DUAS SENHORAS DE NEW JERSEY, O POLÍTICO DO AZERBAIJÃO E O ABRAÇO NO PREFEITO DE NOVA IORQUE

Por João Carlos Souto

 

Nova Iorque, 08 de novembro de 2016

 

Duas senhoras de New Jersey

 

No dia (07.11) anterior à eleição fui a 5ª avenida, na altura do número 721, endereço agora mundialmente conhecido, a “Trump Tower”, um prédio com 58 (ou 68, depende da abordagem) andares, parte residencial e parte escritório. Em qualquer outro lugar do mundo seria uma referência em arquitetura arrojada, seja pela altura, pelo vidro que lhe envolve, seja pelo mármore presente em cada centímetro do “atrium” (parte aberta ao público) onde fica o “Trump Bar”, entre outras lojas, como a da Nike. Aqui em Nova Iorque, a cidade que mais tem “arranha-céus” no mundo (a segunda é Chicago) a “Trump Tower” é somente mais uma “Tower”.

 

(Local de votação no Brooklyn, Nova Iorque. Foto: João Carlos Souto)

 

Havia um grupo de manifestantes na entrada principal que contava com forte aparato policial. A maioria pró-Trump, uns poucos a favor de Hillary. Entrei na parte do prédio aberta ao público e me dirigi a loja da Starbucks, que fica no primeiro andar, com ampla vista para o “atrium”. Pedi um “caramel brulee latte” e enquanto admirava o cenário, percebi duas senhoras agitadas, ostentando “buttons” do Trump e conversando sobre a corrida eleitoral. As abordei, me identifiquei como Professor de Direito Constitucional no Brasil e que como estudioso do Direito norte-americano há mais de vinte anos gostaria de entrevistá-las sobre a campanha atual, entre outros assuntos. Elas não hesitaram em falar comigo, foram extremamente gentis. Marsha e Kelly, ambas de New Jersey, ambas com aproximadamente 60 anos de idade, ambas apoiadoras de Trump “way back to the primaries”, como uma delas ressaltou.

 

A primeira pergunta foi dirigida a Marsha que respondeu, em síntese, que apoiava Trump em razão da certeza que ele iria investir nas Forças Armadas (não se esqueça leitor, embora seja uma Democracia consolidada elas têm enorme presença no dia a dia da sociedade norte-americana) “abandonada por Obama”, que retirou benefícios, etc. Ressaltou que apoiava as propostas de Trump relativas à imigração e que como homem de negócios ele seria bom para a economia, muito afetada pelo atual governo e pela enorme presença de imigrantes ilegais. Em seguida indaguei a Marsha se ela via algo positivo na administração Obama, ao que ela respondeu que não via nada positivo, até porque, ressaltou, “ele havia promovido uma divisão racial no país entre negros e brancos, algo que não se via em muito anos”. Perguntei ainda se ela enxergava Hillary como o terceiro mandato de Obama, ao que ela respondeu que ela seria a “continuidade ainda pior”.

 

 

Kelly foi logo registrando que Trump “tem dinheiro, tem poder, tem fama e não estava atrás de nada disso”. Que ele seria um grande presidente porque tinha construído grandes coisas. A entrevista durou quase seis minutos, contudo, 2,5 se perderam. Dessa entrevista há algo que gostaria de ressaltar. Ambas as “Trump supporters” ecoaram a retórica do candidato que a eleição seria viciada e que seria amplamente fraudada. Como tivesse oportunidade de registrar alhures, elas anteviam a derrota que as pesquisas previam. Aliás, importante ressaltar, Hillary Clinton venceu no voto popular, tão qual Al Gore quando disputou contra George Bush (filho) teve mais votos, entretanto, perdeu no “Colégio Eleitoral”. O resultado é uma surpresa amarga, mas tem que ser respeitado, nos termos da Constituição e da Democracia que prevalece neste país.

 

O político do Azerbaijão

 

No dia 08, terça-feira, acordei cedo, dei uma olhada nos jornais e tomei o rumo do metrô, se, como diz o ditado, todos os caminhos levam a Roma, em Nova Iorque todos os caminhos levam ao metrô. Antes, parei numa padaria, na 23, esquina com a 8ª avenida, lá conversei rapidamente com um marroquino com quem me encontrara dois dias antes. Ele me dissera que seguiria para upper town Manhattan, mais precisamente para o Central Park. Meu caminho era outro o “Brooklyn Heights”, mais precisamente o “Cadman Plaza”, prédio que sediava o quartel general da campanha de Hillary.

 

Cheguei lá por volta das 10:00 h e surpreso constatei que o “Quartel General” da campanha de Clinton embora sediado em um prédio vistoso, tinha uma estrutura pequena, pelo menos na parte aberta ao público. Conversei com algumas pessoas e fui apresentado a Bakhtiyar Hajiyev, “ativista, blogger e candidato a deputado à Assembleia Nacional do Azerbaijão”. O Azerbaijão é um país transcontinental e integrou a extinta União Soviética, obtendo sua “Independência” em 1991. Apesar de existir eleições, tanto parlamentares quanto para o Executivo, não parece ser uma democracia plena.

 

Tanto é verdade que Bakhtiyar cumpriu parte de uma pena de prisão, ao que tudo indica, por conta de seu ativismo político, embora a acusação formal tenha sido a de recusa de alistamento e serviço militar.

 

Pelo pouco tempo que conversamos percebi em Bakhtiyar um idealista em busca de ampliar os horizontes democráticos do Azerbaijão. Gravei com ele uma entrevista de aproximadamente 3 minutos sobre as eleições nos Estados Unidos. Ele salientou a importância de Hillary Clinton para sua liberdade no Azerbaijão e mais que isso a relevância da eleição dela para a Democracia no mundo.

 

Hillary visitou o Azerbaijão em junho de 2012, dias antes Bakhtiyar foi libertado da prisão por bom comportamento e em seguida recebido pela então Secretária de Estado. Evidente que sua liberdade precoce estava relacionada com a natureza de sua prisão, com a pressão internacional e com a agenda de Direitos Humanos da Administração do Presidente Barack Obama.

 

O abraço no Prefeito de Nova Iorque

 

Logo após entrevistar Bakhtiyar fui apresentado ao Prefeito Bill de Blasio e sua simpaticíssima senhora, Chirlane MacCray. Conversamos brevemente. Disse a ele o tradicional “come to Brasil, visit us” e falei um pouco sobre Brasília. Perguntei sobre a eleição e ele afirmou da “certeza” da vitória da Hillary e da importância de todos votarem. Disse a ele que no ano passado tive a oportunidade de ser apresentado a Rudolph Giuliani, ex-Prefeito de Nova Iorque no fim da década de 90 do século XX e início deste século. Ele riu, sem comentários, até porque são de partidos políticos opostos. Por fim, disse a ele que fui fotografado com dois grandes prefeitos, ao que ele, rindo, respondeu: “really?!!”

(Professor Souto, Prefeito de Nova Iorque Bill de Blasio e sua esposa Chirlane MacCray. Foto: João Carlos Souto)

 

Acesso aos vídeos:

 

As entrevistas mencionadas neste post podem ser acessadas no www.jsouto.com (blog) ou diretamente no youtube, digitando “Brazilian Legal System”.

 

 

João Carlos Souto, Professor de Direito Constitucional do Centro Universitário UDF, Mestre em Direito Público, Procurador da Fazenda Nacional, autor de “Suprema Corte dos Estados Unidos – Principais Decisões”, Atlas, 2ª ed., 2015, ex-Secretário de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (2015/2016), www.jsouto.com

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