CYBER ETIQUETA?

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Regina Tavares

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em 28/ago/2014 - 5 Comentários

Por Regina Tavares

Os últimos acontecimentos me fizeram refletir sobre a necessidade proeminente de uma espécie de cyber etiqueta ou coisa que o valha em tempos de frenesi pelas redes sociais.

Primeiro foi a filmagem de um menino levado perdendo o braço após cutucar o tigre com vara curta, envolto em sangue e bits, teimava em aparecer no feed do meu Facebook. Depois foi o bombardeio asqueroso e nefasto sobre a envergadura cênica do ator Robin Williams após seu suicídio, ainda assombrado por elementos trágicos como depressão, Mal de Alzheimer e alcoolismo.

Um enredo sombrio e nada ficcional que não impediu a comunidade digital de tecer considerações no mínimo insensíveis sobre alguém que acabava de morrer, em especial, em condições tão lamentáveis. Parece que o embrulho estomacal se estendeu a outras instâncias, pois até o Twitter prometeu rever regras de publicação sobre assédio moral após as queixas da filha do ator norte-americano sobre o que rolava na rede. Talvez ela não estivesse tão preocupada com a reputação do pai para a posteridade, mas em suma, com a dignidade do seu luto.

Logo depois da demonstração clara de falta de senso virtual, foi a vez da morte de Eduardo Campos e sua equipe no litoral paulista. Após a repercussão massiva da imprensa e a especulação sensacionalista da mídia em torno da sucessão do candidato e das causas do acidente, eis a apoteose do selfie. O autorretrato de uma mulher sorridente diante do caixão presidenciável foi a cereja do bolo que faltava para as redes sociais. Logo se tornou um meme dos mais compartilhados e comentados.

Houve quem achasse válido, democrático e justo. Para alguns companheiros virtuais, “seria uma homenagem ao mártir que ali se consagrava”, “apenas, uma demonstração de admiração documentada pelo fascínio da fotografia.” Entretanto, também houve vozes dissonantes nas entrelinhas online que julgaram a ação no mínimo inapropriada, condenável e ridícula. “É preciso se instituir uma espécie de cyber etiqueta”, um internauta esbravejou com empáfia de educador.

O fato é que não se trata de educação, classe social ou moral. O todo-poderoso presidente dos Estados Unidos, Obama, também estrelou um famoso selfie no funeral de Mandela e aparentemente incomodou a ciumenta esposa e a opinião pública. Sem-noção em funeral também não é novidade. Os estereótipos vão dos comentários impertinentes do cunhado bêbado ao choro alucinado da amante do falecido. Acredito que antes da crítica é preciso desencadear a compreensão. É necessário refletir se o que está em xeque é nossa inabilidade de criar vínculos com os acontecimentos e as experiências sem a mediação das imagens ou apenas a ancestral dificuldade em lidar com a morte.

 

Inté!

Interatividade? Para quem cara pálida?

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Regina Tavares

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em 28/nov/2012 - 17 Comentários

Na semana passada, o Estadão online publicou matéria sobre a polêmica e tardia reforma do Museu do Ipiranga. Há tempos a empreitada se arrasta e tem deixado inúmeros arquitetos de cabelo em pé para conservar o monumento, hoje, em péssimo estado de conservação. Para ter uma ideia, apenas 800 pessoas podem trafegar simultaneamente no espaço sem riscos de desmoronamento.

No primeiro semestre deste ano, Sheila Walbe Ornstein foi nomeada diretora do Museu e logo de cara anunciou: “É preciso deixá-lo como patrimônio, no século XIX, mas, ao mesmo tempo e cuidadosamente, transportá-lo para o século XXI.” A arquiteta disse isso em referência às diversas mudanças a serem propostas no local em sua gestão, entre elas, as que dizem respeito à interatividade.

No Twitter, os comentários dos internautas repercutiram a notícia da reforma em diferentes frentes de discussão. Uma delas me chamou a atenção: “É preciso mais mecanismos interativos neste Museu com o uso de computadores e outras ferramentas da mesma ordem.” Todos referendaram o comentário acima e o complementaram mecanicamente, sem uma maior reflexão sobre a rica discussão que se apresentava ali. Desde o início dos anos 90, com o advento da Internet, um frisson em torno da palavra interatividade tomou conta do mundo. Aparentemente, o emprego da palavra mágica “interatividade” está associado ao uso da tecnologia. No que tange à febre “museográfica” que tem acometido o indivíduo nos últimos tempos isso se acentua.

