Tempos modernos

Postado por

Regina Tavares

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em 09/out/2012 - 9 Comentários

“Somos a sociedade da tela.” A afirmação é do autor russo Lev Manovich e foi registrada em 1999, em um de seus polêmicos livros a respeito da era das mídias digitais. Com o advento da Internet, nos anos 90, a tela do computador deixa de ser mera ferramenta operacional para se tornar um respeitável meio de acesso para demais objetos culturais, ou seja, a parede da galeria de arte é transportada para a tela do seu notebook, o programa televisivo migra para a tela do seu smartphone e a página daquele livro antigo surge com roupagem nova na tela do seu ipad.

São outros tempos, talvez modernos, qualquer um afirmaria. Entretanto, basta uma reflexão mais atenta e notamos que a tão festejada tela da contemporaneidade se assemelha e muito a outros objetos culturais tradicionais como a imprensa e o cinema.  Ao se deparar com o livro ou o filme, o ser-humano se vê diante de uma moldura, um quadro; um recorte do todo, capaz de conduzir o nosso olhar por trajetórias pré-estabelecidas por outros. Obviamente, a inserção do homem na cultura da alfabetização ocidental tendencia nossa visão de mundo e a condiciona dentro dos parâmetros da linearidade. Observe só: lemos de frente para trás, da esquerda para a direita, de cima para baixo e por aí vai.

A tela do computador não escapou destas convenções e nos apresenta similaridades com a imprensa. Repare que a barra de rolagem presente nas páginas online se assemelha aos antigos papiros da Era Cristã, dispostos em rolos. Os jornais e revistas, transportados do impresso para o digital, reproduzem mecanismos analógicos e mecânicos, como por exemplo, a virada de página com o respectivo som, aqui, do mundo real. Aliás, não é à toa que a imprensa digital ainda não se consolidou como modelo rentável de negócio ao se aventurar no universo online.  Ao menos, quando emprega os mesmos recursos do impresso em plataformas digitais.  Contudo, não desprezemos inovações na leitura digital, que vão do uso de imagens em movimento à holografia. Outro dia, na Bienal do livro, me surpreendi com a personagem Narizinho, de Monteiro Lobato, espirrando sem parar com minhas cócegas em seu famoso nariz arrebitado. Morri de rir e confesso que me esqueci de ater à adaptação do livro para o Tablet.

Mas enfim, a dispersão é o mal do século e este é um tema para outro post, não é mesmo?! O fato é que estamos flutuando de um lugar para outro ao acessar as variadas telas, ou “janelas” do Windows. Estamos sendo conduzidos – alegremente – entre um hiperlink e outro, um tag e outro,  ad aeternum. Somos quase zumbis hi techs posando de seres autônomos em plena era digital.

Não somente a lógica da imprensa foi reaproveitada pelas mídias digitais. O cinema também pode reivindicar a parte que lhe cabe deste latifúndio. A sociedade atual apresenta cada vez mais informações no formato de sequências audiovisuais de imagens em movimento, em detrimento do texto. Essa visão cinematográfica do mundo influencia inúmeros aspectos do nosso cotidiano, entre eles, as formas de narrar e compreender algo.

Muito espertos,  gênios como Steve Jobs e sua plataforma Apple, se utilizaram de mecanismos como a moldura do cinema, os enquadramentos e os movimentos de câmera da grande tela, além de outros segredinhos para atrair o público. E sabe por quê? Porque nada causa mais identificação entre produto e consumidor do que trabalhar com uma linguagem já familiar. Essa premissa do saudoso Jobs revolucionou um mercado que foi capaz, inclusive, de alterar o aspecto monocromático e sem personalização, do antigo e não-saudoso, padrão Dos.

[Para quem nunca ouviu falar do sistema operacional Dos, por favor, consulte o Google. Não quero me sentir velha demais, hein?!]


Voltando ao nosso bate-papo… Acha que estou fazendo associações sem sentido? Então, repare como a Macintosh, além de aplicar técnicas do cinema, tratou logo de empregar a metáfora do escritório para a organização dos dados no seu sistema operacional. Tudo o que tem no ambiente Mac tem no seu escritório do mundo real: lixeira, arquivos, diretórios, pastas, documentos etc. Tudo isso é nada mais, nada menos, que a busca incessante da Apple por uma linguagem já familiar ao consumidor. Trim! Trim! Trim! Ops… Me dá licença, aquela telinha que carregamos quase como extensão de nós mesmos – chamada celular – acaba de requisitar a minha atenção. Mas antes de ir, deixo a indicação de um vídeo muito interessante. Nele, você verá como a cultura da tela fará parte de nossas vidas em um futuro bem próximo. Acesse:

Inté!

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