer política para as línguas do continente, e na verdade são até contra elas? Eu gostaria de ver um líder africano falando com seu povo na língua local. Gostaria de ver línguas africanas no currículo das escolas. Gostaria de ver mais livros publicados em línguas africanas, mais traduções entre línguas africanas e de idiomas estrangeiros para línguas africanas. Gostaria de ler Jorge Amado em gikuyu. Por que não?

 

Fonte: O Globo

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LIVRO SOBRE JORNADAS DE JUNHO TRAZ ENTREVISTAS E ARTIGOS FEITOS NO CALOR DAS MANIFESTAÇÕES

Obra reúne representantes de diversas áreas que pensam o impacto daquele momento nos seus campos e no país

POR LEONARDO CAZES

 

RIO – Os protestos que começaram em junho de 2013 surpreenderam não só pelo tamanho das manifestações — as maiores vistas no Brasil desde a década de 1980 —, mas também pela pauta múltipla e difusa, a ocupação do espaço público por pessoas de diferentes ideologias e a organização horizontal com convocações pelas redes sociais. Surpresos e entusiasmados, os amigos Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reyes resolveram fazer um jornal com textos que ajudassem a pensar o que estava acontecendo no Brasil. Ao procurar uma editora para viabilizar a impressão, que seria distribuída durante os atos, receberam o convite para fazer um livro que reunisse artigos e entrevistas sobre o tema. Ali começava a gestação do recém-lançado “Brasil em movimento” (Rocco).

 

A obra traz uma série de reflexões feitas no calor dos acontecimentos por gente de diversas áreas, do arquiteto Paulo Mendes da Rocha ao economista Gustavo Franco, do compositor Gilberto Gil ao teórico da literatura Hans Ulrich Gumbrecht, do líder ianomâmi Davi Kopenawa ao geógrafo Jaílson de Souza e Silva, do historiador Daniel Aarão Reis ao advogado Pedro Abramovay, além de trabalhos dos artistas plásticos Tunga, Cildo Meireles, Antônio Manuel e Carmela Gross. Os escritores André Sant’Anna e Fausto Fawcett contribuíram com dois ensaios cortantes sobre o Brasil contemporâneo.

 

— Escolhemos gente que gostaríamos de ver envolvida no debate, que tivesse emoções e pensamentos sobre o que estava acontecendo para compartilhar — conta Natasha, jornalista e aluna da pós-graduação em Letras na UFRJ. — Buscamos saber para cada um as consequências que aquilo trazia no seu campo, pessoas que tinham nascido e vivido em diferentes momentos da História e visões de mundo diferentes. O objetivo foi pensar a partir das manifestações, não as manifestações em si.

 

Na obra, os textos estão datados e são apresentados em ordem cronológica. Os organizadores justificam a escolha porque as entrevistas ocorreram entre junho e dezembro de 2013, em meio a mudanças de conjuntura. Assim, os primeiros entrevistados nem tiveram a chance de falar sobre fenômenos que foram surgindo, como os black blocs. No entanto, durante a leitura, alguns dos principais temas discutidos nas ruas aparecem na fala dos convidados. Um exemplo é a relação dos protestos com a cidade para além da demanda por um transporte público de qualidade e gratuito. Arquiteta e professora da PUC-Rio, Ana Luiza Nobre faz uma análise sobre o Rio de Janeiro, cidade que passa por uma das maiores transformações da sua história e será sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

 

Para a arquiteta, “o que veio à tona (nas manifestações), no fundo, foi a própria crise da cidade, junto com a recusa a um modelo de cidade limitada a poucos, em detrimento de muitos. Por isso, se as reinvindicações se mostraram variadas, e muitas vezes difusas, a estratégia não deixou de ser fundamentalmente a mesma: ocupar (e tensionar) o espaço público — seja ele uma praça, uma rua, um túnel ou os jardins de um palácio.”

 

Abordando a questão específica da gratuidade, o engenheiro Lúcio Gregori, secretário municipal de Transporte de São Paulo entre 1990 e 1992, defende a viabilidade da bandeira do Movimento Passe Livre, embora ressalte que, para colocá-la em prática, é necessário repensar toda a organização dos sistemas de transporte nas metrópoles brasileiras. Trocaria-se o sistema de concessão, que estabelece a tarifa como garantia do equilíbrio econômico-financeiro do contrato, por outro, de fretamento de frota, onde as empresas seriam remuneradas pelo Estado de acordo com um serviço específico, sem ingerência sobre o itinerário das linhas e o valor da passagem.

 

Já Paulo Mendes da Rocha identifica nos protestos a insatisfação com o que chama de “escravatura mascarada”. “Se o operário não precisasse gastar três ou quatro horas por dia no transporte, ele teria três ou quatro horas para estar aqui, nessa roda, conversando sobre esses temas. Portanto, uma das formas mais eficientes de opressão do homem contra o homem, na minha opinião, é manter o outro constantemente aflito: como fazer com a criança, como arranjar comida para amanhã, como ir para casa e voltar etc. Manter um estado de desequilíbrio e desorganização na vida é uma forma de escravatura mascarada”, critica.