Segundo o autor Jeudy, “Os museus multiplicam-se, uma quantidade infinita de objetos, de imagens e de relatos é conservada para testemunhar as riquezas da criação cultural, da inovação técnica ou da dinâmica da significação dos modos de vida. Nada parece conseguir escapar a esse empreendimento de estocagem e de classificação.” (1990, p. 1)

No caso dos museus que se multiplicam aos montes numa sociedade em que – definitivamente – não se controla mais o tempo, um computador e uma tela de Led parecem determinantes para que haja interatividade entre visitantes e museu. Mas pergunto: Interatividade? Para quem, cara pálida? Muitos autores já sinalizaram em publicações recentes que contemplar um quadro por horas a fio no MASP, por exemplo, pode ser muito mais interativo do que visitar o Museu do Futebol e ficar boquiaberto com o espetáculo tecnológico que faz o olhar dos amantes do esporte brilhar, ou ainda que estimula crianças a clicarem freneticamente e sem propósito algum nas telas ditas “interativas”.

Incômodos como esse, se apresentam nas mais variadas relações estabelecidas pela humanidade. Outro dia escutei no rádio uma antropóloga afirmar que o namoro do século XXI nunca foi tão interativo quanto hoje com o uso das redes sociais. Até agora estou pensando: “Como assim?”. Devemos refletir sobre a distinção entre interatividade e interação para não vislumbrar, de forma ingênua, a salvação bizantina no uso da tecnologia e esquecer o quão prazerosas são determinadas formas tradicionais de se viver, como no caso do namoro ou da simples contemplação de uma obra artística.

Inté!!!

EU QUERO TER UM MILHÃO DE AMIGOS

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Regina Tavares

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em 09/jun/2011 - 30 Comentários

Outro dia, ouvi alguns alunos combinarem uma aposta, no mínimo, curiosa. Eles deveriam disputar quem alcançaria o mérito honorável de ter 500 amigos até o final do mês. A aposta se referia ao Facebook, genial recurso para quem ousa ter um milhão de amigos: o Mark Zuckerberg, o Roberto Carlos, eu, você. Para quem acredita que “amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito” e pensou em gente de carne e osso, alerto que a meta de 500 amigos é impossível em apenas uma encarnação.

Calma, a constatação tem fundamento científico. Uma pesquisa empenhada pela Universidade de Oxford chegou à conclusão de que só podemos ter 150 amigos ao mesmo tempo. Pois é, o cérebro humano não suporta arquivar dados sobre mais de 150 pessoas simultaneamente. Para tal estudo, quem ultrapassou esse limite, mantém alguns conhecidos na condição de colegas e não de amigos sinceros.

O fato é que nas redes sociais, alguns amigos não fazem parte do seleto grupo dos 150. Prova disso é que em 2009, a divisão americana da Burger King lançou um aplicativo perverso no Facebook: a cada dez amigos excluídos do seu perfil, o usuário ganharia um sanduíche gratuitamente. E o mais polêmico: como no Facebook, nenhuma mensagem é entregue aos amigos excluídos, a Burger King enviava uma mensagem ao amigo sacrificado, informando que ele havia sido trocado por um sanduíche.

É muito bom estar perto de pessoas queridas, melhor ainda, é fazer novas amizades todos os dias. Nesse sentido, as redes sociais já possuem um papel definitivo em nossas vidas e já provaram sua influência nas amizades vivenciadas neste século. O que não dá para negar também é que, por vezes, tais redes sociais amenizam nossa consciência em meio ao cotidiano atribulado em que vivemos. Afinal, quantos abraços não foram postergados? Quantos encontros não ficaram só na promessa? Será que, às vezes, escrever no mural do dito “amigo” não representa uma atitude solitária, descomprometida e superficial?

Obviamente, no estágio complexo em que se encontra a humanidade, não é possível responder estas questões com facilidade, entretanto, vale a reflexão.

Inté!

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