Não dê risada!

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Regina Tavares

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em 11/out/2011 - 6 Comentários

Em conversa com amigos na semana passada, uma constatação consensual: ser politicamente correto nos dias de hoje é muito complicado. A afirmação em tom de crítica partiu de dois publicitários após a intervenção do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o Conar, em recentes campanhas publicitárias. Para listar algumas polêmicas está: a dos Pôneis Malditos da Nissan e sua atitude considerada ofensiva aos animais; a da comemoração dos 150 anos da Caixa Econômica Federal que optou por um ator branco na interpretação do célebre imortal e negro Machado de Assis; e, por fim, a da Hope Ensina, acusada de tratamento machista.

Esta última campanha traz Gisele Bündchen como garota propaganda e tem como mote ensinar as mulheres a lidar com situações de crise no casamento. Em uma dessas situações, Gisele aparece plenamente vestida, o que é considerado errado para a campanha quando se pretende dar notícias do tipo: “Amor, bati o seu carro”, “Mamãe vai morar com a gente”, ou ainda, “Amor, estourei o limite do cartão de crédito. Ah… O seu e o meu”. Para a Hope, o correto é dar notícias como essas usando apenas lingerie, afinal a mulher deve abusar do seu poder de sedução.

Alguns julgam a campanha como sexista e truculenta e ainda a acusam de reiterar a figura de uma mulher financeiramente dependente do marido e desprovida de argumentos plausíveis, alternativos ao jogo de sedução. Outros defendem a campanha em repúdio à hipocrisia de parte dos brasileiros ao se queixar de mulheres seminuas na publicidade, enquanto o carnaval as exibe nuas em pêlo. Definitivamente, o tema divide opiniões e aquece o debate sobre liberdade de expressão e o controverso termo Politicamente Correto.

Talvez devêssemos buscar a origem da expressão Politicamente Correto para buscar pistas sobre o impasse acima. O termo apareceu pela primeira vez na China dos anos 30 em razão dos preceitos políticos adotados por Mao Tsé-Tung, mas obteve o significado que conhecemos hoje na década de 60 nos Estados Unidos. Nesse período, espaços como o da Universidade, passaram a exibir a diversidade de seu tempo: inúmeras etnias, pluralidade de gêneros e classes sociais opostas. Para peritos no assunto, era preciso ensinar as pessoas a conviver com as diferenças.

Nos anos 90, diante do declínio do socialismo, a preocupação dos movimentos sociais foi ampliada e diferenças pessoais entraram em pauta. Daí, obesidade se tornou sobrepeso; deficiência física, necessidade especial e velhice, melhor idade.

Gente que vive de humor como Rafinha Bastos do programa CQC (Band) passa ao largo da palavra limite e acaba amargando o insucesso de suas piadas consideradas de mau gosto. Sua agressividade parece ter se transformado em arma contra a onda politicamente correta das últimas décadas, o que definitivamente não resolve o problema e, muito menos, faz rir. A gota d’água foi ter feito piada com a cantora Wanessa Camargo que está grávida. “Eu comeria ela e o bebê”, afirmou Rafinha. Coincidência ou não. Medida corretiva ou não. Rafinha Bastos não faz mais parte do programa, desde o dia 3/10 (segunda-feira).

Esta parece uma daquelas discussões bizantinas sobre o que vem primeiro: o ovo ou a galinha? É fundamental pensarmos sobre a linha tênue que divide o politicamente correto da hipocrisia, do cerceamento da liberdade de expressão e, inclusive, do humor. Qual a sua opinião sobre o assunto?

Inté!

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