 

Gilberto Gil viu o sentimento de insatisfação generalizada que tomou conta da multidão como sinal de um cansaço civilizacional. Para o compositor, “nossa queixa não é propriamente em relação aos nossos males, é em relação a males generalizados da sociedade humana. É o cansaço desse modelo de civilização, dessa máquina mercante, como já dizia Gregório de Mattos há três séculos: ‘Ó, quão dessemelhante…’.” Maria Borba, uma das organizadoras, conta que o músico questionou a razão de se fazer um livro sobre algo tão recente.

 

— Na conversa com vários deles apareceu essa impossibilidade de se formar, naquele momento, uma análise pronta do que estava acontecendo. Gil imediatamente protestou, com razão, sobre a necessidade de se produzir um livro, algo fechado sobre um movimento que ainda estava acontecendo. Nosso intuito era o de capturar como retratos os pensamentos produzidos no calor da hora ainda sem forma definida, abertos.

 

Uma das entrevistas mais reveladoras do livro é a do coronel da PM Robson Rodrigues da Silva, ex-comandante das UPPs e hoje chefe do Estado-Maior da corporação. O coronel reclama da pressão para criação de novas unidades e da falta de um planejamento para a sua expansão. O militar, que também é antropólogo, faz uma análise crítica da formação dos policiais e de como eles próprios veem o seu papel na sociedade. Na entrevista, feita em agosto de 2013, já aparecem conceitos que norteiam a reestruturação da Polícia Militar anunciada pelo novo comandante-geral coronel Alberto Pinheiro Neto na semana passada. O principal é a adoção, em todos os batalhões, do conceito de policiamento de proximidade já utilizado nas UPPs.

 

João Paulo Reyes, que no texto de abertura do livro faz um resumo dos principais acontecimentos do período, comenta que, no início do projeto, com o passar dos meses, a atenção das pessoas em relação aos protestos foi se dispersando e nem todos viam uma relação de continuidade entre os primeiros protestos de junho e, por exemplo, as greves dos professores e dos garis que ocorreram meses depois.

 

— Há um slogan de 68 que tem muito a ver com isso: as manifestações na época eram “a estreia de uma luta prolongada”.

 

Fonte: O Globo

Categoria: Literatura e Filmes
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PARA INCENTIVAR LEITURA, PROJETO TRANSFORMA TÁXIS EM BIBLIOTECAS MÓVEIS

Iniciativa permite que leitores levem livros para casa e devolvam em outros táxis cadastrados

Já imaginou se em cada táxi que você entrasse encontrasse livros para ajudar a passar o tempo desperdiçado no trânsito e ainda poder levá-los para casa e continuar a leitura? Essa é a proposta do publicitário mineiro Tallis Gomes, 27 anos, para incentivar o hábito e tornar o tempo gasto no trânsito mais produtivo para os passageiros. Criador de um aplicativo para localizar táxis, o publicitário decidiu incorporar a Bibliotaxi, uma espécie de biblioteca móvel, nos veículos cadastrados no aplicativo.

 

O taxista Diego Kaleo Santana, 33 anos, aderiu ao projeto há três meses e aprovou a iniciativa

 

Inspirado em iniciativa com os táxis da Vila Madalena, em São Paulo, Thalis abraçou a causa e decidiu levar a ideia para todo o Brasil. O projeto, que começou em janeiro de 2013, ganhou corpo com a doação de mais 80 mil livros de uma livraria no ano passado e hoje já funciona em 26 cidades.

 

A ideia é bastante simples. Uma sacola é deixada pelo taxista no banco de trás do veículo com pelo menos três livros – que podem ir de clássicos como O príncipe, de Nicolau Maquiavel, à best sellers como A culpa é das estrelas, de John Green. Então, o passageiro escolhe o título e dá início à leitura. Se ele gostar, pode levá-lo para casa. Para devolvê-lo, basta localizar um outro táxi cadastrado na Bibliotáxi e entregá-lo ao motorista. “A intenção é que os livros retornem aos veículos por meio dos passageiros e que isso continue a funcionar com a ajuda deles, que podem doar livros para o projeto”, explica a representante da Easy Taxi, Camila Ferreia.

 

Em Brasília, 60% dos taxistas que são cadastrados no aplicativo já usam a biblioteca à bordo. Na profissão há oito anos, Diego Kaleo Santana, 33, aderiu ao projeto há três meses e aprovou a iniciativa. “A maioria das pessoas gosta da ideia, mesmo ficando um pouco receosas em levar o livro. Para nós, acaba sendo um atrativo a mais”, conta. Leitor assíduo desde criança, Diego explica que, entre uma corrida e outra, não resiste ao hábito. “Quando eu leio, me coloco na figura central da pessoa e consigo encarar melhor a vida. As pessoas que leem são, com certeza, mais felizes”, relata o taxista.

 

Passageiros também aprovam a ideia da “biblioteca ambulante”. A filósofa e servidora pública Antônia Sylvhia, 52 anos, conta que se surpreendeu ao entrar em um táxi com livros. “Já vi ações na parada de ônibus, mas no táxi é a primeira vez”, disse. Para ela, toda forma de informação e incentivo a leitura é válida. Apesar da possibilidade de levar para casa, Antônia acha que os livros podiam ter textos mais curtos para dar tempo de ler no caminho.

 

A estudante do 2º ano do Ensino Médio Maria Vitória Mansur, 16 anos, também não sabia da ideia, e se surpreendeu ao se deparar pela primeira vez com o BiblioTaxi. Veja, a seguir, o que ela achou da ideia.

 

Fonte: Correiobraziliense

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